Seara Vermelha: resenha de uma saga camponesa

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80 anos do Levante Popular Armado de 1935

O livro Seara Vermelha, escrito por Jorge Amado em 1946, narra a saga de uma família camponesa expulsa pelo latifúndio no início da década de 1930. É a história de Jucundina, Jerônimo, Zefa, Tonho, Noca, Ernesto, Neném, Jão, Zé, Marta, Agostinho e Gertrudes, João Pedro e Dinah, e tantos outros personagens que percorreram os caminhos da fome, viram as cacimbas e as plantações secarem, as criações emagrecerem e morrerem, a sombra dos urubus pairarem sobre suas cabeças. Viram os seus e muitos outros sucumbirem à fome e à sede e seus ossos branquearem em covas rasas sob o sol escaldante do sertão.

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O destino era São Paulo, terra prometida das histórias de riqueza, mas que de lá ninguém voltava para contar...

Seca e sangue

Era o tempo dos beatos que pregavam o fim do mundo e prometiam a salvação aos que se penitenciassem. Com eles ficou Zefa.

Era o tempo dos cangaceiros. Para seu bando entrou Zé, que passou a ser conhecido como Zé Trevoada.

Era o tempo das incertezas, que fizeram com que Agostinho e Gertrudes abandonassem a marcha para o sul e se empregassem em uma fazenda em meio a jornada.

Era o tempo da inclemência do sertão, que levou a pequena Noca, após dias de calvário marchando com um espinho que lhe arruinou o pé, a perder a vida. Mesmo destino de Dinah, que viuvou João Pedro, deixou este com a dor e as lágrimas secas que não podia mais verter.

Nem os bichos foram poupados. A gata Marisca, inseparável amiga de Noca, foi para a panela. E o jumento Jeremias, que carregou com valentia as tralhas e Noca durante grande parte do percurso, em ato de desespero, comeu uma erva venenosa e serviu de pasto aos urubus enquanto ainda estrebuchava.

Era o tempo em que se embarcava na terceira classe de um navio a vapor em Juazeiro, Bahia: destino dos que buscavam Pirapora, no Norte de Minas, de onde partia o trem de ferro para São Paulo.

Na travessia, a disenteria. O pequeno Ernesto pereceu a esse terrível mau e teve seu corpinho engolido pelas águas do rio, para o desespero de Jucundina.

Pirapora: porto das esperanças e dos desesperados. Era o tempo das papeletas atestando saúde para poder embarcar no trem. Jerônimo, tomado pela tuberculose, não tinha chances. Tonho e João Pedro já tinham as papeletas, mas um médico degenerado, embrutecido pela cena repetida a cada dia da marcha desesperada dos migrantes sertanejos, não dizia que não a Jucundina e Jerônimo pois cobiçava Marta. A assediou e a deflorou em troca das papeletas de seus pais. Num acesso de raiva ao saber como a filha conseguira a papeleta, Jerônimo a expulsou. E Jucundina viu sua filha partir para o cabaré, na rua das prostitutas.

É uma história de sangue e injustiças, das entranhas da semifeudalidade que desde muito antes até os dias atuais devora vidas no campo e expulsa legiões de camponeses para as cidades.

Três irmãos, três destinos

José, o camponês. Zé Trevoada, o cangaceiro. Agora, homem de confiança de Lucas Arvoredo. Muito sofrera e muitos matara. Ao saber do destino dos seus, expulsos pelo coronel Aureliano de suas terras, liderou uma expedição vingativa e quase matou o latifundiário e reduziu a sua fazenda a cinzas. Após a morte de Lucas Arvoredo, assumiu o posto de cangaceiro mais perigoso dos sertões.

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Jão, o primeiro filho de Jucundina a sair de casa. Foi ser soldado de polícia. Lucas Arvoredo e seu bando decidiram se unir ao Beato Estêvão, que atraía milhares de camponeses com sua pregação, convertendo-se em perigo à ordem do latifúndio. Numa noite enluarada, Jão e um grupo de policiais apertavam o cerco contra Beato e seus seguidores quando um tiro certeiro do fuzil de Zé Trevoada o atingiu. Soltando gritos de guerra, Trevoada seguiu o combate com os “macacos” da polícia sem saber que tirara a vida de seu irmão.

Juvêncio, “Neném” para os mais chegados. Era quase uma criança quando fugira de casa tencionando entrar para o bando de Lucas Arvoredo, mas os caminhos da fome o levaram para Recife, onde assentou praça. No exército, o cabo juvêncio ligou-se ao Partido Comunista do Brasil (P.C.B.). Era militante estudioso, simples, respeitado pelos companheiros. A Aliança Nacional Libertadora (ANL), frente de massas que englobava várias organizações e personalidades revolucionárias e democráticas, realizava intenso trabalho de agitação revolucionária. Juvêncio gostava de rabiscar nos muros do quartel a consigna da ANL: “Pão, terra e liberdade”. Mais que o pão e a liberdade era a palavra terra que tocava seu coração sertanejo. Via a alegria no rosto dos colonos, dos meeiros e dos trabalhadores quando aquelas terras que eles lavraram lhes fossem entregues.

Dias de combate

  Quirino, quadro responsável do partido, foi o comandante do levantamento no 21º Batalhão de Caçadores. Ele e Juvêncio eram bons companheiros. Juvêncio respeitava sua liderança e, humildemente, percebendo as dificuldades do camarada, o auxiliava politicamente esclarecendo as diretivas do partido.

Em 24 de novembro de 1935, atendendo as diretivas da ANL e do partido, o 21º BC se levantou. Houve resistência e combates. Juvêncio chefiou o assalto que fez calar a metralhadora dos que resistiam ao levantamento.  Com heroísmo, assumiu a frente do ataque e teve seu corpo varado por balas, abrindo passagem para seus companheiros que saíram vitoriosos. Acordou no hospital inquieto e não houve quem o segurasse.

No quartel, reinava a indisciplina com a chegada de notícias da derrota dos levantamentos em outras localidades. Provocadores espalhavam notícias de que tropas federais marchavam para sufocar a Revolução.

Apesar de gravemente ferido, Juvêncio voltou ao quartel, mandou prender um bêbado e restabeleceu a disciplina apresentando-se ao comando de Quirino. Um provocador foi executado por traição ao Levante. Lourdes, sua companheira, a quem também tocava a popularidade e respeito de Juvêncio, dava conselhos às mulheres dos soldados revoltosos e assumiu tarefas de apoio ao levante no quartel.

Somente no dia 27, o 3.º Regimento de Infantaria e a Escola de Aviação se levantariam no Rio de Janeiro. Mas a esta altura, a junta governamental já se encontrava em grandes dificuldades e os revolucionários perdiam suas posições em outras localidades.

Juvêncio conferenciou com Quirino. Organizariam os homens mais leais e conscientes, aqueles que eram comunistas, aliancistas e guardavam fidelidade à revolução, em colunas de guerrilheiros que se internariam pelo sertão, na caatinga, e ali levantariam os camponeses, à espera do movimento no Sul que eles consideravam inevitável. Voltariam depois sobre a capital. Os dirigentes concordaram e, naquela mesma noite, Juvêncio fez partir colunas de guerrilheiros, dando-lhes o melhor da munição.

Os homens tomavam o caminho da caatinga onde dominavam Lucas Arvoredo e o beato Estêvão. Agora iam começar tempos duros, mas algum dia os demais pensariam como o cabo Juvêncio...

A colheita

Brutal repressão se abateu sobre os revoltosos. Juvêncio foi preso em Ilha Grande (RJ) junto a outros prisioneiros políticos. Novamente demonstrou suas qualidades de firme comunista diante dos torturadores e do tribunal. Assumiu a responsabilidade do movimento e nada mais disse.  O seu depoimento ficou reduzido à seguinte frase: “Nada declarou.”

Jucundina e Tonho o visitavam na prisão e lá conheceram homens de novo tipo, que trouxeram a alegria e a esperança de volta ao seio de sua mãe e uma chispa à vida do sobrinho.

Após sua libertação, Juvêncio cumpria tarefas do partido no Rio de Janeiro quando um dirigente nacional chega entusiasmado de um ativo de camponeses lhe traz a boa nova:

“— Cada camponês que faz gosto. Conscientes e capazes...

Bateu no ombro de Juvêncio:

—  E um deles é teu sobrinho… O menino vai longe... ”

E assim, Tonho, que percorreu os caminhos da fome e viu sua terra ficar para trás, que sobreviveu a travessia de barco e a disenteria, que cruzou as estradas da esperança, ingressa nas fileiras do Partido Comunista do Brasil e se torna um destacado ativista camponês.

A direção do partido encarrega Juvêncio de fazer o caminho de volta ao sertão e organizar os camponeses.

“E pela madrugada, quando as sombras ainda envolviam os campos úmidos de orvalho, e no ar se elevava aquele cheiro poderoso de terra, Neném partiu para a caatinga pelo mesmo caminho seguido um dia por Jerônimo e sua família. Os brotos de dor e de revolta cresciam naquela seara vermelha de sangue e fome, era chegado o tempo da colheita.”

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