As cruzadas vistas pelos árabes: Quem eram os bárbaros?

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Nestes tempos em que o imperialismo acusa a tudo e a todos de terrorismo, em que tenta vincular, de modo torcido e generalizador, o povo árabe com a imagem do terrorista, do bárbaro1 , do fanático,do impiedoso, nada mais interessante do que ler As cruzadas vistas pelos árabes , do professor Amin Maalouf. Editada na França em 1983, onde ficou várias semanas entre os mais vendidos. A obra foi publicada no Brasil em 1988 e não teve grande repercussão.

Apresentamos a seguir o capítulo 3 do livro, Os canibais de Maara, resumido e adaptado por Rosana Bond.

Só para relembrar: as chamadas Cruzadas, num total de oito, foram convocadas pelos papas a partir do século XI "para servir a Deus" contra os "infiéis muçulmanos". Realizadas entre 1095 e 1291, sob o símbolo de uma cruz branca, tiveram também um objetivo bem menos "santo ": o lucro, pilhagem das cidades, o saque, a tomada de pontos comerciais estratégicos (como o porto de Zara, no Adriático), a imposição dos grandes negócios de venezianos e genoveses. Tudo isso canalizou riquezas para os cofres papais e das classes dominantes da Europa.

A derrota dos cruzados ocorreu a partir de 1244, quando perderam definitivamente Jerusalém e em 1291 quando os árabes retomaram Acre, pondo fim a dois séculos de selvageria econômico-religiosa ocidental em terra alheia.

Os canibais de Maara

Eu não sei se o domicílio onde nasci se trata de um pasto de bestas selvagens ou de minha casa!

Esse grito de aflição de um poeta de Maara não é um simples recurso retórico. Temos infelizmente que tomar suas palavras ao pé da letra e perguntar-nos com ele: o que aconteceu de tão monstruoso na cidade síria de Maara no final do ano 1098?

Até a chegada dos franj (os árabes chamavam os cruzados de franj, provavelmente um termo vindo de francfrancos, franceses), os habitantes viviam pacificamente ao abrigo de sua muralha. Os vinhedos, os campos de oliveiras e pés de figos forneciam-lhes uma modesta prosperidade. O orgulho de Maara era ser berço de uma das maiores figuras da literatura árabe, Abul-Ala al Maari, morto em 1057. Esse poeta cego, livre-pensador, ousara atacar os costumes da época. Era preciso audácia para escrever:

Os habitantes da terra dividem-se em dois grupos,
Os que têm um cérebro, mas não possuem religião,
E aqueles que têm religião, mas não têm cérebro.

Quarenta anos após sua morte, um fanatismo vindo de longe viria, aparentemente, dar razão ao poeta de Maara. Nos primeiros meses de 1098, os habitantes da cidade acompanharam com preocupação a batalha de Antioquia, a três dias dali. Após a vitória dos franj, estes vieram saquear alguns vilarejos vizinhos e Maara fora poupada. Mas algumas famílias preferiram fugir para lugares mais seguros.

Seus temores foram justificados quando, no final de novembro, milhares de guerreiros francos cercaram a cidade. A maioria dos habitantes não teve escapatória. Maara não possuía exército, tinha apenas uma milícia urbana à qual se juntaram centenas de jovens sem experiência militar. Por duas semanas resistiram corajosamente aos temíveis cavaleiros, chegando a jogar sobre eles colméias cheias de abelhas.

Até que chega a noite de 11 de dezembro. Os franj ainda não ousaram penetrar na cidade. Os notáveis de Maara entram em contato com Bohémond e o chefe franco promete garantias se cessarem o combate. Agarram-se à palavra dada. Na alvorada, chegam os franj. É uma carnificina. Durante três dias matam mais de 100 mil pessoas pela espada e fazem muitos prisioneiros.

Adultos fervidos, crianças assadas

Os números do cronista Ibn al-Athir são fantasiosos, pois a população de Maara era provavelmente inferior a 10 mil habitantes. Mas o horror está menos presente no número de vítimas do que no destino inimaginável que lhes foi reservado. "Em Maara os nossos faziam ferver os pagãos adultos em caldeiras, fincavam as crianças em espetos e as devoravam grelhadas", confessou o cronista franco Raoul de Caen. Até o fim de suas vidas os árabes das redondezas se lembrarão do que viram e ouviram. A lembrança dessas atrocidades fixará nos espíritos uma imagem dos franj difícil de ser apagada.

