Grécia: recorde de abstenções na farsa eleitoral

A- A A+

Às vésperas das eleições do último 20 de outubro na Grécia, um grande jornal europeu reproduzia com destaque em sua página na internet os dizeres de um cartaz pendurado em uma farmácia de Atenas: “Cortaram-nos as pensões, cortaram-nos os subsídios, cortaram tudo. E agora têm a desfaçatez de pedir o nosso voto?”.

http://www.anovademocracia.com.br/158/19.jpg
Manifestação contra as políticas de austeridade impostas pelo "governo" lacaio

Ora, estaria a imprensa burguesa começando a admitir, enfim, que o sufragismo reacionário é uma grande farsa? E isso quando levado a cabo, sobretudo, em países de caráter semicolonial, totalmente subjugados ao poder econômico dos bancos e monopólios internacionais, e disputados por facções de oportunistas e vende-pátria recheadas de burgueses e latifundiários sabujos do imperialismo, facções estas organizadas em legendas de todas as cores e proclamações imagináveis, de cristãos a “socialistas”, que se revezam em “governo” e “oposição”, sempre empenhadas em se empoleirar nas instâncias superiores do Estado para gerenciar o capitalismo atrasado, burocrático, segundo os interesses, demandas e requisições dos maiores algozes das massas trabalhadoras?

Nem perto disso. O monopólio da imprensa internacional dominada por grandes grupos econômicos capitalistas continua empenhado em fazer reviver o cadáver das farsas eleitorais mundo afora, totalmente desacreditadas perante as massas sob arrochos perpetrados tanto pela “esquerda” eleitoreira quanto pela direita mais autêntica, e esvaziadas por consecutivos recordes de abstenção, de votos brancos e de votos nulos em quase todos os circos sufragistas armados pelos quatro cantos deste mundo capitalista moribundo nos últimos anos.

Em Portugal, que é um retumbante exemplo disso, nas primeiras eleições “livres” lá realizadas, para a Assembleia Constituinte, em 1975, na sequencia da derrocada do salazarismo, a taxa de abstenção foi de 8%. Nas mais recentes eleições legislativas levadas a cabo no país, em 2011, nada menos que 42% dos portugueses “aptos a votar” não se deram ao trabalho de atender à convocatória do Estado para ir às urnas escolher entre o sabujo, o títere, o lambe-botas e o lacaio. Desde a década de 1990 os portugueses não deixam o índice de abstenção nas eleições para o Parlamento Europeu ficar abaixo dos 60%, deitando por terra qualquer resquício de legitimidade que um pleito assim findado — e finado — poderia ter.

Tem sido assim também na semicolônia Brasil, onde, diante dos claros sinais de que esta crendice — a de que das eleições pode sair algo que vai ao encontro das demandas e anseios mais prementes das classes populares — é uma doença em processo de cura, ora se tenta desesperadamente reanimar a múmia eleitoreira, proibindo, na teoria, a doação de empresas a campanhas de amealhação de votos por partidos políticos; onde na farsa de 2014 se observou o maior boicote eleitoral da história do país, com quase 39 milhões de filhos deste solo mandando às favas o primeiro turno das eleições presidenciais, entre abstenções, votos brancos e nulos; onde o atual gerente do estado do Rio de Janeiro, o Pezão, “governa” sem nem mesmo ter vencido a última farsa eleitoral, na qual, no primeiro turno, a somatória dos brancos, nulos e das abstenções superou a marca de quatro milhões de votos, enquanto Pezão teve pouco mais de 3,2 milhões.

Por tudo isso os pregoeiros da velha ordem seguem esmerados em animar o que chamam de “festa da democracia”. E para tanto, chegam a inventar “candidatos” que supostamente representam “mudança” de status quo ou “alternativa” à velha política e aos velhos políticos, mas que na prática cumprem apenas o papel de disfarçar o imperialismo e o capitalismo burocrático com roupagens — ou cor de pele, ou gênero, ou etnia — até há pouco improváveis.

