A arte investigando a realidade

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Grupo paulistano de teatro popular, a Cia Teatro da Investigação tem por objetivo formar público e ir às pessoas que não têm acesso a essa arte, por conta dos custos e da má divulgação. Encenando nas ruas, a trupe mescla teatro, música, dança e culinária tradicionais do Nordeste.

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— Nascemos em 2003 com o objetivo de fazer um teatro autoral, com dramaturgia própria, e que pudesse ser possível, porque o teatro tem um custo de produção muito alto. Além disso, queremos nos manifestar artisticamente, e não dá para ficar esperando as pautas do teatro para isso — fala  Eduardo Brito, diretor e dramaturgo do grupo. 

— Por isso preferimos o teatro de rua, indo ao encontro do povo. Começamos tratando de assuntos do dia a dia das pessoas comuns. O nome ‘investigação’ é para tentar trazer alguns fatos que não tenham notoriedade — explica.

Atualmente, o Investigação chama atenção do povo com duas peças, baseadas nas obras de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro.

A Casa de Farinha do Gonzagão traz o homem comum do sertão, que trabalha em uma casa de farinha. Aquele que sonha sair dali e o que sonha permanecer ali, não precisar ir para outro estado, passar por um processo de distanciamento da sua raiz, do seu lugar — relata.

— Já A Olaria do Jackson do Pandeiro traz a questão da moradia popular, um povo que luta para ter uma moradia digna em um espaço urbano onde tudo é muito caro, tudo é muito hostil. É uma investigação desse movimento.

— Queremos mostrar que são mulheres, homens e crianças, gente trabalhadora, denegridos por uma mídia que traz uma ideia de que são desocupados, oportunistas. Na verdade são pessoas que vivem em um país que os obriga lutar por moradia — acrescenta.

O grupo tem uma resposta muito significativa do público, o que considera muito importante.

— No caso da Casa de Farinha, por exemplo, estamos em São Paulo, onde têm muitos migrantes nordestinos e muitos já trabalharam em uma casa de farinha. Então se identificam, conseguem ter seu imaginário realizado. Muitos de nós, inclusive, somos nordestinos ou descendentes, eu mesmo sou da Bahia — fala.

— Sem contar que as ruas nos faz atingir um público que só estava passando, e se torna gente interessada no nosso trabalho e pesquisa. Atraído pela sanfona, triângulo, zabumba, chega para ver o que está acontecendo e sente saudade desse forró, que lhe pertence também.

— Fizemos um festival na Lapa, aqui em São Paulo, e no final uma moça chorando nos disse que matou a saudade da sua terra. Que há muito tempo não via os pais, a família e se sentiu acolhida por nos ver fazendo farinha em cena, ralando mandioca, espremendo, peneirando — conta.

Teatro Baile

— Chamamos de  Teatro Baile por misturar com o baile a interpretação, dramaturgia e relação com o público. Nosso foco de trabalho são as pessoas comuns, trabalhadores, a margem da sociedade. Podemos chegar até elas através desses dois ícones da cultura popular brasileira, porque eles conseguiram isso — fala Eduardo.

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— É aproximar o povo pela música. O Teatro Baile é a representação de um universo, de uma obra, e também um espaço onde esse próprio representado pode fazer o seu próprio papel. O baile é um lugar para o público se divertir, falar o que quiser, dançar como quiser, beber, comer se quiser.

Eduardo diz que o grupo conta com músicos, atores e uma cineasta, que registra as atividades. São 13 componentes fixos, além de convidados, dependendo do espetáculo. Por anos sobreviveu na base da resistência e persistência, mas hoje vive de editais.

— Em 2014 conseguimos um edital para circulação com a Casa de Farinha, fazendo 15 cidades do estado. Por volta de 5 mil pessoas viram esse espetáculo, que nós mesmos fizemos a divulgação pelas ruas.

— Agora fomos contemplados com o Prêmio Zé Renato de Teatro da cidade de São Paulo para fazer 16 comunidades na periferia da cidade. Faremos as duas peças juntas, e nossa estadia na comunidade vai durar um dia inteiro — relata.

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— Vamos cozinhar na própria comunidade, para servir durante o espetáculo, e fazer a divulgação através do carro de som do grupo, que circulará pelo local. Enquanto isso, vamos conversando com as pessoas, investigando quais são os seus anseios etc.

Para ligar os dois espetáculos, o grupo usará um personagem que sai da zona rural para a cidade grande.

— Aqui ele precisa buscar um espaço para viver. Aí entra A Olaria do Jackson do Pandeiro, que é onde as pessoas estão buscando uma moradia mais digna, tentando ocupar um espaço para morar, enquanto o Estado fica empurrando esse povo para fora.

— Essa moradia que falamos na peça está relacionada aos sem teto, ocupações ou outros nomes como são conhecidas famílias que ocupam um local abandonado, lugares desativados. Mas, também, cabe qualquer outro movimento de moradia — continua.

— E, no final disso tudo, na comunidade tem o baile, que será uma mistura da obra do Luiz Gonzaga com a do Jackson do Pandeiro. E tudo documentado pela nossa cineasta — acrescenta.

Além desse trabalho paralelo, o grupo tem um terceiro chamado A feira de Chico/Gonzaga e Jackson.

— Chico é o Chico de Assis, um dramaturgo daqui de São Paulo, pesquisador de teatro popular, literatura de cordel. Um artista muito especial da história da arte do Brasil.

— Ele participou do Teatro de Arena, Teatro Oficina, enfim, toda essa geração, e esteve bem próximo de nós. Infelizmente faleceu em janeiro passado, e esse trabalho vem para homenageá-lo e homenagear a feira do sertão, que está ligada a literatura de cordel.

O grupo irá montar uma autêntica feira nordestina dentro de dez estações de trem de São Paulo. A estreia foi em novembro.

— É uma feira mesmo, com boneco Vitalino, esteira, corda, imagem de Lampião, Maria Bonita, espingarda, bode e muito mais da arte popular e da cultura nordestina. E aí trazemos causos que têm na obra do Luiz Gonzaga, do Jackson do Pandeiro e textos do Chico de Assis — conclui.

projeto@acasadefarinha

dogonzagao.com é o contato do grupo.

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