O medo no Rio e as verdadeiras classes perigosas

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O contexto de hoje neste Brasil esgarçado pela crise geral e pelo acirramento dos antagonismos próprios de um país dominado pelo imperialismo é, sim, de fermentação da rebelião popular, mas é também o contexto do ovo do fascismo mais aberto trincando no ninho, com a serpente desde lá de dentro agitada, ansiosa por romper a casca de vez, atiçada pela histeria dos monopólios dos meios de comunicação que repercutem em setores do povo, sobretudo de parcelas das classes médias, por mais (ainda mais!) repressão, punição e vigilância, e não necessariamente “nos limites da lei”. Em resumo: clamores por sangue, a julgar por pesquisa do Datafolha divulgada no dia em que este texto está sendo redigido, e que mostrou que para 50% dos brasileiros “bandido bom é bandido morto”.

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Há mais de uma década uma estudiosa carioca ressaltava, assim, como já naquela época, lá pela virada do século, vinha-se chocando o ovo da serpente:

“Analisando o processo de criminalização da juventude por drogas no Rio de Janeiro, constatamos como, na transição da ditadura para a democracia (1978-88), permitiu-se que se mantivesse intacta a estrutura de controle social, com mais e mais investimentos na ‘luta contra o crime’. E, o que é pior, com as campanhas maciças de pânico social, permitiu-se um avanço sem precedentes na internalização do autoritarismo. Podemos afirmar sem medo de errar que a ideologia do extermínio é hoje muito mais maciça e introjetada do que nos anos imediatamente posteriores ao fim de ditadura.

O trecho é de um livro de leitura imperiosa e preciosa para estes tempos que correm: O Medo na Cidade do Rio de Janeiro (editora Revan, 270 páginas), originário da tese de doutorado da socióloga Vera Malaguti Batista, e onde a autora usa uma abordagem multidisciplinar para dar conta, ou seja, para expor com clareza (denunciar, seria mais adequado dizer), as balizas ideológicas das políticas criminais e de segurança pública no Rio de Janeiro, balizas que têm mais permanências do que rupturas desde a abolição da escravatura e da proclamação da República, momentos históricos quase concomitantes que não romperam “jamais” com o ordenamento introduzido pela escravidão na formação histórica do Brasil contemporâneo:

“Nem do ponto de vista sócio-econômico, nem do cultural. Daí as consecutivas ondas de medo da rebelião, da descida dos morros. Elas são necessárias para a implantação de políticas de lei e ordem. A massa negra, escrava ou liberta, se transforma num gigantesco Zumbi que assombra a civilização; dos quilombos ao arrastão nas praias cariocas.”

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Como diz a própria Vera, “a difusão do medo, do caos e da desordem tem sempre servido para detonar estratégias de neutralização e disciplinamento planejado do povo brasileiro”. Em outras palavras, também dela, “o medo é a porta de entrada para políticas genocidas de controle social”. Vide as “políticas criminais com derramamento de sangue” levadas a cabo pelos sucessivos gerenciamentos do Estado do Rio de Janeiro e a mais recente política de militarização permanente das áreas mais pobres da capital fluminense via “pacificação”.

Assim como as classes dominantes logram fazer parecer que o que é bom para elas na economia, por exemplo, é bom para todas as classes sociais, assim também é com os seus maiores pavores. E se tem algo que, especialmente no Rio de Janeiro, faz as elites parasitárias tremerem da medula aos calcanhares é o expectro da insurreição popular, da revolta, dos “tumultos” protagonizados pelas parcelas mais pobres das massas trabalhadoras, sobretudo pela sua impetuosa e insubordinada juventude inclinada à rebelião.

Infelizmente, este medo nutrido pelas “elites” tem sido cada vez mais compartilhado com parcelas das classes médias mais suscetíveis aos engendros ilusórios das classes dominantes. No livro de Vera Malaguti, revela-se assombrosa a semelhança de realidades tão distantes no tempo e no espaço, como a Europa ocidental do século XIV e a zona sul carioca do século XXI. Quando se lê sobre o primeiro contexto — que era o de pestes, mas também de carestias e de crise social, política e econômica — que “a insegurança estimulada pela crise” produzia “uma hostilidade crescente em face dos marginalizados, na busca compulsiva de bodes expiatórios”.

Como são parecidos os mecanismos ideológicos usados pelas classes dirigentes de diferentes tempos históricos para tentar manter as massas populares na rédea curta, por vezes atiçando povo contra povo! Isso, como se vê, desde antes das revoluções burguesas e, portanto, desde antes do ordenamento capitalista. Da bruxa de anteontem ao traficante (ou o menor infrator) de hoje, ao longo dos séculos os opressores das sociedades divididas em classes sempre encontraram um álibi para instaurar o terror visando preservar a ordem a salvo da rebelião e da sedição.

Tudo isso deveria servir de alerta para os setores das classes médias brasileiras desejosos de que a serpente saia logo do ovo: toda esta energia poderia e deveria ser empregada na participação e no apoio à construção de uma revolução democrática para o Brasil, em vez de ser canalizada para clamores por segregação, punição e até de extermínio dirigidos contra as massas empobrecidas, porque as contradições nas fileiras do povo não são antagônicas e, por isso, podem ser dirimidas democraticamente.

As contradições antagônicas aplicam-se na relação entre classes trabalhadoras como um todo e as forças do atraso desde sempre encasteladas nas instâncias superiores do velho Estado brasileiro, nomeadamente a grande burguesia e o latifúndio, essas sim as verdadeiras “classes perigosas”, responsáveis pela perpetuação das políticas que açoitam a todos os que vivem do seu próprio trabalho, e não a custa do suor alheio.

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