Jamais os turcos esquecerão o canibalismo dos ocidentais. Em toda a sua literatura épica, os franj serão invariavelmente descritos como antropófagos.

Será injusta essa visão? Terão os invasores devorado os habitantes de Maara com o único objetivo de sobreviver? Seus chefes dirão ao papa: "Uma fome terrível assolou o exército de Maara e o colocou na cruel necessidade de se alimentar dos cadáveres dos sarracenos." Mas essa explicação parece um pouco fácil. Pois os habitantes da região assistem, naquele inverno, a comportamentos que a fome não pode explicar. Vêem bandos de franj fanatizados, os tafurs, clamando alto que querem devorar a carne dos sarracenos e que se reúnem à noite, ao redor do fogo, para devorar suas presas.

Canibais por necessidade? Os testemunhos são acusadores. Uma frase do cronista Albert de Aix, que esteve na batalha de Maara, permanece inigualável em horror: "Aos nossos não repugnava comer não só a carne dos turcos e dos sarracenos mortos como também a carne dos cães!"

A sabedoria dos camponeses

O suplício da cidade só terá fim em janeiro de 1099 quando os franj armados de tochas põem fogo em cada casa. Os episódios de Maara vão contribuir para cavar entre os árabes e os franj um fosso que vários séculos não serão suficientes para preencher.

Porém, quando os francos retomam sua caminhada ao sul, os emires sírios se apressam em enviar presentes para assegurar-lhes sua boa vontade. Ninguém ignora mais o itinerário dos franj. Não bradam eles que seu objetivo final é Jerusalém, onde querem tomar posse do túmulo de Jesus? Todos que estão nessa rota tentam precaver-se contra o flagelo que representam.

Muitos se escondem nos bosques, outros na fortaleza mais próxima. Foi esta última solução a escolhida pelos camponeses da planície de Bukaya, quando em janeiro de 1099 são avisados da aproximação dos francos. Reunindo gado, óleo e trigo sobem para Hosnel-Akrad. Mesmo estando há muito abandonada, a fortaleza tem difícil acesso e muralhas sólidas.

Os franj vêm sitiá-los. A 28 de janeiro seus guerreiros começam a escalar os muros da fortaleza. Sentindo-se perdidos, os camponeses imaginam um estratagema. Abrem subitamente os portões e deixam escapar uma parte de seu rebanho. Esquecendo o combate, os franj se lançam sobre os animais. A desordem é tanta que os sitiados, encorajados, efetuam uma saída e atingem a tenda de Saint-Gilles, onde o chefe franco, abandonado por seus guardas, escapa à captura por um fio.

Os camponeses ficam entusiasmados, mas sabem que os sitiantes voltarão. Dia seguinte, quando Saint-Gilles lança-se ao assalto, os camponeses não aparecem. Os atacantes perguntam-se que novo ardil terão inventado. Foi o mais sábio de todos: aproveitaram-se da noite para sair sem ruído e desaparecer ao longe.

Biblioteca de 100 mil livros

A cidadela torna-se por alguns dias o quartel-general dos franj. E nela assiste-se a um espetáculo desconcertante. Das cidades vizinhas chegam delegações com mulas carregadas de ouro, tecidos, provisões. A fragmentação política da Síria é enorme.

De todas as delegações que desfilam nas imensas salas de Hosnel-Akrad, a mais generosa é a de Trípoli. Na época em que os franj surgiram, Trípoli vivia um tempo de paz e prosperidade. A imensa "casa da cultura", que encerra uma biblioteca de 100 mil volumes, uma das mais importantes daquele tempo, é o orgulho dos cidadãos. A cidade é cercada por campos de oliveiras, alfarrobeiras, cana-de-açúcar e frutas de toda espécie. Seu porto é movimentado.

É essa opulência que vai valer à cidade seus primeiros dissabores com os franj. Na mensagem que manda a Saint-Gilles, o cádi de Trípoli convida-o para negociar uma aliança. Um erro imperdoável. Ao chegarem, os emissários francos ficam tão maravilhados que só pensam em tudo que poderiam pilhar ali. A 14 de fevereiro, o cádi, aterrorizado, fica sabendo que os franj sitiaram Arqa, a segunda cidade do principado de Trípoli.

