A macabra seleção de refugiados pela indústria alemã

Não osbtante a União Europeia prometer um bilhão de euros à Turquia para que este país absorva migrantes sírios antes deles alcançarem o espaço Schengen; não obstante a Alemanha ter delegado ao fascista húngaro Viktor Orban o trabalho sujo de conter com cercas e violência o grosso das massas migrantes da Síria, Afeganistão, Eritreia e de outros países castigados pela guerra e pela miséria semeadas pelo imperialismo; não obstante tudo isso, o imperialismo alemão segue recebendo grande quantidade de estrangeiros na condição de refugiados, não porque a senhora Angela Merkel foi de súbito e de fato tomada pelo “ideal europeu comum” que a Europa do capital monopolista atribui a si mesma, esbanjando hipocrisia, mas sim porque a absorção de um contingente significativo desses migrantes interessa, e muito, à grande burguesia alemã.

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Assim, o imperialismo alemão, se não criou a chamada “crise dos refugiados” — ou seja, se não exatamente para este fim que participou do jogo de ingerências e sabotagens das potências que atirou a Síria à guerra civil —, é certo que agora manobra para tirar o melhor proveito dela. Não por acaso o presidente da Federação da Indústria Alemã, Ulrich Grillo, já em 2014 se antecipava à própria Merkel na demagogia do bom-mocismo, dizendo que, “enquanto país próspero, e também por amor cristão ao próximo, o nosso país deverá se permitir acolher mais refugiados”.

Estudos apontam que o “mercado de trabalho” alemão pode registrar falta de mão de obra da ordem de 1,8 milhão de pessoas em 2020 e de 3,9 millhões em 2040. Com números deste tipo em mãos, Merkel já avisou que a Alemanha não poderá receber um milhão de refugiados por ano, mas que está nos planos “acolher” a um ritmo de 500 mil, “em médio prazo”. Mas, ao contrário do que se ventila, a indústria alemã não sofre simplesmente de carência de força de trabalho, mas sobretudo de trabalhadores baratos e desorganizados, porque, afinal, o país tem hoje mesmo quase três milhões de cidadãos desempregados. Diz-se que a falta é de “mão de obra qualificada”, fala-se muito no “déficit” de mais de 100 mil engenheiros, mas os primeiros refugiados sírios que já têm mãos à obra na indústria alemã são jovens colocados em postos de “aprendizes” em fábricas da Baviera.

Grillo já requisitou a Merkel a derrubada da regra que prevê que a contratação de um refugiado ou requerente a asilo só pode ser feita comprovando-se que a vaga não está sendo retirada de um candidato alemão. Isso entre outras “flexibilizações”. Exigem, os “empresários”, até mesmo garantias de que seus novos contratados não vão sair da Alemanha a curto prazo.  Além disso, a grande burguesia germânica já requisitou também “maior investimento” no ensino da língua alemã a refugiados, entre outras providências, para fazê-los se “integrar” tanto melhor quanto possível na condição de força de trabalho menos custosa e mais vulnerável a demissões, arrochos salariais e supressão de direitos e garantias trabalhistas. Afinal, a Alemanha já está lhes fazendo “um grande favor”…

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O mesmo Ulrich Grillo afirmou, mais recentemente: “se conseguirmos integrá-los rapidamente ao mercado de trabalho, ajudaremos os refugiados e nos ajudaremos também”.

Ora, desde quando o que é bom para o explorador é bom para o explorado? Desde quando a vantagem para o opressor é vantagem para o oprimido, ainda mais quando o antagonista demonstra ir com tanta sede ao pote? Na Alemanha, aos que passam na peneira migratória de Merkel-Grillo, estão reservadas a precariedade levada ao limite e a xenofobia açulada por esta situação. No último 5 de outubro um incêndio provocado por racistas em um centro de refugiados na Saalfeld, no leste do país, resultou na morte de um imigrante eritreu.

Naquele mesmo dia circulava a notícia de que um naufrágio na costa da Líbia vitimara mais 100 pessoas que tentavam atravessar o Mediterrâneo para chegar à Europa. Não resistiram à primeira etapa deste macabro processo seletivo que não é apenas da indústria alemã, ainda que ela esteja na dianteira desta degeneração do imperialismo, mas também das classes dominantes de vários outros países europeus.

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