Música e cinema para as crianças

Nascido e criado na Maré, complexo que abrange várias comunidades na Zona Norte do Rio de Janeiro, Bhega Silva é um artista popular que toca, canta e leva o cinema até as crianças dos becos e ruas das favelas. Autodidata, Bhega aprendeu a tocar desde menino, e já fazia também suas próprias letras, que resultou em três discos independentes. 

http://www.anovademocracia.com.br/158/12a.jpg

Nasci na Praia de Ramos e há 26 anos moro aqui no Parque União, que é um bairro do lado. Sempre fui um artista local, cantando as reivindicações e mensagens a favor da cidadania, da proteção do meio ambiente e respeito à natureza — conta.

Meu pai era seresteiro e boêmio, gostava de tomar ‘uns negocinhos’, e minha mãe ficava chateada com isso, porque ele dava aquelas sumidas de vez em quando. Por isso, proibia eu e meus seis irmãos de pegar no violão. Ela dizia: ‘não quero outra mulher sofrendo que nem eu’ —lembra.

Mas, acordava e dormia ouvindo meu pai tocar choro, Dilermando Reis, e aquele negócio foi entrando no meu ouvido. Cuidadosamente ia lá dar umas cutucadas no violão, mexer para ver como era, descobrir. E ficava observando os dedos das pessoas tocando, tentando fazer igual.

Por volta dos 15 anos de idade, Bhega se apresentou pela primeira vez em um evento.

Foi um festival estudantil que aconteceu em Bonsucesso [bairro da Zona Norte], no Teatro Suam. A professora formou um coral com três vozes de meninas, um menino no pandeiro, um no surdo, um no chocalho, eu no violão e voz cantando uma música minha mesmo, ‘Namoradeira’ —diz.

http://www.anovademocracia.com.br/158/12b.jpg

Ficamos em quarto lugar, o que me incentivou muito. Depois, em 1981, ganhei um festival na escola Bahia, também em Bonsucesso. A música foi ‘Rosa Morena’, porque eu já estava de olho na minha mulher, e fiz pra ela. Com o dinheiro do prêmio consegui bater metade da laje da minha casa.

Letras temáticas e ecológicas são as que mais surgem na cabeça de Bhega na hora de compor.

A inspiração vem da minha própria vida. Quando criança me alimentava dos peixes da Praia de  Ramos, que eu ia buscar umas quatro/cinco horas da manhã. Porque não é fácil a sobrevivência de uma família com sete filhos —expõe.

Meu pai tinha uma birosquinha pequena, então os peixes que eram doados lá na colônia Z11 ajudavam e muito no orçamento da casa. Eu levava tanto peixe que ainda distribuía para os outros vizinhos amigos. Hoje ninguém doa mais peixe, é muito difícil.

Então pensei: ‘me alimentei, brinquei, me diverti, tomei banho, namorei na Praia de Ramos e hoje ela está assim, abandonada, poluída há tanto tempo. Tenho que fazer alguma coisa por ela’. Assim compus a canção S.O.S Praia de Ramos —diz.

Representando o povo da Maré

http://www.anovademocracia.com.br/158/12c.jpg

Com esta música, em 2000, Bhega se apresentou em um evento para uma grande multidão.

Quando cheguei aqui na Maré foi uma alegria, as pessoas dizendo que tinha me visto na televisão, que estavam orgulhosos de mim. Logo as professoras começaram a me convidar para cantar em suas escolas, e me diziam: ‘Todo mundo lá diz que é seu sobrinho’. Até hoje a criançada só me chama de Tio Bhega — comenta.

Em 2000 mesmo fui convidado para um outro evento grande, pelo dia mundial do meio ambiente. E, em 2003, fiz uma música engraçada, com relação ao combate à dengue, destinada para as crianças, que caiu no gosto geral.

Para minha surpresa, algumas rádios abraçaram, entre elas a rádio MEC e a rádio Nacional. Comunicadores como Adelzon Alves e Geraldo do Norte começaram a tocar essa música – continua.

