Cultura da democracia e ‘orações fúnebres’ para a burguesia

A- A A+

http://anovademocracia.com.br/162/15.jpgO historiador Nelson Werneck Sodré, que morreu em 1999 aos 87 anos de idade, foi um importante quadro do pensamento democrático-nacional, tendo escrito obras referenciais para a compreensão da realidade brasileira, como “Formação Histórica do Brasil”, “História da Burguesia Brasileira” e “História da Imprensa no Brasil”. Destaca-se também em seu legado a série de quatro antologias sobre o pensamento marxista, os quatro “fundamentos” nos quais condensa trechos de obras de pensadores que desenvolveram o legado de Karl Marx, publicados no fim da década de 1960 pela editora Civilização Brasileira: “Fundamentos de Economia Marxista”, “Fundamentos do Materialismo Histórico”, “Fundamentos do Materialismo Dialético” e “Fundamentos da Estética Marxista”.

Sobre esse último, “Fundamentos da Estética Marxista”, são mais de 200 páginas divididas em capítulos sobre “Linguagem e Arte”, “Conteúdo e Forma”, “Arte e Povo”, etc., com trechos da tradição marxista escolhidos pelo autor que muito nos dizem sobre as questões mais prementes deste já avançado século XXI (como não poderia deixar de ser em se tratando de uma ideologia científica, dialética, revolucionária), como cultura popular e nova cultura, além de tornarem ainda mais nítidos, como contrastes, o quão degenerados podem ser os padrões estéticos da atualidade, e o quão desconectada da realidade das massas e dos anseios das classes trabalhadoras pode ser esta cultura massificada pelos grupos de mídia associados ao grande poder econômico monopolista.

No capítulo “Intelectuais e Individualismo”, uma sequência de trechos pinçados do livro “Situação do Intelectual”, do líder comunista francês Jean Kanapa, pode ajudar a esclarecer melhor, por exemplo, as nuances que compõem o universo dos “formadores de opinião” neste contexto de intensas lutas ideológicas no Brasil, sobretudo aqueles “formadores de opinião” identificados como “de esquerda” apenas porque, cínica ou ingenuamente, cobram da burguesia o respeito aos “generosos princípios universais que ela editou” quando lhe foi conveniente; ajudam também a entender, em outro exemplo, a natureza dos prêmios de fundações do imperialismo ou das instituições do velho Estado dado a “certos indivíduos” jornalistas e cientistas, como o Prêmio Roberto Marinho de Mérito Jornalista, cujos ganhadores foram anunciados no fim de outubro pelo Congresso Nacional.

Diz assim o trecho de Kanapa que Nelson Werneck Sodré intitula como “A Contradição do intelectual”:

Vivendo em uma sociedade contraditória, realizando um trabalho improdutivo-produtivo, assalariado mas não integrado no modo de produção capitalista, constrangido a elaborar e a difundir uma ideologia destinada a perpetuar a exploração de que ele próprio é vítima tal é o fundamento real, objetivo, da consciência contraditória que o intelectual forma de sua situação. Burguês pela sua função ideológica, é pequeno-burguês pela sua posição social e trabalhador assalariado pela sua situação econômica. Que se passa, com efeito, com os intelectuais? O imperialismo, porque está, de um lado, encarniçado à procura do lucro máximo, de outro lado cuidadoso de reforçar a segurança dos capitalistas, de seu Estado, e de todo o sistema em geral, contra a ascensão do proletariado, privilegia certas camadas intelectuais e certos indivíduos intelectuais. Em sua massa, ao contrário, os intelectuais veem sua proletarização precipitar-se, na medida em que se exercem sobre eles os efeitos da lei de pauperização absoluta da classe operária. Que essa ambivalência existe, é exato (em certa medida, é objeto de nosso estudo), mas, para analisá-la, parece-nos que é preciso pô-la sobre seus pés e encontrar-lhe as raízes reais, objetivas, e os traços econômicos e sociais gerais. Ambivalência da consciência social do intelectual? Sim: diante do Estado, que lhe dá uma sorte tão magra, ou diante da burguesia, que o explora como um bufão, o intelectual, muitas vezes, se rebela (sem mais e, ainda, mais geralmente, rebela-se em “ideia” somente). Diante do proletariado, ele se faz defensor da civilização burguesa, de sua ideologia, de seus valores, de seu sistema, e coloca seu talento a esse serviço.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Mais adiante, Werneck Sodré seleciona um outro trecho de Kanapa, que intitula “Intelectual e ideologia burguesa”:

De fato, no plano ideológico, essa derrocada econômica e social determina outra, que torna mais frágil o cordão umbilical que liga o intelectual à burguesia. Como ideólogo, tem, mais geralmente (fica entendido que não se fala aqui da “aristocracia” corrompida dessa camada social), uma consciência falsa da missão que cumpre, como é ignorante das verdadeiras forças-motrizes da ideologia que elabora, que leva em si e ensina, ele crê na ideologia burguesa; na época atual, em que a burguesia renega os seus próprios valores, acontece então que ele é forçado aqui, às vezes, e cada vez mais, a opor-se à burguesia em nome mesmo da ideologia burguesa. Essa ideologia tem, com efeito, por objetivo, mascarar as reais relações de classes e a exploração capitalista, sob os disfarces dos generosos princípios universais que ela editou, pela necessidade de sua luta então, no período de seu aparecimento e de sua ascensão. A igualdade, a justiça para todos, a Democracia, o Povo… mas o intelectual crê nisso, tem por função expandir esses valores! No estágio atual, em que a burguesia os rejeita cinicamente pela borda, ei-lo chocado pela prática da burguesia e lhe reprova, em nome das próprias ideias que ela o encarregou de defender. Ei-lo, portanto, em uma nova contradição.

Já no capítulo “Arte e Sociedade”, destacamos uma citação de Lenin a que Werneck Sodré classifica sob o título “Dualidade cultural”:

Em cada cultura nacional, há elementos, por pouco desenvolvidos que sejam, de cultura democrática e socialista, porque em cada nação há a massa trabalhadora e explorada, cujas condições de vida fazem nascer, inevitavelmente, uma ideologia democrática e socialista. Mas, em cada nação, há, também, uma cultura burguesa (e, na maioria das vezes, uma cultura reacionária e clerical) e isso não somente sob a forma de “elementos”, mas sob forma de cultura dominante. Eis porque a “cultura nacional”, em geral, é a cultura dos proprietários territoriais, dos padres, da burguesia. (...) Proclamamos a palavra de ordem da cultura internacional da democracia e do movimento operário mundial, tomamos de cada cultura nacional somente seus elementos democráticos e socialistas, nós os tomamos somente e sem restrições como contrapeso à cultura burguesa, ao nacionalismo burguês de cada nação.

Destacamos, por fim, e do capítulo “Arte e Povo”, um trecho do escritor revolucionário russo Máximo Gorki:

O artista é, acima de tudo, o homem de sua época, é o expectador imediato de suas tragédias e de seus dramas ou é partícipe ativo deles. Pode ser objetivo se escapa suficientemente à hipnose dos prejuízos e das prevenções de sua classe, se põe em torno de si um olhar honesto, se é, ele próprio, uma parcela da energia criadora orientada para o fim que a história fixou para a tomada de consciência do mundo trabalhador. O trabalho do escritor distingue-se não somente pela força da observação direta e da experiência, mas também porque a matéria viva sobre a qual ele trabalha possui a faculdade de resistir ao arbítrio de suas simpatias e de suas antipatias de classe. É essa força de resistência da matéria viva ao arbítrio do artista que explica como, no seio da sociedade burguesa, os escritores são, na maioria dos casos, historiadores imparciais dos costumes de sua classe, de que, sem piedade, pintam os vícios, as baixezas, a cupidez, a crueldade e o seu processo regular de decadência e de sua ruína. Nos autores europeus, o elogio da estabilidade da vida burguesa se transforma, pouco a pouco, em orações fúnebres.

Em um país no qual o mercado editorial se vangloria, em geral, de ter achado um “nicho” na literatice política reacionária dos esbirros das classes dominantes, livros como “Fundamentos da Estéticas Marxista” estão dolorosamente classificados como “esgotados”, podendo ser encontrados somente em sebos e páginas da internet especializadas em livros antigos.

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537

Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

EXPEDIENTE

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda 
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond 
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait