Síria e Ucrânia: agravam-se as contradições interimperialistas

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No último dia 2 de outubro, quando os chefes de governo da Alemanha, França, Rússia e Ucrânia se reuniram em Paris, os dois maiores chefes políticos de turno do imperialismo europeu, Angela Merkel e François Hollande, apressaram-se em dizer que “o papel de Moscou” na Ucrânia e na Rússia não está relacionado.

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Casas destruídas próximas a Horms após primeiros ataques russos no território sírio

Ora, veja se pode haver relação mais íntima do que a preponderância nestes dois palcos das mais tensionadas contradições interimperialistas, que se desdobram nos seguintes cenários: no Cáucaso, a Rússia apoia com armas, soldados, equipamento militar e inteligência as forças “separatistas” que combatem o “governo” da Ucrânia, encabeçado por Petro Poroshenko e subjugado ao imperialismo ianque e seus sócios europeus; no Oriente Médio, o USA e a União Europeia apoiam com armas, mercenários, equipamento militar e inteligência as forças “rebeldes” que combatem o “governo” da Síria, encabeçado por Bashar al-Assad e subjugado ao imperialismo russo.

Ao passo que se acirram as contradições entre a superpotência hegemônica USA e a superpotência atômica Rússia, escancara-se o servilismo dos chefes políticos dos países ora atirados ao olho do furacão das disputas interimperialistas: por um lado, o títere Poroshenko aprova na Suprema Rada, o Parlamento da Ucrânia, uma lei que permite que estrangeiros engrossem as fileiras do exército do país, abrindo caminho para a chegada de mercenários a soldo do USA; por outro, o serviçal Assad autoriza e saúda os bombardeios russos na Síria contra o Estado Islâmico, dizendo que “se a ofensiva da Rússia fracassasse, o Oriente Médio estaria em grave situação”.

Seria mais compatível com a realidade se Assad dissesse: “se a Rússia não entrasse com essa ofensiva, perderia sua posição estratégica no Oriente Médio”. Isso porque o USA há tempos vem fortalecendo os mercenários do chamado “Exército de Libertação da Síria” e preparando uma invasão propriamente dita, possibilidade que ficou mais concreta e iminente com o álibi muito conveniente do Estado Islâmico. Acontece que, como o USA se vale do mesmo discurso contra o “terrorismo” do EI para jogar suas cartas no Oriente Médio, fica embaralhado — com a ofensiva “anti-EI” lançada pela Rússia — o cenário em que normalmente o USA lograria a demonização de Putin e sanções contra Moscou sempre que o imperialismo russo tenta defender suas áreas de influência do avanço do bloco de poder geopolítico encabeçado pelo imperialismo ianque.

As contradições são muitas e intrincadas: o USA faz discursos contra o “Estado Islâmico” e ao mesmo tempo apoia o regime reacionário da Turquia, onde o USA vai inaugurar um centro de treinamento de “rebeldes” sírios, conforme anúncio feito por Washington no início de outubro, e que, por sua vez, ataca com brutal ferocidade os curdos que resistem em parte do território sírio — os curdos que, por sua vez, combatem o EI.

No dia 8 de outubro correu a notícia da morte, na Síria, do general iraniano Hussein Hamadani, um dos cabeças das forças armadas da república islâmica — e que possui arsenal atômico — que integra o bloco de poder geopolítco do imperialismo russo, em episódio ilustrador do aprofundado nível de conflagração — e de embaralhamento — das lutas interimperialistas no palco sírio. Hamadani foi abatido na cidade de Aleppo, onde cumpria missão de “conselheiro” do exército sírio. Sua morte na Síria chama a atenção para as complexas composições dos blocos político-militares que se dirigem, de bubuia, na torrente irrefreável das suas contradições, ao choque da grande guerra.

Moscou, Bagdá e Riad

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Na Ucrânia e na Síria, o imperialismo russo se empenha, sobretudo, para defender, respectivamente, o porto de Sebastopol, na Criméia anexada por Putin, e o porto de Tartus, que fica 220 quilômetros a noroeste de Damasco, e é a única base naval sob controle de Moscou para além do Estreito de Bósforo, que é controlado pela Turquia e, por consequência, pela Otan, cujo avanço nos últimos anos para o leste europeu constitui um dos principais sinais de que a conjuntura é de fato a do rufar dos tambores da guerra.