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A força do povo de Arqa

Na capital, acumulam-se reservas na espera de um longo sítio. Fevereiro passa, depois março e abril. As notícias são reconfortantes: os franj ainda não tomaram Arqa, cujos defensores estão tão espantados quanto os atacantes. O que faz a força de Arqa é que seus habitantes estão convencidos, desde o primeiro instante, que se uma única brecha for aberta eles serão massacrados. Dia e noite velam, impedindo a menor infiltração. Os invasores acabam se cansando. A 13 de maio de 1099 se afastam, frustrados. A tenacidade dos moradores foi recompensada. Arqa está exultante.

Os francos retomam sua marcha ao sul. Passam defronte de Trípoli com uma lentidão inquietante... mas não param. Seguem em frente e alcançam Nahr el-Kalb, o "Rio do Cachorro". Ao transpor o rio, colocam-se em estado de guerra com o califado do Egito.

Anos antes, porém, o homem forte do Egito, o corpulento Al-Afdal Chahinchah — um escravo de 35 anos que dirigia sozinho a nação egípcia de 7 milhões de habitantes — ficara satisfeito com a chegada dos cavaleiros francos na cristã Constantinopla.

Alguns dizem que quando os senhores do Egito viram a expansão do império seldjúcida, foram tomados de medo e pediram aos franj que marchassem sobre a Síria e formassem uma barreira entre eles e os muçulmanos. Só Deus sabe a verdade.

Essa explicação de Ibn al-Athir sobre a origem da invasão franca diz muito da divisão que reinava no seio do mundo islâmico entre os sunitas, vinculados ao califado abássida de Bagdá e os xiitas, ligados ao califado fatímida do Cairo.

Na chegada dos ocidentais, em 1097, Al-Afdal tentara até um acordo de partilha: para aqueles, a Síria do Norte; para ele, a Síria do Sul, isto é, a Palestina. Os francos mostraram-se amigáveis com os diplomatas egípcios, chegando até a oferecer-lhe o espetáculo das cabeças cortadas de 300 turcos. Mas, curiosamente, recusaram-se a concluir qualquer acordo.

Como loucos

Em julho de 1098, ao chegar a notícia da queda de Antioquia, o homem forte do Cairo decide agir imediatamente, sitiando Jerusalém. Por vários meses, os acontecimentos parecem dar razão a Al-Afdal, pois tudo se passa como se os franj, ao se deparar com o fato consumado, tivessem renunciado a Jerusalém. Mas quando em janeiro de 1099 os francos retomam sua marcha ao sul, ele fica preocupado.

Faz chegar novas propostas aos franj. A resposta: "Nós iremos a Jerusalém todos juntos, em ordem de combate, lanças erguidas!" É uma declaração de guerra. Em maio, os invasores atravessam sem hesitar o "Rio do Cachorro", o limite norte do território egípcio.

Na manhã de 7 de junho os habitantes de Jerusalém já podem vê-los aparecer ao longe. O comandante Iftikhar ad-Dawla, "Orgulho do Estado", comandante da guarnição egípcia, observa com serenidade do alto da torre de Davi. Há meses tomou todas as providências para um longo sítio.

Mas o comportamento dos franj é desconcertante. Iftikhar esperava vê-los construir, tão logo chegassem, torres móveis e instrumentos de sítios, cavar trincheiras. Ora, longe desses preparativos, eles começam organizando uma procissão em volta dos muros, conduzida por sacerdotes que oram e cantam, antes de lançarem-se como loucos ao assalto das muralhas, sem dispor de escada alguma.

Uma semana de massacre

As procissões cantantes dos franj irritam Iftikhar, mas não o preocupam. Somente após a segunda semana é que ele sente nascer a preocupação quando o inimigo inicia a feitura de duas imensas torres de madeira.

"Uma das torres móveis construídas pelos franj", contará Ibn al-Athir, "estava do lado de Sião, ao sul, e a outra ao norte. Os muçulmanos conseguiram queimar a primeira, matando todos aqueles que se encontravam nela. Porém, mal tinham acabado de destruí-la, um mensageiro chegou, pedindo ajuda, pois a cidade estava sendo invadida pelo outro lado. De fato, ela foi tomada pelo norte, numa sexta-feira de manhã, sete dias antes do final do tempo de chaaban do ano 492 (julho de 1099)."

