A máfia sindicalista sob gerenciamento petista

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Dois acontecimentos recentes são uma eloquente demonstração da degeneração a que chegou o sindicalismo brasileiro sob a égide petista. O primeiro encontramos em forma de denúncia no site da Liga Operária sob o título ‘Peleguismo 5 estrelas e apoio aos cortes de direitos dos trabalhadores’ no qual afirma que “A pelegada da CUT, cevada nas mordomias em hotéis 5 estrelas, se esbaldou no bar e restaurante do luxuoso hotel ‘Ouro Minas’, no último final de semana, em Belo Horizonte”. “Foi muito boa a festa”, repercutiram alguns militantes cutistas nas redes sociais ao se referirem ao ‘congresso’ estadual da entidade governista. Foram 355 integrantes da CUT, central sindical umbilicalmente ligada ao PT, hospedados(as) no fim de semana no Ouro Minas Palace Hotel, único cinco estrelas da cidade. No hotel, informou-se que todas as diárias, incluindo café da manhã e despesas, eram por conta da CUT.

João Carlos Gonçalves, em nota distribuída à imprensa, condenou a manifestação de apoio a Eduardo Cunha com o grito “Cunha, guerreiro do povo brasileiro”. Na nota, Juruna, como é conhecido, afirma que “O ato de sexta-feira, dia 21 de agosto de 2015, no Palácio do Trabalhador, sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, quando a Força Sindical recebeu o presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, descambou para uma cena lamentável: o que era para ser uma atividade institucional e imparcial, para conversar sobre as leis e medidas que estão em tramitação ou que já foram votadas, transformou-se num ato partidarizado, de apoio a um político que está sendo denunciado pelo Ministério Público”. E mais  adiante ele procura se demarcar da CUT, afirmando o que a Força deveria ser, pois, na verdade, ela nunca foi: “A Força Sindical para ser levada em conta cada vez com mais seriedade pelos atores que decidem no país — representações de trabalhadores, empresários, intelectuais, universidades, grandes entidades da sociedade civil, Igrejas dignas, Congresso Nacional, Poder Judiciário e Governos —, deve se dar o respeito como entidade sindical multipartidária, como está colocado desde a fundação, e não joguete e instrumento de partidos ou pessoas, como tem se caracterizado os companheiros da CUT ao longo de sua história”.

A vinculação das duas maiores centrais sindicais brasileiras ao Partido Único da subjugação nacional, colocando-se cada uma delas em um polo da pseudo-polarização direita X “esquerda” ou PSDB X PT, arrastando suas bases para participarem de manifestações de rua contra ou a favor do gerenciamento petista foi, inclusive, alvo de uma observação do último editorial do AND, que localizou o problema da degeneração do sindicalismo, entre outras coisas, na utilização de suas bases em claques de partidos eleitoreiros: “Igualmente, as manifestações de apoio ao governo só demonstram o grau de decadência e apodrecimento a que chegou o gerenciamento petista e sua frente ‘popular’, oportunista e eleitoreira. No mesmo dia 16, numa tentativa de se contrapor aos protestos contra a gerência de turno, a CUT promoveu, na frente do Instituto Lula, um ato miserável, que beira a comédia, reunindo a militância paga e funcionários de sindicatos, transportada em ônibus fretados pela central pelega. Uma verdadeira pândega de barrigudos burocratas e mafiosos mais”.

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Aprofundando o espírito fascista da CLT

Quando Getúlio Vargas criou a CLT à imagem e semelhança da Carta del Lavoro, obra do fascista italiano Benito Mussolini, muitos saudaram tal iniciativa por ser considerada um avanço, pois as questões do trabalho deixavam de ser tratadas pela polícia e passavam para a esfera do então criado Ministério do Trabalho. Não entenderam que, pelo espírito corporativo do fascismo, patrões e empregados deveriam, ambos, resolver suas pendências de forma conciliatória sob a tutela do Estado.

A bandeira da liberdade e autonomia sindical defendida por todo o movimento democrático que se opunha ao regime militar fascista, passou de forma impetuosa a ser erguida pelos sindicalistas das chamadas oposições sindicais no final da década de setenta e início da década de oitenta do século passado quando colocavam em prática, com a simpatia do regime militar, a construção de um partido burguês no seio do proletariado e uma central sindical do mesmo naipe, tudo embrulhado no mais autêntico radicalismo pequeno-burguês.

Ao assumir o gerenciamento do Estado burguês-latifundiário serviçal do imperialismo (é importante que a qualidade do Estado seja sempre destacada), acontece um processo de fusão do partido e da central com a parte mais apodrecida da dominação imperialista, o setor financeiro.

