USA e Rússia no limite do enfrentamento na Síria

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No momento em que o imperialismo ianque e seus sócios da Europa imperialista mais pareciam desnorteados com a vigorosa campanha militar da Rússia no território sírio, com seus bombardeios massivos e certeiros contra posições do Estado Islâmico e contra comandos de mercenários a soldo de Washington e Paris, eis que Bashar al-Assad aparece em Moscou, na noite do último 20 de outubro, para uma reunião com seu único chefe, Vladimir Putin, na primeira viagem oficial do “presidente” da Síria ao exterior desde o início da guerra civil desencadeada pelas disputas interimperialistas no país, em 2011.

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Última visita de Bashar al-Assad ao chefe do imperialismo russo, Vladimir Putin

Em nota divulgada após o encontro, o Kremlin informou que Assad, diante de Putin, expressou “sua enorme gratidão a toda liderança da Federação Russa e ao povo russo pela ajuda que estão dando à Síria”.

A viagem a Moscou, o encontro com Putin e o retorno tranquilo de Assad a Damasco foi uma demonstração acintosa de domínio por parte da Rússia da situação na Síria conflagrada apenas poucas semanas depois do início da sua ação militar direta naquele país.

A viagem relâmpago de Assad a Moscou aconteceu ao fim de um dia em que a aviação de guerra russa bombardeou nada menos que 83 alvos “terroristas” na Síria. Em um desses ataques, os aviões russos dizimaram na província de Latakia um comando mercenário do chamado “Exército Livre da Síria”, que é paramentado e financiado por Washington e considerado “terrorista” por Moscou. Entre os 45 mortos no bombardeio de Latakia, segundo a agência de notícias iraniana Fars, estava o agente da CIA Basel Zimmo, conhecido como Abu Hamza, treinado pelo USA na Turquia para ser especialista no lançamento de mísseis Tow, com os quais este agente do imperialismo ianque teria destruído vários tanques do exército de Assad.

O encontro de Putin e Assad na Rússia aconteceu também apenas horas depois da assinatura de um “protocolo de segurança” entre USA e Rússia para “evitar acidentes no espaço aéreo da Síria”, visando, na verdade, evitar um incidente entre caças russos e ianques que poderia conflagrar um confronto direto e descarrilado entre o USA, superpotência hegemônica, e a Rússia, superpotência atômica, tudo em meio à atual chuva de mísseis sobre o território sírio, com cada uma das superpotências rivais mirando os alvos que lhes convêm naquele palco nevrálgico do processo em curso de repartilha do mundo, onde as contradições interimperialistas se encontram em adiantado estágio de aprofundamento.

Nesta guerra por posições na Síria, Putin vem logrando reconquistar para as fileiras de Assad vastas extensões territoriais que estiveram sob domínio tanto do Estado Islâmico quanto do “Exército Livre da Síria” e de outros grupos e facções mancomunados com o imperialismo ianque. Este “sucesso” tem sido suficiente para que uma meia dúzia de analistas de “esquerda” mais apressados digam, meio que comemorando, que o exército russo ultrapassou o exército ianque em superioridade na guerra convencional (sem o uso de ogivas nucleares), mesmo que, por enquanto, não haja cenário de conflito direto — e ainda que o alto poder de fogo dos russos só seja surpresa para quem ignora que a Rússia, justamente por conta do seu alto poder de fogo, é a única pedra no caminho deste USA lançado a ferozes guerras de agressão mundo afora em busca de abertura de mercados, controle de matérias primas e fontes de energia, além da consolidação de posições militares geoestratégicas.

Não obstante, as forças armadas russas parecem impor derrotas táticas significativas ao comandos do USA no front sírio. Ainda no final de setembro o general ianque Philip Breedlove, comandante da Otan, admitiu que a Rússia já começou a instalar no “Mediterrâneo oriental” um complexo sistema de defesa, constituído por armamentos como mísseis terra-ar e mísseis antinavais, que impedem a movimentação de tropas e equipamentos militares inimigos por terra, mar e ar em toda a área coberta por uma “bolha” de radares.