Segundo al-Athir,"a população da Cidade Santa foi morta pela espada e os franj massacraram os muçulmanos durante uma semana. Na mesquita al-Aqsa, eles mataram mais de 70 mil pessoas." Ibn al-Qalanissi, que evita manipular números que se podem verificar, disse apenas que muitas pessoas foram mortas e que os francos destruíram até os monumentos dos santos (!). Entre as construções saqueadas estava a mesquita de Omar, feita em memória do segundo sucessor de Maomé, Omar Ibn al-Khattab, que tomara Jerusalém dos cristãos em fevereiro de 638. Os árabes não deixaram de evocar este acontecimento para ressaltar a diferença entre seu comportamento e o dos franj.

Lembravam que Omar assegurou a vida e os bens de todos os habitantes da cidade. E que quando ele e o patriarca grego (chefe cristão de Jerusalém, recém deposto) estavam visitando o Santo Sepulcro, Omar perguntou onde poderia estender seu tapete para orar, pois chegara a hora da reza a Alá. O patriarca disse-lhe para orar ali mesmo, mas o árabe não quis. "Se eu fizer isso, amanhã os muçulmanos vão querer apropriar-se deste local dizendo: "Omar orou aqui..." E, levando o seu tapete, foi ajoelhar-se em outro local. Pensou corretamente, pois foi naquele exato local que se construiu a mesquita que traz seu nome.

Os chefes francos não tiveram essa magnanimidade. Festejaram seu triunfo com uma matança indescritível, depois saquearam selvagemente a cidade que pretendiam venerar.

Cristãos torturam cristãos

Seus correligionários (os cristãos do Oriente) não foram poupados: uma das primeiras medidas dos franj foi expulsar da igreja do Santo Sepulcro todos os sacerdotes cristãos gregos, georgianos, etc., que oficiavam juntos, segundo uma tradição que todos os conquistadores haviam respeitado até então.

Pasmos, os dignitários das comunidades cristãs orientais decidiram resistir. Recusaram-se a revelar aos invasores o local onde estava escondida a cruz verdadeira onde Cristo morreu. Para aqueles homens, a devoção religiosa era acrescida de orgulho patriótico. Não eram eles, afinal, os concidadãos do Nazareno?

Mas os invasores não se deixam impressionar. Submetendo os sacerdotes à tortura, conseguiram tirar dos cristãos da Cidade Santa, pela força, a mais preciosa de suas relíquias.


1 Bárbaro - Desumano, cruel, sanguinário. Qualidade que os antigos impérios atribuíam aos povos que desejavam dominar ou que já dominavam, assim como o conceito de selvagem. Do ponto de vista científico, Lewis Henry Morgan foi o primeiro a adotar uma classificação de estágios na pré-história da cultura.
A barbárie está situada entre a selvageria e a civilização, período em que se aprende a incrementar a produção na natureza por meio do trabalho humano. A barbárie, com três etapas conhecidas, até agora, inicia-se com a introdução da cerâmica. Na fase média, cujo desenvolvimento reconhece certo desequilíbrio entre o continente oriental (África, Europa, Ásia) e o ocidental (América), passa pela domesticação e criação de animais indo à formação de rebanhos, ao cultivo de plantas etc., e chega à fase superior com a fundição de minério de ferro. É o momento da tração a animal, e o cultivo de plantas evolui para a forma de agricultura, transformação de bosques em pastagens, da criação de um variado arsenal de instrumentos de ferro, de carretas, carros de guerra, barcos com pranchas e vigas, das cidades com muralhas, entre outros patrimônios que os povos bárbaros legaram a (ainda) essa primeira fase da civilização.
A classificação de Morgan, todavia, não pretende substituir o conceito de formação econômico social, mas demonstrar o gen da sociedade primitiva. Frederich Engels, em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, adota os critérios fundamentais de Morgan sem, contudo, negar os princípios que ele e Marx construíram, qual seja, o de que o fator principal, determinante do desenvolvimento da sociedade, é o modo de produção dos bens materiais de existência, base que corresponde aos regimes sociais e ao caráter de cada um deles: comunismo primitivo, feudalismo, capitalismo, socialismo. (Nota da Redação)

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