Guaranis Kaiowá no Mato Grosso do Sul: indígenas resistem a ataques em série do latifúndio

A- A A+

“Eu digo que não vamos desistir (da nossa terra). Morreremos tudo aqui, podem pedir para a Funai trazer caixão.” Foi desta maneira que o cacique Elpídeo Pires definiu a posição dos índios frente à investida violenta que grandes fazendas estão realizando contra assentamentos guaranis-kaiowás e guaranis-nhandevas no Mato Grosso do Sul (MS).

http://www.anovademocracia.com.br/158/10.jpg
Manifestação dos Guarani Kaiowá em Brasília

Essas agressões recentes, que vêm resultando em incêndios de comunidades indígenas, além de guaranis mortos e feridos por tiros ou espancamentos, constituem uma série. Iniciada no fim de agosto, prosseguia até 18 e 19 de setembro, datas próximas ao fechamento desta edição de AND.

A tekohá/aldeia de Potrero Guaçu (município de Paranhos), à qual Elpídeo Pires pertence, foi declarada no ano 2000 como terra tradicional/antiga dos nhandevas, assim como uma área circundante com cerca de 4 mil hectares. No entanto, foi ocupada pela fazenda Ouro Verde. Sua retomada pelos indígenas (parcial, somente 6,5% de sua extensão) ocorreu em 2012, quando foram brutalmente agredidos. Muitas ameaças se seguiram.

O cacique foi um dos feridos à bala agora na madrugada do dia 19. Informou que os autores foram fazendeiros e acusou a gerência federal PT/PMDB/pecedobê de ser conivente com os crimes.

Segundo ele, na noite de 18 de setembro caminhonetes conhecidas cercaram a tekohá. Pouco depois, conforme o sítio da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na internet, Elpídeo viu fazendeiros agrupados nas proximidades. “Alguns deles atiraram, então eu fui atingido. Queriam matar eu. Sinto vergonha. O governo parece dizer: mata e ataca esses índios, vamos ver se desistem. Eu digo que não vamos desistir não. Morreremos tudo aqui, pede pra Funai trazer caixão.”

Que desbravamento, cara pálida?

Conforme estudos históricos e antropológicos, os nhandevas viviam em Potrero Guaçu até a década de 1930, quando foram expulsos por colonos brancos (que formaram fazendas ou venderam áreas para gente poderosa que mais tarde constituiria o chamado “agronegócio”, que é o principal agressor dos índios nos tempos atuais).

Outra vítima da violência seriada mais recente foi a tekohá Pyelito Cue/Mbarakay, no município de Iguatemi, dos guaranis-kaiowás.

Invadida em 18 de setembro por capangas das fazendas Maringá e Santa Rita (de acordo com alguns sítios na internet, dentre eles o do Cimi, Conselho Indigenista Missionário, e o do Cedefes, Centro de Documentação Eloy Ferreira da Silva), a aldeia registrou 10 pessoas feridas, incluindo uma mulher grávida e um pajé.

Chocada com o episódio, a jornalista Elaine Tavares escreveu o artigo A dolorosa resistência dos Guarani Kaiowá, publicado no dia seguinte (19 de setembro) no portal Daquinarede, de Florianópolis.

Diz Elaine, no texto, ter visto o vídeo de uma fazendeira do MS onde esta afirmava que ela e seu grupo de aliados eram os verdadeiros donos daquelas terras, e não os indígenas. Isso porque, conforme a mulher, teriam sido “os desbravadores”.

A jornalista, então, analisa: “Se eles desbravaram significa que limparam a passagem, tornaram mansos, civilizaram. É o que diz o dicionário. Se assim é, só tornamos mansos ou civilizamos, a alguém. E quem era esse alguém? Os índios. Esse é o resumo da ópera bufa dos fazendeiros do Mato Grosso do Sul.”

E conclui Elaine: “Logo, ela (a mulher do vídeo) confirma que o território hoje ocupado por seus familiares e por ela mesma era originalmente dos Guarani.”

“Tapados” ou espertalhões?

