O mito do marxismo como ideologia eurocêntrica

A- A A+

Nota da redação de AND: Esta é a adaptação de artigo homônimo publicado originalmente no blog Servir ao Povo de Todo Coração feita pelos seus próprios autores. Devido a importância do tema que aborda, recomendamos aos nossos leitores que leiam também o artigo na íntegra em serviraopovodetodocoracao.blogspot.com.br. Disponibilizaremos também o artigo na íntegra em nossa página na internet.

http://www.anovademocracia.com.br/158/14.jpg

I. O marxismo como “ideologia branca”

Há setores do movimento pan-africanista que pedem uma teoria afro-centrada (criada, desenvolvida e aplicada pelos pretos, exclusivamente) para a solução das penúrias oprimem os pretos. Ao mesmo tempo, estes setores tratam teorias que surgiram de “mãos brancas” como parte de mais um leque de teorias eurocêntricas — “ideologias brancas” sendo “projeto de supremacia branca”.

Isso evidencia que tais setores do movimento pan-africanista entendem que:

a principal contradição da sociedade (no caso, a brasileira) é entre o branco e o negro;

a principal contradição a nível mundial é entre brancos e não-brancos (i.e., asiáticos, nativos indígenas, negros, etc.);

o pensamento e ideologia em geral se resumem nas relações raciais, isto é, ideologias brancas e sua oposição seria um pensamento afro-centrado.

Isto significa que estes setores do movimento interpretam que os males da humanidade foi obra dos brancos — e até os problemas que os brancos enfrentam são reflexo de suas próprias ações.

Portanto, o marxismo não atacaria, de acordo com essa visão, a raiz do problema — que seria a supremacia branca a nível mundial. Logo, não passaria de uma variante desta supremacia.

II. Luta de raças ou luta de classes?

Nós interpretamos o mundo d’outra forma: a raiz não é o elemento branco, mas as classes sociais. Elas surgem com a propriedade privada e com o surgimento do escravismo (retratado historicamente por sociedades como o Império Romano e a antiga Grécia); desde então, as formas de organizar a sociedade se transformavam quando as forças de produção se tornavam desenvolvidas demais às relações de produção (formas como se relacionam o trabalhador e o proprietário), o que ocasionava épocas de revolução social — a classe que ascendia ao poder reorganizava a sociedade e se tornava dominante (do escravismo ao feudalismo, do feudalismo ao capitalismo). Este é o processo que determina as relações sociais — incluso as relações raciais.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

O que os setores pan-africanistas citados chamam de exploração branca aos continentes não-brancos é, mais precisamente, a exploração da burguesia dos países europeus aos povos. A burguesia dos países europeus só passou a explorar outros povos quando lhes tornava “necessário”, de acordo com seus interesses de classe — a busca da burguesia europeia por matérias-primas e mercado para alavancar a produção industrial. Por isso, a dominação aos povos não era exploração de todos os brancos aos não-brancos, mas somente da burguesia europeia pelos seus interesses de classe. A maioria dos brancos nesse mesmo período, isto é, os europeus das classes populares, estavam numa semelhante cadeia de produção e não gozaram dessa exploração. Nada ganharam com a dominação de sua burguesia sobre outros povos. E para apaziguar a luta operária dentro de seus países, a burguesia invocava o racismo entre os operários europeus aos povos dos outros continentes, para apoiarem a agressão colonialista europeia.

A supremacia branca ganha força no decorrer deste processo, como apêndice ideológico e sustentáculo teórico que visava justificar “cientificamente” (com teorias racistas) a dominação da burguesia branca. Com o fim do colonialismo e o surgimento do imperialismo (capitalismo estrangeiro que domina a vida nacional dos povos do terceiro mundo, época que nos encontramos hoje), o racismo ainda se faz preciso para a dominação da burguesia (hoje, principalmente a burguesia do USA). Por isso, ainda existe e com bastante expressão. Prova cabal disso é que mesmo um branco que tenha nascido na América Latina é menosprezado pelos brancos do primeiro mundo. Isso é reflexo do racismo (ou no caso do branco, chauvinismo) como instrumento ideológico da exploração de classe.

III. O marxismo como ideologia universal

O marxismo não se torna um projeto de supremacia branca por ser criação de pessoas brancas. Nem todo branco vai desenvolver um pensamento em conformidade com sua raça sem estar de acordo com os interesses de sua classe; se um branco cria um pensamento que soa em conformidade com sua raça é porque está, antes, de acordo com os interesses de sua classe. Se um branco (assim como um preto) reproduz inconscientemente um pensamento racista, isto significa que ele é produto do pensamento de massa — pensamento difundido pela classe dominante porque diz respeito a seus interesses. E somente tem interesse (consciente) em sustentar o racismo e as classes interessadas na exploração — hoje, somente a burguesia e o latifúndio.

O marxismo surge na Europa porque somente lá existia capitalismo e classe operária (século XIX). No início foca-se só na luta da classe operária europeia. Com a revolução na Rússia em 1917, Vladimir Lenin passa a dar prioridade ao que ele chamou de questão colonial, ou seja, puxa a atenção do movimento comunista aos continentes não-brancos. Em 1922, a Internacional Comunista aprova a “Tese sobre a questão negra”, cria-se um “comitê negro antiimperialista” e, em 1930, promove-se um encontro preto em Moscou. Em 1949, explode a revolução na China, país mais populoso do mundo e fora dos limites da Europa, rompendo com séculos de dominação inglesa naquele país. Em 1964, Mao Tsetung, comunista chinês, envia um comunicado aos afro-americanos apoiando sua luta, na época, contra a supremacia branca, além de exilar em seu país o primeiro líder afro-americano a defender a resistência armada contra o racismo (Robert Williams), o qual discursa contra a supremacia para 1,5 milhão de pessoas em Pequim, com tempo ilimitado, sem censura. Nos anos 60 e 70, explodem revoluções na África, dirigidas por comunistas e nacionalistas africanos.

É evidente que, não apenas o marxismo não é ideologia branca, como ele mesmo deu muito mais prejuízo aos brancos do que fortaleceu a supremacia. Como poderia servir só aos brancos?

IV. Conclusão

Não há antagonismo entre a causa racial — isto é, luta pela autoestima, identidade, etc. — e a causa da classe. Inversamente, são causas que se completam. Peguemos o exemplo de Moçambique, outrora território livre comandado por Samora Machel, onde todos trabalhavam para o povo e os africanos recuperavam sua autoestima enquanto lutavam contra o latifúndio semifeudal, a grande burguesia e o imperialismo europeu; o faziam porque entendiam que o racismo se sustentava pela dominação destas classes. Hoje, décadas depois, com a ofensiva do imperialismo mundial contra as revoluções dos oprimidos, todas as penúrias da época colonial estão de volta a Moçambique, com exceção da “representatividade” no cargo de presidente: no passado colonial, um governador branco; no presente como semicolônia, um presidente negro. Conclusão: a luta do povo de Moçambique para a elevação da moral dos africanos passou a ser insuficiente na medida em que o povo perdeu o Poder para as classes interessadas na exploração, que, mesmo sendo africanas, não hesitaram em invocar o racismo entre pretos e “pardos”.

A luta pela autoestima e dignidade dos pretos não é lutar contra tudo que vêm de mãos brancas. O próprio racismo é um pensamento desenvolvido aos interesses de classe do antigo colonialismo europeu, que reflete hoje em sua nova forma, o imperialismo, pesando os ombros dos povos do terceiro mundo. O marxismo não é um projeto de dominação branca, mas faz a sua contribuição à derrubada da dominação racial porque combateu no passado o colonialismo, e hoje combate o imperialismo e as classes que perpetuam essa dominação.

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja