8º Congresso da LCP do Norte de Minas e Sul da Bahia

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‘Tomar todas as terras do latifúndio!’

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À frente da manifestação, iam ativistas da juventude combatente, operários e camponeses - Foto: Victor Prat

A cidade de Januária, no Norte de Minas Gerais, recebeu, nos últimos dias 10 e 11 de outubro, o 8º Congresso da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) do Norte de Minas e Sul da Bahia.

O bravo povo camponês

 Desde março não chove na maior parte do Norte de Minas e Sul da Bahia. As criações emagrecem e a terra está só no torrão. As reservas minguam e muitas roças se perderam. Atravessando sequidão de meses de estiagem, esse bravo povo negro e camponês, como a terra seca, resiste. Basta um pingo d’água para se levantar e vicejar.

 Assim, os camponeses — esse povo sertanejo, do cerrado, do carrasco e da caatinga, esse povo que é a mistura dos remanescentes de quilombolas e povos indígenas, que nunca abaixou a cabeça e resiste na terra enfrentando o latifúndio e seus bandos de pistoleiros, enfrentando a perseguição do velho Estado e suas forças de repressão, enfrentando as políticas antipovo do governo e do oportunismo — se levantaram mais uma vez com suas bandeiras vermelhas e, sob o sol escaldante das 11 horas, tomaram as ruas de Januária, anunciando com uma grande e vibrante manifestação na manhã do dia 10 de outubro: estão se concluindo as atividades do 8º Congresso da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas e Sul da Bahia! Conquistar a Terra! Destruir o Latifúndio! Viva a Revolução Agrária! Viva a Aliança Operário-Camponesa!

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

 À convite da LCP, o jornal A Nova Democracia cobriu este importante Congresso que contou com a participação de centenas de camponeses de diversas áreas do Norte de Minas e Sul da Bahia. Operários, estudantes, professores, intelectuais, profissionais liberais, dirigentes sindicais, ativistas revolucionários, homens e mulheres, idosos e crianças compuseram as longas filas de bandeiras vermelhas e faixas e esquentaram ainda mais as ruas de calçamento por onde passaram. A população saiu para as ruas e para as portas dos comércios para ver e receber o panfleto.

Uma manifestação de combate

 ‘Contra a crise: tomar todas as terras do latifúndio!’ foi a consigna central do Congresso. Uma grande faixa com estas palavras abriu a manifestação e, no microfone, dirigentes e ativistas falaram à população, que escutou atenta o chamado dos camponeses para que o povo se organize e lute contra a podridão do velho Estado. A LCP, que desde a sua fundação convoca o povo para boicotar a farsa eleitoral, reafirmou seus princípios classistas de luta e demonstrou à população que o que ela vem constatando há anos tem se confirmado na prática: o PT é um partido que governa para a grande burguesia, o latifúndio e o imperialismo, presidindo a repressão e o genocídio de camponeses, indígenas e quilombolas, e a política de fome e arrocho sobre o povo. Denunciou os crimes do latifúndio na região e o assassinato do dirigente camponês Cleomar Rodrigues, coordenador político da LCP, no dia 22 de outubro do ano passado, por pistoleiros a mando de latifundiários com a cobertura de agentes da Polícia Civil.

Alta temperatura

 De cabeça e bandeiras erguidas, os camponeses avançaram pelas ruas da cidade, organizados e mostrando para a população como o povo deve agir. Não aceitar as injustiças, não participar da farsa eleitoral e não temer o latifúndio. À frente da manifestação, iam ativistas da juventude combatente, operários e camponeses que, com suas bandeiras vermelhas, juntos, em um só passo, estavam preparados para não cair nas provocações da repressão e do latifúndio, e também para defender a manifestação em caso de tentativas de ataques de provocadores e inimigos do povo.

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"Seu" Sula, eleito Presidente de Honra da LCP - Foto: Ellan Lustosa

 Desde o início da passeata, policiais postaram uma viatura atravessada na rua bloqueando o seu caminho. Logo ecoaram as vozes de “Fora polícia!”, obrigando-os a se retirar. No Centro da cidade, de repente, a linha e colunas da autodefesa avançaram para a cabeça da manifestação em posição de combate, marcharam em direção às viaturas da polícia e, logo, sob ordens, retornaram à sua posição. Foi uma agitação tremenda que elevou a escaldante temperatura fazendo as massas vibrarem ainda mais suas canções de lutas e consignas combativas.

 Algo diferente e novo estava no ar, e o povo se animou. Durante os dois dias de realização do Congresso, a escola pública onde ele foi realizado e suas vizinhanças ficaram mais atentas e em grande expectativa.

 O Congresso foi realizado em várias etapas. A que o antecedeu foi a sua preparação, com reuniões de dirigentes e ativistas nas áreas organizadas pela LCP, seguida da agitação nas áreas e cidades em que o Comitê de Apoio a Luta pela Terra realizou panfletagens e atividades, como em Montes Claros, maior cidade do Norte de Minas. Lá, na Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), foi realizada grande agitação com mostra de fotos da luta camponesa, teatro e debate. Em Januária, também foi realizada grande agitação e o zum zum zum da Revolução Agrária percorreu a cidade.

Um forno de luta ideológica

 Nos dias 10 e 11, ocorreram as plenárias e reuniões de delegados eleitos como representantes das áreas para o Congresso.

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Foto: Ellan Lustosa

 Convidados de todo o país, entre dirigentes das LCPs de diversas regiões, dirigentes sindicais, ativistas de organizações revolucionárias, democráticas e populares fizeram suas saudações ao 8º Congresso. Ele também foi marcado por rica atividade cultural, como a apresentação do Grupo de Teatro Servir ao Povo, formado por jovens camponeses, que apresentou um espetáculo sobre a luta pela terra, os heróis do povo brasileiro e em homenagem aos dirigentes camponeses Cleomar Rodriges e Renato Nathan. Representando todos os caídos na luta, o grupo de jovens camponeses Companhia de Teatro Matutos do Rei, da área Vanessa, realizou uma encenação que denunciou o papel do judiciário burguês na a criminalização e punição dos lutadores do povo. As atividades também contaram com uma belíssima apresentação de um Terno de Folia (Folia de Reis), a apresentação do músico popular Marcinho da Gaita e sua filha Cibele, a afinadíssima dupla de viola caipira formada pelos quilombolas João e Damião, a dupla de violeiros da cidade de Manga, Badé e Vandaime, entre outras atrações.

 A plenária iniciada na tarde de 10 de outubro se reuniu na quadra poliesportiva da Escola Estadual Olegário Maciel e refletiu toda a realidade e luta dos camponeses do Norte de Minas e Sul da Bahia, como bem destacou um dos oradores: “um calor escaldante, um forno, mas um forno de forja ideológica e política”.

 O debate central da plenária destacou como o 8º Congresso se deu em um momento crucial da luta dos camponeses e do povo brasileiro. O Congresso foi uma resposta de combate à velha cantilena das frações do Partido Único das classes dominantes, ao cacarejo dos oportunistas que ocupam a gerência do velho Estado — com a sua política de “ajustes”, miséria, arrocho, brutal repressão contra o povo e os interesses nacionais — e da extrema-direita mais declarada, que tenta cavalgar a insatisfação das massas no intuito igualmente eleitoreiro.

O caminho é a Revolução Agrária!

 O Congresso da LCP, com sua consigna de que, contra e perante a aguda crise econômica, política, social e moral desse podre Estado e seus governos antipovo e vende-pátria, os camponeses devem se organizar e preparar para tomar todas as terras do latifúndio, apontou o verdadeiro caminho democrático e revolucionário. A Revolução Agrária é o único caminho para se destruir e reduzir a pó todo o atraso semifeudal do Brasil, exatamente porque tarefa dessa envergadura só pode ser feita pelas massas camponesas que, há séculos, vem sendo esmagadas pelo poder latifundiário-burocrático, serviçal do imperialismo.

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As crianças também se organizaram e participaram politicamente - Foto: Carlos Henrique Silva

 O 8º Congresso e seus debates tocaram em problemas cruciais para a compreensão dos camponeses, operários, revolucionários, democratas e progressistas sobre a necessidade e o caminho para realizar as radicais transformações que o nosso país tanto necessita, para destruir as três montanhas de exploração que pesam sobre nosso povo: o latifúndio, a grande burguesia e o imperialismo.

 O Brasil tem mais de cinco mil municípios e 80% deles não possuem mais de 10 mil habitantes. São cidades rurais em que as amplas massas são submetidas secularmente a relações semifeudais de produção. Centenas de milhares de camponeses e trabalhadores que vivem nessas pequenas e médias cidades são arrastados pelos “gatos” (aliciadores) dos grandes agronegócios e já chegam devendo a passagem, a feira do mês e o chiqueiro que eles chamam de alojamentos, são pagos com a pior comida. Isso, que os oportunistas afirmam ser relações capitalistas, é o velho sistema de barracão.