As contradições das contendas interimperialistas parecem caminhar para o limiar da arrebentação também no Iraque, país ainda sob a égide da invasão ianque, mas que ora é gerenciado pelo xiita Haider al-Abadi, que vem sendo pressionado por membros do Parlamento iraquiano e por milícias xiitas locais a pedir intervenção russa no país, alegadamente contra o Estado Islâmico. O governo iraquiano já selou acordo com a Rússia, com o Irã e com o regime sírio para “compartilhar inteligência em um esforço para combater o Estado Islâmico”.

No dia 11 de outubro, Putin se encontrou com o ministro da Defesa da Arábia Saudita, monarquia sunita “alinhada” ao USA, em Sochi, no mar Negro. Além de ministro da Defesa, Mohamed bin Salman Al Saud é também vice-primeiro-ministro e filho do rei Salman. Moscou e Riad disseram que o encontro foi para tratar de “cooperação para evitar a formação de um califado terrorista na Síria”.

Neste cenário, como em todo cenário de guerra ou da iminência da conflagração de conflitos — sobretudo os de maiores magnitudes —, a contrapropaganda repercutida pelos monopólios de imprensa “ocidentais” cumpre papel fundamental. Tendo como linha o ponto de vista do imperialismo ianque, o noticiário que repete sem fim a ladainha da “política externa” do USA demoniza a Rússia e apresenta Putin como se fosse o próprio capiroto a fazer arder em labaredas infames o “mundo americano”, a ponto de os órgãos de imprensa das classes dominantes no Brasil insistirem em martelar, por exemplo, que os bombardeios russos na Síria ora “horrorizam o mundo” e “preocupam” Washington, levando às últimas consequências o substrato da contrapropaganda imperialista. Ou seja: a premissa de que os interesses da potência dominante são os interesses — neste caso, geopolíticos — de todos os povos do assim chamado “mundo ocidental”. Foi por meio desta contrapropaganda que no Brasil, por exemplo, a palavra “xiita”, acabou ganhando significado pejorativo, associada à sectarismo, violência e fundamentalismo. Tudo porque são os xiitas que muitas vezes cumprem papel central de resistência ao imperialismo ianque em vários países do Oriente Médio, ou são grupos xiitas que, por outro lado, conduzem seus países à subjugação à potência rival, casos do Irã e da Síria.

À medida que outubro avançava, precipitavam-se cada vez mais as tensões entre os blocos de poder do imperialismo no âmbito da disputa na Síria. Depois que a força aérea russa bombardeou 63 alvos no território sírio em um só dia, no dia 11, e da informação de que Assad vem recuperando grandes faixas territoriais que haviam sido tomadas pelo Estado Islâmico, a União Europeia apressou-se, no dia 12, recorrendo ao velho estratagema de condenar a violência se ela partir do inimigo, a pedir oficialmente à Rússia que “cesse imediatamente” a sua “escalada militar” na Síria, dizendo que ela “ameaça prolongar o conflito, minar o processo político, agravar a situação humanitária e aumentar a radicalização”.

A França, entretanto, também vem bombardeando alvos na Síria, desde o dia 27 de setembro. Em um dos seus ataques, desferido no dia 9 de outubro contra um centro de treinamento do Estado Islâmico, morreram seis franceses que haviam se juntado às fileiras do EI.

Voltando à reunião de Paris dos chefes do imperialismo europeu com Putin e Poroshenko, ela é mais um capítulo dos esforços da “chanceler” Merkel e o “socialista” Hollande para costurar pugnas que têm o fim último de empurrar os fronts de um cada vez mais iminente conflito de maiores proporções entre USA e Rússia para longe do território europeu, tentando evitar a desgraça levada à Europa pelas duas grandes guerras imperialistas anteriores.

Há tempos este jornal vem ressaltando: só a Nova Onda da Revolução Proletária Mundial poderá impedir que a escalada da crise desemboque na conflagração e na devastação da guerra imperialista.

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