Bhega tem muitas outras músicas temáticas destinada às crianças, mas também canta forró, serestas e sambas.

Consegui gravar três discos até agora, todos independentes. Para divulgá-los montei uma bicicleta de som e saí pelas ruas e becos da Maré. Deu tão certo que os comerciantes locais me pediram para divulgar seus estabelecimentos. E vieram outros anúncios de cinema, teatro, que iam acontecer na comunidade.

http://www.anovademocracia.com.br/158/12d.jpg

Então as crianças me paravam para perguntar quando ia ter novamente um evento assim. Como esses eventos não acontecem sempre, pensei que eu mesmo podia montar um cineminha para eles, já que tinha uma bicicleta de carga e o som —diz.

Para comprar o que faltava, Bhega começou a recolher garrafas de óleo, que antes os moradores jogaram no lixo e no valão, e vender.

A primeira vez juntei duzentos e pouco litros de óleo. Mas, quando fui ver os preços das coisas, levei um susto. Comecei a comprar tudo de segunda mão mesmo, um toldo para simbolizar a tela e um DVD, que comprei em um brechó.

Só o projetor que não dava para comprar, porque era mais de 2 mil reais, quer dizer, tinha que catar muito óleo. Acabei ganhando de presente do seu Valmir, um comerciante local, e por agradecimento coloquei a logomarca do seu estabelecimento, Mercearia Pexinchete, na  bicicleta.

Bhega escolheu um beco sem saída, em Ramos, e começou sua atividade de cinema.

Antes, convidei as crianças para limparmos o beco, varrermos, tirarmos o lixo. Comecei colocando meus clipes da dengue, do rato, do balão, depois os filmes. Assisti antes para saber se estava nesta linha educativa, e foi um sucesso — diz o artista.

Os pais se ofereceram para doar as pipocas, os refrigerantes. E foi dando certo. Então, depois de arrumarmos o beco, botamos um papelão, uma lona, qualquer coisa. Ou alguém traz cadeirinha de casa, ou banquinho, senta no chão, na sua laje, na varanda, na porta, e vamos curtir cinema —continua.

http://www.anovademocracia.com.br/158/12e.jpg

Os cinemas acontecem nos finais de semana, sempre em becos diferentes, para que mais crianças possam assistir.

Vemos que um pai  de família da comunidade não tem condição de levar seus filhos ao cinema. Geralmente é dentro de shopping, caro, e tem a pipoca, o refrigerante e a passagem, tudo caro —critica.

Além de levar o cinema para essa criançada, meu desejo é formar uma geração consciente. Também lançar essa ideia para que outros lá na frente desenvolvam mais projetos —explica.

O cinema no beco completará dois anos em novembro, com algumas melhorias depois que Bhega ganhou um edital.

Com o dinheiro do prêmio pude melhorar o trabalho e consegui uma bicicleta elétrica. Isso agora me proporciona poder levar o cineminha para outras comunidades da Maré, que, apesar de perto, fica longe andando a pé, ou em uma bicicleta comum — conclui.

Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. e (21) 99206-5867 são os contatos do artista.

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

Nunca recebemos um centavo de bancos ou partidos eleitoreiros. Todo nosso financiamento sempre partiu do apoio de nossos leitores, colaboradores e entusiastas da imprensa popular e democrática. Nesse contexto em que as lutas populares tendem a tomar novas proporções é mais do que nunca necessário e decisivo o seu apoio.

Se você acredita na Revolução Brasileira, apoie a imprensa que a ela serve - Clique Aqui

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de Apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
todo sábado, às 9h30

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda (licenciado)
Victor Costa Bellizia (provisório)

Editor-chefe 
Victor Costa Bellizia

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão 
Henrique Júdice
Matheus Magioli Cossa
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação
Ana Lúcia Nunes
João Alves
Taís Souza
Gabriel Artur
Giovanna Maria
Victor Benjamin

Ilustração
Victor Benjamin