 Camponeses são violentamente submetidos a essas condições e, os que resistem em suas terras, são, dia após dia, assediados pelo latifúndio, economicamente esmagados, atacados por seus bandos de pistoleiros, forçados a vender suas terras a troco de quase nada ou são brutalmente assassinados e têm suas terras engolidas pelos latifundiários. Da mesma forma, sofrem e são atacados os povos indígenas e remanescentes dos quilombolas por toda parte.

 O que pudemos registrar e perceber no 8º Congresso — somando essa experiência com os Congressos das LCPs que já acompanhamos em anos anteriores no Norte de Minas e em outras regiões — é que não só a LCP amadureceu e avançou em sua construção, mas se desenvolveu, assim como se desenvolveram as contradições em nosso país, e se preparou para responder e agir conforme o acirramento dessas contradições.

 Os que estavam lá presentes, não estavam pedindo nem esperando nada do velho Estado burguês-latifundiário. Não pedem lonas nem cestas básicas. Seus dirigentes são quadros revolucionários, conscientes e provados nas lutas.

 As plenárias travaram uma importante batalha política e ideológica para buscar, a partir das falas, relatos e opiniões, sistematizar a experiência da luta do movimento camponês combativo. Um dos dirigentes da LCP sintetizou:

 — Não pretendemos tirar governos, mas destruir esse velho Estado. Acumular forças, pois não vamos destruir as bases políticas e econômicas da noite para o dia. A nossa luta é prolongada. Vamos varrer o latifúndio, dar terra a todos os camponeses e sem uma verdadeira batalha, em que estejamos muito bem preparados, não tem conquista da terra!

Todos participam

 Nossa reportagem teve a oportunidade de cobrir não só a realização das plenárias, mas tudo o que faz o Congresso acontecer. A cozinha coletiva trabalhou dia e noite para alimentar os centenas de participantes do congresso. A creche, organizada pelos jovens estudantes e apoiadores convidados, não só cuidou, mas organizou as crianças para permitir que suas mães participassem dos debates e atividades. No encerramento, as crianças também participaram politicamente com um pequeno jogral ensaiado com carinho e com as bandeirinhas da LCP pintadas por suas próprias mãos. Durante todo o tempo, uma comissão cuidou da segurança do Congresso, guardando as entradas da escola em que ele foi realizado e fazendo a guarda durante a noite. Jovens estudantes e camponeses compuseram a comissão de agitação, que manteve o ânimo elevado durante todas as atividades, sustentando o tom das canções e das palavras de ordem. Cresceu o contingente de massas que procuraram a organização e a luta dirigida pela LCP. Dezenas de camponeses se inscreveram em uma lista de credenciamento para futura tomada de terras.

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Apresentação do Grupo de Teatro Servir ao Povo - Foto: Ellan Lustosa

 Enquanto os delegados eleitos como representantes das áreas estavam reunidos debatendo e sistematizando as propostas de organização que seriam aprovadas no Congresso, o ‘pega-fogo’ agitava a plenária. Camponeses deram depoimentos vivos de sua realidade. Falaram antigos posseiros, pioneiros da luta da LCP; irrigantes do Projeto Jaíba, que desenvolvem uma grande luta para que os camponeses tomem as terras, as águas e tudo o que demanda sua produção; camponeses da Baixa Funda denunciaram o desmatamento que degrada suas terras e outros camponeses narraram suas experiências e a luta pela produção sob uma das piores secas da história no Norte de Minas. Eles falaram como suas vidas mudaram depois que a LCP passou a organizar sua luta. Denunciaram crimes do latifúndio, a ação dos pistoleiros, lembraram os heróis tombados na luta pela terra e lhes renderam homenagens.

Dirigentes operários e camponeses debateram e aprovaram um plano para levantar uma onda de tomadas de terras na região e a importância e método para fortalecer e impulsionar a Aliança Operário-Camponesa, alicerce fundamental para o avanço da Revolução Agrária, para a conquista da terra, pão e uma Nova Democracia no Brasil. Em uma roda animada, jovens ouviram atentos os argumentos de um dirigente da Frente Revolucionária de Defesa dos Direitos do Povo sobre o papel da juventude na Revolução de Nova Democracia brasileira, os problemas teóricos e da estratégia da revolução no mundo hoje.

 Um Congresso camponês como o da LCP é composto por várias batalhas e debates que ocorrem simultaneamente e obedecem a uma demanda concreta, que é a luta por construir uma força que mobilize, politize e organize as massas camponesas em aliança com a classe operária na luta combativa pela conquista de terra.

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