Síria: urge pôr acento e pingo nos “is”

Algumas organizações, atores, frentes e veículos aparentemente anti-imperialistas, ou mesmo assim auto-declarados, vêm insistindo em propagar a ideia de que a retumbante intervenção militar da Rússia na Síria se trata de uma autêntica ofensiva de libertação do povo daquele país.

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Arriscam, assim, um imprudente passo para além da compreensão sóbria de que os bombardeios de Putin sobre as cabeças do Estado Islâmico e dos “rebeldes” financiados pelo USA e por potências europeias significam, na verdade, que Moscou visa com esta sua operação militar de grande envergadura defender a todo custo este país que é uma das suas principais zonas de dominação fora das fronteiras do seu território, o que significa defender, respaldar e intentar a perpetuação do gerenciamento reacionário de Bashar al-Assad e a manutenção da subjugação da Síria ao imperialismo russo — visa, também, exibir com vigor seu poderio militar (poderio que, como vimos, só surpreende os incautos) para mostrar claramente que não entregará de bandeja suas áreas de influência ao inimigo.

A não ser que estes imprudentes progressistas julguem haver uma qualquer tática segundo a qual a conjuntura coloca Assad e Putin como “melhores” do que Obama e um eventual governo “pró-ocidente” (ou que seria mais viável para o povo sírio se libertar do jugo russo do que do jugo ianque, ideia que seria contraditória justamente com a grande surpressa, e por vezes até exultação, que causou a máquina de guerra russa em ação, com alguns mesmo chegando a afirmar que o USA “perdeu sua preponderância militar”); a não ser que uma outra preponderância, a da urgência de varrer o imperialismo de qualquer tipo e bandeira para o lixo da história, tenha perdido espaço nas mentes e corações de revolucionários para este tipo de percepção que só tende a levar a uma depravada “torcida pela Rússia”, ou mesmo à compreensão de mudança de qualidade da guerra na Síria, o que não tem fundamentação no cotejo com a realidade histórica e com as tarefas revolucionárias a serem cumpridas.

A “torcida pela Rússia”, ainda que tapando o nariz; ou, pelo menos, quando não se chega a tanto, a manifestação em textos, pronunciamentos e posicionamentos de alguma espécie de “preferência” — um tanto degenerada em se tratando de progressistas — por um tipo de imperialismo em detrimento de outro, ignora que a mudança do cenário da guerra na Síria significa justamente o acirramento das contradições interimperialistas, o que prenuncia sofrimentos ainda maiores para as massas sírias e a iminência cada vez maior da deflagração de uma guerra entre potências de outro tipo de magnitude, de magnitude devastadora, o que só a Grande Onda da Revolução Proletária Mundial poderá impedir.

Em suma: sendo de fato anti-imperialistas, como é possível que se entusiasmem e esbocem apoio, a título de conter o imperialismo mais feroz do mundo, justamente com o imperialismo que almeja sê-lo?

Talvez ainda se recusem a crer que já há mais de meio século a autêntica revolução proletária na Rússia foi sabotada para dar lugar ao social-imperialismo, que conduziu à restauração capitalista em um país com vasto e poderoso arsenal convencional e nuclear, o que por sua vez alavancou as pretensões imperialistas da elite político-industrial que se encastelou no Kremlin, cacifando-a para se interpôr, depois do 11 de setembro de 2001, ao objetivo do USA de subjugar o mundo inteiro às demandas de sobrevivência dos seus monopólios. Talvez ainda leiam o Pravda como se o jornal fosse aquele mesmo fundado pelo grande Lenin, e não tivesse se transformado no órgão oficial da oligarquia capitalista russa e de sua contrapropaganda imperialista.

Tal postura só pode ser fruto de uma confusão olímpica na análise do cenário geopolítico, ou de puro, simples e deliberado embuste, à moda daqueles que ovacionam as bravatas anti-imperialistas à moda “bolivarianista” de Hugo Chávez.

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