Ou será que o primeiro presidente negro do USA não é justamente aquele que rege a fase mais genocida da história do imperialismo ianque? Ou será que Bolívia, Uruguai, Venezuela, Argentina, Chile, etc., deixaram de ser países semicoloniais e semifeudais, e seu povo se libertou dos grilhões que lhe aferrolham à miséria após as eleições de partidos e frentes de “esquerda” eleitorieiros? Ou será que o Brasil, semifeudal e semicolonial, não viu estas suas condições que infelicitam seu povo se enraizarem ainda mais após mais de uma década de gerenciamento do operário padrão do FMI chegar à “presidência” e, depois, da primeira mulher pertencente ao mesmo partido de seu antecessor assumir o posto de gerente deste velho e podre Estado?

Mais do mesmo

E do mesmo pântano elevam suas cabeças, na Grécia, Espanha e outros países, políticos e partidos apressadamente classificados como pertencentes a uma tal “esquerda radical”.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Em comum eles têm sobretudo a presteza com que dizem “presente” no momento em que os monopólios e as potências que lhes dão respaldo político-militar, mas precisam de atalhos, de saídas de emergência, e, a julgar pelas demontrações de “padrão da raça” dadas por Alex Tsipras (o gerente grego que se elegeu sob a retórica “anti-austeridade” e que, oito meses depois, é o novo “queridinho” da Europa do capital monopolista),  não se fazem de rogados em incorrer em estrondosos estelionatos eleitorais para, sabujos que são, não decepcionar seus verdadeiros amos.

Criou-se alvoroço, em meados de setembro último, em torno da chegada de Jeremy Corbyn à condição de líder do Partido Trabalhista, o Labour, no Parlamento britânico. A Folha de S.Paulo noticiou o fato com destaque, em matéria intitulada justamente “Radical de esquerda é o novo líder do Partido Trabalhista britânico”. O que o torna radical? O que torna de esquerda? Justamente o que o torna inofensivo: o enfoque em pautas que podem ser facilmente digeridas pelo capitalismo, como “aumento de imposto para os ricos”, e em bravatas que podem facilmente ser abandonadas ao primeiro cotejo com a realidade da tarefa para a qual se apresenta, ou seja, a de gerenciar o Estado burguês e sua crise — bravatas como a “anti-austeridade”, que Alex Tsipras não tardou em renegar.

“Seu estilo informal, em que dispensa o terno e a gravata na maioria das ocasiões, gera comparações com membros do partido de esquerda Syriza, da Grécia. Na última sexta, Corbyn saiu de casa para trabalhar de bermuda e camiseta, algo incomum na formalidade britânica”, dizia a Folha sobre o novo “radical” da praça.

A propósito da farsa eleitoral na Grécia, venceu-a (novamente) o Syriza, e tão logo se confirmou o resultado, ainda naquele domingo, 20 de setembro, Alex Tsipras, reconduzido ao cargo de “primeiro-ministro”, disse que sua vitória foi a vitória “das classes trabalhadoras”. Entretanto, o imperialismo alemão e o imperialismo francês saudaram a recondução de Tsipras ao gerenciamento do Estado grego, por considerá-lo, Merkel e Hollande, “o mais capaz de implementar o programa de reformas” na Grécia, ou seja, as contrarreformas que golpeiam sem misericórdia o mundo do trabalho.

Mas o que soa retumbante e inegável é o fracasso tremendo desta conclamação às urnas na Grécia, onde o voto é “obrigatório”, com o massivo boicote que atingiu a cifra de 45,2% de abstenções. Resultado tão sonoro e esperado, que assombrou a Europa e o mundo  a ponto de a imprensa “liberal” desde antes do pleito, apesar de tanto tentar desqualificar o boicote, não ter conseguido ignorá-lo.

O povo grego dá mais uma vez sua resposta contra a farsa eleitoral. As ondas de combativos protestos populares que convulsionam o país ao longo dos últimos anos cobram de suas direções centuplicar os esforços para a construção de um caminho revolucionário oposto ao da farsa eleitoral, já amplamente rechaçada pelo povo, e que retire definitivamente as massas da situação de penúria e opressão em que se encontram.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja