Governo e latifundiários de Rondônia preparam caçada a lideranças camponesas

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Durante a gerência petista se agravou a situação agrária no Brasil: paralisou a desapropriação de latifúndios, aumentou a concentração de terras e o número de camponeses assassinados. Isto, somado à grave crise econômica por que passa o país, faz crescer as tomadas de terra. Os latifundiários incrementam a violência contra a luta pela terra como tentativa de manter seu sistema, que representa o que há de mais retrógrado no país.

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Reunião Gercino e representantes da segurança do governo estadual, 21/10/2015

Nos últimos meses, em Rondônia, especialmente no Vale do Jamari, camponeses e apoiadores têm sofrido uma onda crescente de repressão cometida por pistoleiros e policiais militares a mando de latifundiários. São crimes e mais crimes, inúmeras provas, mas sem punição. A Liga dos Camponeses Pobres (LCP) denuncia que em várias reuniões de órgãos do velho Estado o nome de Pelé, apoiador da luta camponesa, é citado como incentivador das tomadas de terras; em duas ocasiões, camponeses foram seguidos por um carro Sedan prata; corre à boca pequena a existência de uma lista com nomes de lideranças para serem executadas por pistoleiros na região.

Para evitar mais assassinatos de camponeses, vários movimentos, entidades e personalidades populares e democráticas de Rondônia estão organizando uma audiência pública para dezembro. É preciso levantar uma grande campanha em defesa dos camponeses e da luta sagrada pela terra!

Latifundiários são os maiores bandidos, mas os camponeses é que são reprimidos

A polícia militar comandada pelo governador Confúcio Moura/PMDB tem cometido toda sorte de arbitrariedades e crimes no Vale do Jamari. São tantos, que, devido ao espaço, relataremos só as mais graves e recentes denúncias de camponeses da região.

Viaturas chegam nos comércios vizinhos da área ‘10 de Maio’ (antiga fazenda de 1.500 alqueires desapropriada pelo Incra em 1995, mas comprada pelo latifundiário Caubi Moreira Quito). Camponeses tomaram-na pela primeira vez em 2004 e sofreram vários despejos, mas sempre resistiram como puderam, e retornaram. Em 2014, as famílias cortaram as terras por conta própria, distribuíram os lotes entre si e reiniciaram a construção de casas e roças.

Em alta velocidade, os policiais empunham armas de grosso calibre, mandam todos deitarem no chão, até crianças e mulheres grávidas, humilham e agridem. Em outubro, cerca de 5 policiais militares encapuzados dispararam arma de fogo na área, humilharam um camponês com xingamentos racistas e ameaçaram: “Fala para essa tal de Liga que não temos medo deles”. Um dia após este acontecimento, 3 viaturas da PM, com cerca de 15 policiais, insultaram e prenderam 5 camponeses em suas residências, alegando crime de desobediência, como se eles estivessem na área vizinha onde existe uma ordem de reintegração. Alguns deles têm mais de 4 filhos, são tão pobres que chegam a passar fome, mas só foram liberados após serem multados injustamente em 2 salários mínimos cada.

No dia 30 de outubro, 8 policiais fardados e 4 à paisana atacaram camponeses acampados na beira da estrada Marco Zero, próxima a uma fazenda do latifundiário João Neuto Saul Guerin, em Buritis. Deram pelo menos 10 disparos contra camponeses que chegavam pela mata, atingindo um de raspão. Despejaram as famílias e colocaram fogo nos barracos e pertences, levaram um jovem camponês para a sede da fazenda e, junto com pistoleiros, tiraram-lhe a roupa e espancaram-no com socos e coronhadas. O tenente Lucas fotografou o jovem em seu celular e ameaçou buscá-lo onde estivesse. Um policial ameaçou com uma faca um camponês deficiente físico, acusando-o de fingimento. Ao todo, prenderam mais de 20 camponeses. Dois deles foram obrigados a ficar algemados, sem comer nem beber água por 12 horas.

Em petição na justiça, a advogada do latifundiário João Guerin admitiu que dez homens faziam “segurança privada”, ou seja, pistolagem contra camponeses que tinham tomado esta fazenda. Em 2015, pistoleiros desta mesma fazenda foram presos com muita munição e armamento pesado.

Como já foi denunciado no AND nº 146, o latifundiário Caubi Quito, que se diz o dono das terras da área ‘10 de Maio’, em 2014 declarou a um delegado de Ariquemes que contratou 10 policiais militares para serviços de pistolagem. Um relatório da polícia admite que agentes penitenciários e policiais realizam segurança privada nas fazendas da região sob o comando de um oficial e um ex-comandante da PM de Ariquemes (http://cptrondonia.blogspot.com.br/2014/10/ex-comandante-da-policia-militar.html, acessado em 08 de novembro de 2015).

Mesmo com tudo isto, durante reunião com representantes da “segurança pública” do governo estadual, em outubro, o Ouvidor Agrário Nacional, Gercino José, parabenizou a secretaria de segurança pela prevenção de crimes no campo e prometeu recursos para ajudar as operações policiais. Não deu uma palavra sequer sobre os abusos e crimes da polícia no Vale do Jamari, nem sobre o estado ter ganhado o vergonhoso título de campeão de mortes no campo em 2014.

Os latifundiários da região criaram uma associação para defender suas propriedades. Além das forças do velho Estado, eles organizam grupos de pistoleiros, como os 10 que atacaram uma família da área ‘10 de Maio’ com armamento pesado e novo. Agrediram com chutes, ameaçaram, humilharam e expulsaram a família do sítio, jogaram uma bomba no fogão, atiraram em telhas novas e atearam fogo numa reserva do lote.

Um camponês vizinho, que cedeu seu sítio para as famílias acamparem após um despejo em 2014, vem sofrendo represálias: uma cerca foi cortada, um touro de 9 mil reais foi morto e duas casas foram queimadas, uma delas longe da fazenda. A área tem sido sobrevoada constantemente por uma aeronave de um grande madeireiro de Buritis, membro da associação de latifundiários da região. Dois camponeses sofreram uma tentativa de assassinato após fazerem denúncias em Porto Velho.

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Desde novembro de 2014, o camponês Luiz Carlos da Silva está desaparecido na região. A polícia só iniciou as buscas depois que familiares denunciaram na imprensa e bloquearam a rodovia estadual RO-421 por várias horas. Como outros apoiadores da luta camponesa na região, Delson Mota foi assassinado em Buritis, em plena luz do dia, meses depois de ter sido ameaçado por pistoleiros que destruíram sua casa e fincaram uma cruz tingida de vermelho. Em Rio Pardo, pelo menos sete pessoas foram assassinadas, a maioria defendia o direito de 300 famílias despejadas voltarem para suas terras.

Tomar todas as terras do latifúndio

As Glebas Rio Alto e São Sebastião somam aproximadamente duzentos mil hectares e se estendem por 7 municípios do Vale do Jamari. Há mais de 20 anos, o Incra cortou estas terras em lotes de 21 alqueires e criou assentamento da “reforma agrária” que poderiam atender 4 mil famílias. Mas estas terras foram griladas por latifundiários, acobertados pela “justiça”. Nelas se encontram várias áreas de posseiros como o ‘Monte Verde’.

E, em reunião de negociação com as famílias da área ‘10 de Maio’, o Ouvidor ameaçou punir os camponeses que “têm cometido barbaridades na região” assim que regularizar as posses das famílias. Mas não faz nada para punir os verdadeiros bandidos. Gercino José também ameaçou suspender as negociações nas áreas onde houver conflito. Assim, Dilma/PT aumentará os conflitos no campo, porque os latifundiários continuarão com suas terras e oprimindo os camponeses, que, por sua vez, terão que lutar ainda mais pelo direito à terra. Nos últimos 13 anos de gerenciamento petista, só conquistou terra quem tomou latifúndios, resistiu a despejos violentos, cortou as terras por conta própria, distribuiu os lotes entre as famílias e logo iniciou a produção, fez manifestações e atos, cortou rodovias e ocupou prédios públicos.

A cada dia surgem mais e mais tomadas de terras. Os camponeses se organizam e se preparam, avançam a Revolução Agrária que, em breve, se transformará numa onda invencível. É o único caminho para eliminar este sistema de exploração, opressão e crises crônicas e promover as mudanças verdadeiras de que o povo e a nação precisam. Todo o povo deve conhecer, divulgar e apoiar ativamente esta luta!

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