Como destruir escolas de excelência (Pós-escrito)

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“O jornalismo é a profissão mais bela do mundo, mas às vezes leva à autoflagelação. Acontece quando a verdade que se busca é a de nós mesmos”. Esta série sobre as instituições federais de ensino técnico me trouxe o efeito inverso (catarse) e os dados que a compõem são verdade objetiva e documentada. Ainda assim, minha relação com o tema me fez lembrar, ao escrevê-la, desse aforismo da argentina Emilse Pizarro.

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Meu primeiro envolvimento numa luta política concreta foi contra o desmanche do ensino técnico pelo governo FHC, em 1997-98. Perdemos e, por conta dele, me tornar professor de uma escola como aquela onde estudara foi, desde meus 15/16 anos, um sonho proibido.

Restabelecidos os concursos para o magistério federal dos níveis médio e técnico, pareceu possível concretizá-lo. Não tinha maiores ilusões quanto ao governo em que isso se dava (o de Lula); mas se até na ditadura de 64 o Estado brasileiro admitira esse ensino de ponta aberto aos filhos dos trabalhadores, parecia crível o discurso oficial sobre sua restauração.

Em 2009, prestei concursos no IF Farroupilha e IFSC, obtendo boas colocações (3ª e 2ª), mas não as vagas únicas em disputa. Em 2010, ingressei no IFRS, renunciando à advocacia, ao jornalismo e à vaga de tradutor juramentado obtida em outro concurso.

Para tanto, com uma ordem judicial de vista dos títulos da candidata posicionada logo à minha frente em mãos, estive a um passo das vias de fato com o presidente da comissão organizadora, que se negava a cumpri-la. Após a intervenção de um servidor mais ponderado e do procurador do instituto, pude constatar que minha concorrente tivera a pontuação grosseiramente aumentada. Os avaliadores tiveram que acatar meu recurso.

Saberia depois que, das três candidatas aprovadas junto comigo, uma era esposa de um professor do instituto e, mesmo reprovada no exame da OAB e em concursos para cargos de nível médio, obteve uma nota altíssima. Outra exercia função gratificada junto ao então diretor do campus de Porto Alegre, a cujo escritório de advocacia também prestava serviços.

Essas coincidências sempre foram habituais na administração pública e nas instituições de ensino. O favoritismo e a corrupção eram, porém, tradicionalmente restritos a setores administrativos ou a ocasiões específicas, como concursos e licenças para pós-graduação.

***

O choque veio com o início de minhas atividades docentes. Ao gerencialismo de FHC e seu ministro Bresser-Pereira (hoje entusiasta da senhora Roussef), o governo Lula somou o taylorismo mais tosco, que sua sucessora designada exacerbou. É congênita aos IFs a subordinação da atividade-fim (docência, pesquisa) e de quem a exerce às conveniências de detentores de cargos da atividade-meio (administração). Reitores, diretores e chefes de setor (cargos, antes, quase meramente honoríficos) adquiriram poder real sobre o trabalho alheio.

Claro que não são iguais — cito exemplos vividos — o campus Porto Alegre do IFRS, onde tais fatores condicionam tudo e geram um ambiente que faz o lar dos Von Richthofen parecer um oásis de respeito e harmonia, e o campus Jaraguá do Sul do IFSC, onde havia um clima normal de trabalho junto à direção, chefias e funcionários administrativos e só tive transtornos maiores ao precisar de algo que dependia da reitora. Não são iguais para os professores, nem para os alunos: se em Porto Alegre os currículos dos cursos técnicos (todos subsequentes) eram limitados e limitadores, em Jaraguá havia estímulo até à pesquisa e iniciação científica para os estudantes do ensino técnico integrado ao médio.

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As diferenças de intensidade na absorção dos influxos do MEC entre 38 institutos e centenas de campi não elidem, porém, que todos têm hoje uma administração menos democrática que antes da transformação em IF e um ensino mais restrito que antes da contrarreforma de 97.

Não há atenuantes. A demencial liquidação do ensino técnico pelo governo FHC criou um vácuo que o PT preencheu como quis: potencializando vícios administrativos preexistentes, mas enfraquecidos como a estrutura que os continha, para fazer-se seu sócio gestor; e trocando a excelência científica e pedagógica que caracterizava as melhores instituições da rede por currículos restritos, à moda do Processo de Bolonha enquanto, na Europa, empresas de engenharia pedem profissionais formados antes dele.

Esse crime tem por autores intelectuais e materiais Fernando Haddad e Eliezer Pacheco. Mas suas saídas do MEC e da Setec melhoraram muito pouco o quadro. A exemplo do que fizera Eliezer com o IFF, o atual secretário, Marcelo Feres, gravou ainda este mês um vídeo dizendo à comunidade do IFSC em quem votar para reitora. Os baronetes dos IFs já não têm sequer o medo de ter a cabeça cortada, com o qual conviviam sob o comando centralizado de Eliezer.

Quem é pior, PT ou PSDB? Para quem conheceu as escolas técnicas federais como aluno antes de 1998, desejou ser professor de uma delas no governo FHC e o foi nos de Lula e da senhora Roussef, é como perguntar se é pior um sonho impossível ou um pesadelo realizado.

***

Escrevi esta série para expor fatos de interesse coletivo e virar a página de minha vida relacionada à rede federal de ensino. Não como um testamento (sou muito novo para isso), mas como um testemunho. Tive a surpresa de receber, a partir dela, um convite de estudantes da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) para expor sobre o tema.

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Henrique Júdice (à esquerda) em debate na UTFPR

Tudo na UTFPR — do altíssimo nível intelectual dos alunos ao humor nos nomes de seus times de futebol, passando pela boa estrutura física, os espaços de convivência estudantil e as portas abertas à rua — me fez lembrar o Coltec da minha adolescência. São escolas que funcionam como universidades, não faculdades organizadas como escolinhas, como alguns IFs onde até para alunos de curso superior há pedagogas e conselhos de classe.

Os cursos técnicos integrados ao ensino médio estão ameaçados de fechar (vários já fecharam) na UTFPR não por imposição do governo — embora ele tampouco ajude — , mas por um influxo interno de docentes que os menosprezam. E seus currículos foram empobrecidos.

Estudantes dos cursos técnicos de Mecânica e Eletrônica reivindicam o direito de aprender cálculo diferencial e integral, como ocorria no então Cefet-PR antes que eles fossem extintos no período FHC e não voltou a ocorrer quando reabertos sob Lula. No IFSC, alunos meus da licenciatura em Física se queixavam por não poder aprender Física além daquela que lecionariam a seus futuros alunos do ensino básico.

***

O pano de fundo de todos os ataques ao ensino técnico integrado é a desindustrialização. Aguda sob FHC, ela se torna crônica nos governos petistas. Não é acaso que o reordenamento do ensino técnico federal nesses governos tenha como uma de suas faces a perda relativa de espaço dos cursos voltados à indústria e ao trabalho manual para outros relacionados ao setor terciário (administração, vendas) ou ao “agronegócio”.

Ao rebaixar seus horizontes, o Estado tolhe os das pessoas. Com a atração de divisas a cargo do latifúndio exportador e a concentração da oferta de trabalho num terciário subdesenvolvido, para que ensinar Filosofia — ou Química, que exige laboratórios e materiais caros — a adolescentes cujo suposto destino é o fast food ou o telemarketing?

Os governos da ditadura de 64 eram inimigos da formação humanística, mas não do conhecimento técnico-científico necessário à indústria, ainda que monopolista e estrangeira. Talvez os ofícios de técnico em Eletrônica, Mecânica e Instrumentação nem demandassem, a rigor, integrais e derivadas. Ainda assim, não se negava o conhecimento delas a ninguém (não, ao menos, na rede federal).

De lá para cá, a sonegação de saberes se refinou. Os responsáveis por manter o sistema educacional como uma usina de submissão talvez tenham finalmente descoberto que a construção experimental do conhecimento em ciências naturais, como me foi oportunizada no Coltec, contribui mais para o senso crítico e a desobediência que a “doutrinação comunista” risivelmente vislumbrada pela extrema direita nos conteúdos de Sociologia ou História, por importantes que estes sejam. Mas a atual “democracia” é inimiga até da abstração matemática. Compreende-se: ela não deve servir muito aos exportadores de soja.

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