Chega a ser engraçado, e também trágico, verificar que como se fossem bovinos apalermados (ou uma engrenagem automatizada), as classes dominantes, seja no campo ou cidades, adotam um discurso igual e repetitivo, quando se refere ao indígena e suas disputas com ele.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Seja no Mato Grosso, São Paulo, Amazônia ou Santa Catarina, sem importar o cenário e a ocasião, a oratória parece ensaiada, de tão idêntica. Cujo teor é mais ou menos o seguinte: “Aqui nesta área não tinha índio” (ou NUNCA teve índio); “Aqui pode ter índio hoje, mas eles não são da mesma tribo de antigamente”; “Fomos nós que chegamos primeiro” (ou que desbravamos); “Nós temos documento da terra, eles não”; “É muita terra para pouco índio”; “Nós construímos tudo isso, eles são preguiçosos”... e por aí vai...

Outra coincidência revelada na falação é a ignorância da História, ou o absoluto desprezo pelos fatos históricos. A impressão que se tem é que toda essa laia fugiu da escola.

Mas será que tais senhores (e senhoras) são efetivamente os “tapados” que mostram ser ou que deixam transparecer que são?

Desconfio que não é nada disso.

Creio que esses supostos burraldinos, na realidade, são figuras espertalhonas que fingem não possuir conhecimentos básicos, primários até, porque isso lhes beneficia. Pagam, na boa, o preço do vexame porque são caras-de-pau. Ou são alastrões, como dizem os chamados manezinhos-da-Ilha, habitantes humildes cá da ilhoa Florianópolis, em seu curioso “idioma” trazido em parte dos Açores nos anos 1700. Alastrão é a pessoa sem vergonha na cara, folgada, espaçosa, que se alastra.

No caso da fazendeira do vídeo, falar que “fomos os desbravadores” só confirma o que se acabou de dizer. A mulher parece não conhecer uma linha da História do estado onde mora. Ou então sofre de egocentrismo cegante.

Sim, porque antes dela e seus compadres, o MS teve dezenas de nações indígenas (entre elas algumas de altíssima qualificação agrícola, como os chanés/terenas, os guaranis e os incas, visitantes mais ou menos assíduos), bandeirantes, padres missioneiros, colonos espanhóis e/ou paraguaios, soldados imperiais brasileiros, soldados republicanos, etc.

Nem era Brasil

A senhora não sabe ou não quis contar, por exemplo, que cerca de ¼ do MS, justamente o território do sul-sudeste onde existem diversas tekohás guaranis, até 1870 sequer era Brasil. Era Paraguai.

Antes da guerra, toda uma área hoje reinvindicada por fazendeiros nacionais “desbravadores” em municípios como Paranhos, Iguatemi, Antonio João, Dourados, Ponta Porã, Aral Moreira, Amambai, pertencia ao governo paraguaio.

O MS não era um vazio demográfico, geográfico e administrativo como a mulher quis fazer acreditar.

Um dos tipos de solo presentes no sudeste-leste do estado foi designado pela ciência como arenito... caiuá. Exatamente: arenito kaiowá.

Será que a fazendeira do vídeo vai negar esse fato científico ligado ao nome dos inimigos guaranis, estes sim autênticos pioneiros? Teria ela coragem de contrapor-se a isso, pagando um baita e solene mico?    

A propósito, devido ao mau uso do solo por parte do agronegócio, a zona do arenito no MS está correndo risco de virar deserto. Cerca de 50 mil hectares já estão apresentando sinais avançados de degradação, conforme dados da Comissão Nacional de Combate à Desertificação.

É para isso que os fazendeiros estão querendo tomar as terras dos índios?     

Para transformar em deserto, em apenas 85 anos, um território que durante séculos e séculos esteve bem preservado? 

Genocídio indígena sob a gerência do PT

O relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil”, elaborado e divulgado pelo Cimi (Conselho Indigenista Missionário) no mês de junho passado apontou o crescimento de 130% no número de índios assassinados em 2014.

Em 2013 o Cimi contabilizou 53 assassinatos de indígenas e, em 2014, 138 indígenas foram assassinados. As mortes estão relacionadas, em sua maioria, em casos de invasão de latifundiários e seus bandos de pistoleiros e grandes madeireiros dos territórios originários desses povos.

O relatório do Cimi  denuncia também ataques de pistoleiros contra as comunidades indígenas de pyelito kue, no Mato Grosso do Sul, e dos tupinambás, na Bahia. Houve também registro de ataque e expulsão de índios kaingang, que estavam acampados em rodovia estadual no município de Erval Grande, no Rio Grande do Sul. Essa ação contou com a participação da polícia militar.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja