Pasta oculta

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"Gente cinza não quer ser cinza, quer ter cor"

No “universo da informática” existem pastas que só são vistas no computador com determinada aplicação de alguns programas que as revelam. Elas são conhecidas como “pastas ocultas”.

Elas estão lá, mesmo que a princípio não as vemos, mas o sistema da máquina as utilizam e operam com elas.

Muitas vezes não sabemos quem colocou essas pastas no sistema, ou não nos interessa saber, mas elas estão lá no sistema e servem para realizar alguma função. Geralmente para fazer funcionar algum programa no sistema da máquina na qual usamos.

Hoje em dia no país, com a crise avassaladora, fruto de uma avalanche de corrupções, de preconceito instituído e declarado contra a mulher, o povo preto e as classes exploradas e oprimidas — efeitos de um sistema capitalista — nas grandes cidades, enxergamos nitidamente uma divisão imposta pelos de cima: os da cidade e os da favela.

Essa divisória tem suas demarcações acentuadas pelas ações da imprensa burguesa e corporativista e pelas ações do Estado na política, para quem o que menos importa são os interesses da população num todo.

Dentro desse sistema social encontramos também uma “pasta oculta”. A parte da sociedade que não vemos. Uma pasta que está ali porque um sistema precisa funcionar, uma pasta que um programa ali o colocou. Uma pasta que está oculta para a máquina andar. Sacrificados, oprimidos, banidos pelo sistema capitalista. São as pessoas cinzas.

No princípio incomodava muito a situação e chamava nossa atenção. Incomodava a imagem. Olhávamos e seguíamos em frente. Depois, incomodava nosso caminhar, mas não olhávamos. Depois não olhávamos, nem tampouco incomodavam mais. Depois, incomodavam… incomodavam e incomodavam o caminho, a cidade vendida, o lucro, a vida de quem queria passar por cima de tudo. Agora não incomodam mais, se tornaram pasta oculta, gente cinza, nós não os vemos mais.

Foram tomando uma cor cinza, sumindo no concreto da cidade como camaleão que adapta sua cor. Nossos olhos não veem mais as pessoas cinzas da cor do concreto, elas se misturaram. O olhar de medusa social os faz sumir. O coração endurecido faz o rosto virar, como se não olhar fosse acabar com o espetáculo de horror.

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Estão longe da possibilidade de moradia , alimentação, saúde,  estudo ou qualquer necessidade básica para a sobrevivência de um ser social.

Condição que os “da cidade” (pelo menos grande parte) ainda têm. Ainda. Condição que “os do morro”, mesmo com todas as covardias, ainda encontram forças para reivindicar. Condição que as pessoas cinzas, as pastas ocultas não têm mais. Porque, além da perda (ou de nunca nada ter possuído), elas perderam sua “dignidade”. Sua condição lhes tirou o que mais pode faltar a um ser humano.

Que sociedade é essa que prega o interesse numa sociedade justa onde pessoas não comem, não moram, não vivem? Se arrastam pelos concretos da cidade tentando sobreviver. Que oportunidades são essas que tanto anunciam que existem e foram dadas a “todos”?

Uma população que a cada momento cresce mais, que de oculta não tem nada. Eles estão bem aí, no outro lado do nosso olhar. A obsessão pelo poder, pela ganância e pelo egoísmo são os programas que produzem essas pastas ocultas.

Gente cinza não quer ser cinza, quer ter cor. Quer o vermelho do amor, quer o azul da paz e verde da esperança de algum dia ser respeitado e ter DIGNIDADE. Não quer ser paisagem estática e sim corpo quente que se move. Não podemos permitir mais gente cinza. Não podemos permitir  mais que pintem as pessoas de cinza.

É preciso responder, é preciso rebelar-se, é preciso não ceder a higienização e o extermínio. Não deixar o coração endurecer como o concreto e vigas vendidas e lucrativas.

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