Em 27 de dezembro de 2012, a Liga Operária repercutiu o artigo ‘A finaceirização da burocracia sindical no Brasil’, de autoria de Alvaro Bianchi — professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas — e Ruy Braga — professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo —, de 17/12/2012. Pelo seu significado, inclusive pela sua ligação com as denúncias de corrupção praticada em larga escala por lideranças petistas, transcreveremos alguns trechos do referido artigo:

“Desde a eleição de Lula da Silva, em 2002, a relação do sindicalismo brasileiro com o aparelho de Estado modificou-se radicalmente. Nunca é demais rememorar alguns fatos. Em primeiro lugar, a administração de Lula da Silva preencheu aproximadamente metade dos cargos superiores de direção e assessoramento — cerca de 1.300 vagas, no total — com sindicalistas que passaram a controlar um orçamento anual superior a R$ 200 bilhões. Além disso, posições estratégicas relativas aos fundos de pensão das empresas estatais foram ocupadas por dirigentes sindicais. Vários destes assumiram cargos de grande prestígio em companhias estatais — como, por exemplo, a Petrobrás e Furnas Centrais Elétricas —, além de integrarem o conselho administrativo do BNDES. O governo Lula promoveu, ainda, uma reforma sindical que oficializou as centrais sindicais brasileiras, aumentando o imposto sindical e transferindo anualmente cerca de R$ 100 milhões para estas organizações.”

A prática do sindicalismo mafioso de alto coturno

“Tudo somado, o sindicalismo brasileiro elevou-se à condição de um ator estratégico no tocante ao investimento capitalista no país (...)”

“Como várias análises críticas do governo do Partido dos Trabalhadores, o problema da hipótese da ‘nova classe’ era explicar como se chegou até esse ponto. Não foram poucos os analistas que acreditaram que a Carta ao Povo Brasileiro, na qual Lula da Silva garantia a segurança dos operadores financeiros, teria modificado de modo radical o curso seguido até então pelo PT e seu candidato. A tese de uma transformação abrupta e imprevista só poderia encontrar apoio na ingenuidade do analista ou na sua incapacidade de enxergar as óbvias mudanças que se processavam nesse partido. A hipótese da ‘financeirização da burocracia sindical’ enfrentava esse problema e localizava sua origem em uma burocracia sindical presente no partido desde seus primeiros passos no ABC paulista e que ao longo dos anos 1990 associou-se gradativamente ao capital financeiro. A trajetória do PT só surpreendeu quem não quis ver ou ouvir.”

“A história recente da burocracia do Sindicato dos Bancários de São Paulo é exemplar. Como muitas entidades filiadas à CUT, a dos bancários de São Paulo alinhou-se com a administração Lula da Silva,  transformando-se em porta-voz do governo na categoria. Em todas as situações nas quais os trabalhadores enfrentaram o governo, a diretoria dessa entidade procurou colocar-se na condição de amortecedor do conflito social, papel desempenhado pelos tradicionais pelegos sindicais. No jornal e nas revistas do Sindicato a propaganda do governo dá o tom. O ‘Sindicato cidadão’ deu lugar ao ‘Sindicato chapa-branca’.”

“Este não é, entretanto, um caso de simples adesismo. É possível dizer que a cúpula dos bancários de São Paulo foi o principal meio de ligação da aliança afiançada por Lula da Silva entre a burocracia sindical petista e o capital financeiro. Na verdade, como previmos, o cimento desse pacto foram os setores da burocracia sindical que se transformaram em gestores dos fundos de pensão e dos fundos salariais. O Sindicato dos Bancários de São Paulo forneceu os quadros políticos para essa operação. Enquanto os sindicalistas egressos das fileiras dos metalúrgicos do ABC ocupavam-se da política trabalhista e Luiz Marinho tomava assento no Ministério do Trabalho, os bancários de São Paulo voavam em direção ao mercado financeiro.”

“Pontos importantes de nosso argumento foram corroborados pela pesquisa de Maria Chaves Jardim que revelou a existência do que chamou de ‘elite sindical de fundos de pensão’. Os principais expoentes dessa elite seriam Luiz Gushiken, Ricardo Berzoini e Adacir Reis. Segundo a pesquisadora, ‘os membros dessa ‘elite’ são oriundos do setor bancário de São Paulo, e fazem parte do núcleo formulador das políticas do PT; passaram pela FGV/SP, são de origem social de classe média, do sexo masculino, considerados brancos e heterossexuais’. A esta lista seria possível acrescentar o nome dos ex-sindicalistas Sérgio Rosa e Gilmar Carneiro, este último também egresso da FGV.”

A prática mafiosa no baixo clero sindical

Se no sindicalismo aristocrático era o envolvimento direto com as questões ligadas aos grupos de poder no Estado que motivavam a eliminação de qualquer possibilidade de alternância na direção das entidades, no restante do movimento sindical, com raríssimas exceções, abriu-se a temporada de banditismo aberto com a venda de acordos e assalto desbragado aos recursos do sindicato formando patrimônios  pessoais de origem duvidosa, além das práticas bandidescas de manutenção de bate-paus e roubo de eleições pelas fraudes de urnas. A compra de dirigentes sindicais pelas centrais tornou-se fato corriqueiro. Hoje elas atingem o número de oito a disputarem os recursos do imposto sindical distribuídos de forma proporcional ao número de sindicatos filiados à central. O Estado, sob o gerenciamento petista, não só tolera como incentiva esta degeneração, uma vez que ela é funcional à manutenção da subjugação nacional.

Novos horizontes começam a ser visualizados através da atitude de algumas categorias que, tomando consciência de quão é nocivo este quadro aos verdadeiros interesses dos trabalhadores, se afastam de todas as centrais, remarcando o seu repúdio aos que gestaram este estado de coisas.

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