Entrevista com as Mães de Maio - Chacinas em São Paulo: do luto à luta

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No mês de maio de 2006, cerca de 500 jovens foram executados por policiais e seus grupos de extermínio em São Paulo e na Baixada Santista, mortes justificadas pelo Estado genocida como “retaliações a ataques do PCC” contra agentes das forças de repressão.

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As Mães de Maio têm atuação destacada na denúncia do terrorismo de Estado no Brasil

Esse não foi um “caso isolado”, pois esses grupos de extermínio atuam em todo o país matando jovens das classes trabalhadoras e moradores das periferias, como nos casos do Cabula (BA), Manaus (AM); Vigário Geral, Acari, Candelária e os crimes diários das Unidades de Polícia Pacificadora UPPs (RJ), entre muitos outros casos pelo Brasil. O mais recente caso, em São Paulo, ocorreu em agosto de 2015 na região de Osasco, Barueri e Itapevi. Numa única noite foram assassinadas 19 pessoas. 

A partir dos assassinatos de maio de 2006 e do descaso da “justiça” burguesa, surge um grupo de mães das vítimas lutando contra o terrorismo de Estado. São as Mães de Maio.

Conversamos com Vera Lúcia e Sonia Lins, integrantes do movimento que perderam os filhos Mateus e Vagner, respectivamente. 

Vera Lúcia conta que, no dia 17 de maio de 2006, seu filho foi para a escola. Havia vários dias que ele não tinha aula por causa do toque de recolher e o secretário de Segurança Pública (à época, Saulo de Castro Abreu Filho) se pronunciou dizendo para todos voltarem às aulas, pois estava tudo “normal”. Ao chegar no colégio, outra vez não teve aula. Mateus voltava para casa com um amigo e no caminho duas motos com dois encapuzados em cada uma atiraram neles e em todos os jovens que estavam em frente a uma pizzaria, na rua em que mora Vera Lúcia.

Levamos ele já morto para a Santa Casa, mas ainda com alguma esperança. Estava uma loucura, todo mundo chorando e uma das moças gritava para um dos policiais: ‘Parem de matar! Parem de matar e trazer pra cá!’. O policial respondeu todo nervoso: ‘Então vamos fazer B.O.’ — diz Vera. Mais uma noite de terror naquele maio, com dezenas de mortos e feridos.  

Meu filho foi almoçar comigo na segunda-feira [15 de maio] como comemoração de dia das mães que havia sido no dia anterior — conta Sonia Lins.

Ele era pizzaiolo e, naquele dia, após sair da minha casa, ele foi visitar minha filha e ver meu neto, que ele gostava muito. [...] Ele nunca brincou tanto com a criança como naquele dia. Após isso ele foi jogar video game com o primo e no meio do caminho esses encapuzados pegaram eles. Eram dois encapuzados numa moto, o meu filho levou seis tiros e morreu. Meu sobrinho sobreviveu. […] Ele era um menino bom que nunca me deu trabalho e isso me dói muito.

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Do luto à luta

 Dona Vera e Dona Sonia se juntaram na dor do luto ao conhecerem Débora Maria da Silva, mãe que também perdeu o filho nas mãos de assassinos a serviço do velho Estado brasileiro. Foram à luta atrás da verdade e de justiça com o movimento Mães de Maio, o qual Débora é fundadora e coordenadora.

Enterramos nossos filhos e, depois de alguns dias, a Débora veio em casa junto com outra mãe, a Nalva, que perdeu o filho no dia das mães. Nos juntamos, conversamos, mobilizamos, fomos até em delegacias, mas eles tratavam como se não tivesse acontecido nada. À partir daí começamos nossa luta — lembra Vera.

Por sua vez, Sonia relata que ficou muito tempo arrasada e que após oito meses é que conheceu Débora.

Ela foi falar sobre a morte dos meninos no colégio que estuda meu sobrinho. Aí minha ex-cunhada escutou e ligou pra mim. Depois que encontrei a Débora eu me juntei ao grupo e, de lá para cá, a gente está nessa luta. Não é fácil, é uma luta muito sofrida pra ver se a gente consegue resgatar nem que seja esses que estão aqui, evitar essas mortes. Já tem muita gente chorando, nossos filhos não vem mais, mas não queremos que os filhos das outras pessoas se vão, nem os nossos mesmos, porque a gente também tem mais. Têm os filhos, os netos e agora eu tenho um neto de 11 anos e outro com 10. A gente tem medo. Mas a luta é essa

 As mães contam que após recorrerem a muitos orgãos, delegacias, secretário de Segurança, promotores, etc, passaram a entender cada vez melhor que esses assassinatos em série que ocorrem em tantos lugares do Brasil diariamente são, na verdade, parte de uma política de Estado. Existe um descaso generalizado em averiguar crimes e assassinatos cometidos por policiais, tanto em horário de serviço quanto fora dele. Fardados ou encapuzados.

Quando eles matam nossos filhos, eles criminalizam. Meu filho, por exemplo, vinha da escola, era pra ele estar na escola, mas a escola não abriu. Os policiais disseram que o Mateus devia drogas. [...] Pedimos o exame toxicológico dele, que deu negativo para substâncias tóxicas, bebida, qualquer coisa. Eles matam e ainda criminalizam. Ele não tinha nada a ver com drogas e, mesmo se tivesse, não é motivo. Mesmo assim, o processo foi arquivado — afirma Vera Lúcia, que continua:

Nos juntamos, foram chegando mais mãe. Ao longo do tempo houveram mais mães porque infelizmente essas mortes continuaram, como continuam até hoje. Temos mães de 2010, de 2014. A gente vê que a coisa não parou. Não é só aqui, né? No estado de São Paulo inteiro, no Rio, na Bahia, todos os estados do Nordeste [...] Infelizmente a gente vê que, em cada local, existe um grupo de extermínio assassinando.  

Chacina de Osasco e região, um mês depois 

Passado um mês da chacina de Osasco, Barueri e Itapevi, onde no decorrer de uma semana foram executadas 27 pessoas (19 numa única noite como dissemos acima), além de permanecer o ambiente de terror e insegurança para a população, os responsáveis pela chacina seguem impunes. Testemunhas vêm sendo ameaçadas, provas ocultadas, em suma, a mesma política estatal de encobrir e proteger policiais assassinos.

No último  dia 2 de setembro, mesmo admitindo ter ocorrido pelo menos oito chacinas no estado de São Paulo desde o começo do ano, o secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, cometeu discurso na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) afirmando que “não há nenhuma relação entre as chacinas ocorridas desde o começo do ano. Não há indício ou prova em relação a isso. São fatos isolados e por motivação diversa, naquelas em que já foi possível atingir as motivações. Não temos nenhum indício de conexão entre as chacinas, consequentemente não temos indício de que há um grupo de extermínio atuando no estado”.

  — Isso tá acontecendo no país inteiro. As milícias se formam, uma aqui, outra ali. Vão formando esses grupos e acabando com quem eles querem. Um policial é morto […] daí a polícia vem e mata 10, 20 indiscriminadamente. Não importa quem seja, eles nem querem saber se foi aquele, se deixou de ser, eles pegam ali na rua quem estiver — observa Sonia Lins.

A gente foi em Osasco e encontrou com mães totalmente arrasadas. Ficamos arrasadas, mas ainda estamos firmes. O tempo foi passando e a gente fica em pé. Mas as mães de agora estão muito caídas e têm mães que ficam doentes, têm mães morrendo por causa disso. Minha filha mesmo ficou doente desde que perdeu o irmão — conclui.

Fiz um tratamento, conheci pessoas que tomavam até trinta remédios por dia e hoje estão mais equilibradas. Porque a gente precisa desse equilíbrio, sabe. A gente precisa transformar esse país — conclui.

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