Escolas ocupadas em SP: estudantes se levantam contra ataques do governo à Educação Pública

A- A A+
Pin It
http://anovademocracia.com.br/162/10a.jpg
Juventude Combatente denuncia o Estadio e dá aulas de luta em defesa da Educação | Foto: Victor Prat

Uma onda de ocupações de escolas públicas tomou conta de São Paulo nas últimas semanas. Diariamente, recebemos em nossa redação, fotos, vídeos e mensagens de estudantes e apoiadores da luta que se converteram em correspondentes diretos das escolas ocupadas. Até o fechamento desta edição, estudantes do 1º e 2º graus da rede estadual já ocupavam cerca de 174 escolas na capital e interior do estado, demonstrando, com firmeza e combatividade, que o sucateamento da Educação (e plano de privatização) não será tolerado.

PSDB e PT juntos contra a Educação

http://anovademocracia.com.br/162/10b.jpg
Foto: Victor Prat

Como toda a política imposta pelo imperialismo através de FMI/Banco Mundial à semicolônia Brasil, a assim chamada “reorganização” do ensino público segue exatamente a mesma lógica de sucateamento dos serviços do velho Estado que vem sendo aplicada há anos. Ainda mais em tempos de crise, em que é necessário para as classes dominantes cortar os direitos mais elementares de nosso povo — corte de “gastos”, “ajustes fiscais” etc. — para garantir os lucros recordes dos banqueiros, empresas transnacionais e superávit para o pagamento da dívida “pública”, a Educação vem sendo golpeada sem pudores.

Em conformidade com as medidas da “Pátria Educadora” de Dilma Rousseff (PT) e seus cortes de bilhões de reais da Educação, o “governador” Geraldo Alckmin (PSDB) anunciou que pretende dividir as escolas entre aquelas que oferecerão o ensino fundamental e aquelas que terão exclusivamente o ensino médio, impondo, assim, a transferência compulsória de milhares de crianças e adolescentes para outras unidades e o fechamento de mais de 90 escolas em todo o estado, com a desculpa de “maior eficiência pedagógica”. Claro! Fechar escolas, demitir centenas de professores e funcionários e amontoar alunos em outras escolas, muitas vezes distantes de suas casas, em salas superlotadas com até 80 alunos é extremamente pedagógico... pedagógico em demonstrar que esse velho Estado burguês-latifundiário serviçal do imperialismo não serve e nem nunca servirá ao povo.

http://anovademocracia.com.br/162/10c.jpg
Foto: Gustavo Oliveira

O país já conhece bem essa política de sucateamento seguido de privatização em diversos setores desde os anos 90, mas um exemplo do que vem ocorrendo atualmente nesse sentido na Educação é, como bem explicitado em texto recente publicado no site do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), “a série de privatizações impostas nas escolas do estado de Goiás que, pouco a pouco, estão passando para as mãos de empresas (Organizações Sociais - OS`s). Ou seja, trata-se da continuidade e ampliação de uma única e mesma política de Estado imposta pelo imperialismo e aplicada pelos diferentes gerenciamentos de turno, consagrada no período de FHC e consolidada nos últimos 13 anos do gerenciamento petista, que em seu cerne está o princípio de “sucatear para privatizar”, como fica evidente na privatização em massa de todos os hospitais universitários das universidades federais pela EBSERH - Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares -, para ficar apenas em um exemplo”.

Ocupar e resistir

http://anovademocracia.com.br/162/10d.jpg
Foto: Victor Prat

Durante o mês de setembro, várias manifestações de estudantes e professores contra o fechamento das escolas ocorreram na capital, algumas com repressão policial e prisões arbitrárias. Após uma aparente dispersão e esvaziamento dos atos, as escolas começaram a ser ocupadas, numa verdadeira aula de luta. Vale salientar que, neste ano, já foi travada uma batalha dos que lutam pela Educação contra a gerência de Alckmin no primeiro semestre de 2015, na maior greve de professores dos últimos anos, com 3 meses de paralisação que acabou derrotada pelo cansaço e pela típica pelegagem da CUT, que aparelha o sindicato dos professores de São Paulo (Apeoesp). Dessa forma, os estudantes apontam e trazem de volta ao cenário um justo e correto caminho de luta das classes trabalhadoras: as Greves de Ocupação. Essa forma de luta pode ser usada muitas vezes como uma ferramenta ainda mais eficaz do que as obstruções de ruas e avenidas (também importantes), pois pode, como bem escreveu o professor Fausto Arruda em março de 2012 nas páginas de AND (edição 87), “garantir o apoio da população e principalmente dos usuários diretos daquele serviço, seja escola, posto de saúde, etc., através de sua convocação para dentro das instalações onde os serviços são prestados para receberem as explicações sobre os motivos da paralisação e aproveitando o ensejo para mostrar, in loco, as deficiências e o descaso dos gerentes de plantão em relação àquele serviço tão essencial para o povo. [Pode também] promover o maior desgaste possível à imagem do gerente de turno (pois esta faz parte de seu capital) colocando a nu sua condição de mero representante dos grandes burgueses (…) Neste caso, a greve de ocupação se torna um imperativo para assegurar a politização do conjunto da categoria e dos usuários daquele serviço, (…) desenvolvendo atividades especiais com os alunos, com os pais e com os demais setores organizados do bairro”. E é exatamente assim que vem se desenrolando a luta estudantil em São Paulo.

Bastou uma faísca

http://anovademocracia.com.br/162/10e.jpg
Rapidamente, as ocupações se espalharam por São Paulo ganhando apoio da população | Foto: Victor Prat

Como sabiamente afirmou Mao Tsetung, uma faísca pode incendiar a pradaria”. Após a ocupação da Escola Estadual Fernão Dias, no bairro de Pinheiros, Zona Oeste da capital, no dia 11 de novembro, um grande aparato repressivo foi enviado para o local com dezenas de policiais e tropa de choque, o que gerou uma grande comoção em outros estudantes secundaristas, universitários, professores, pais, mães, movimentos populares e grande movimentação da imprensa.

Essa era a segunda escola sendo ocupada (a primeira foi em Diadema) e, à partir daí, diariamente, dezenas de escolas eram tomadas por alunos de forma espontânea, demonstrando que a juventude brasileira está completamente disposta a lutar, sem os velhos vícios da burocracia eleitoreira. Essa disposição já vem sendo demonstrada intensamente desde as combativas jornadas de 2013, nos protestos contra a Copa da Fifa e também nas periferias com demandas locais, mas o que impressiona bastante a todos os que apoiam essa luta é a baixa faixa etária dos estudantes e seu nível de politização. Em uma assembleia da Escola Heloísa de Assumpção, em Osasco, por exemplo, um menino de 11 anos tomava frequentemente a palavra para opinar sobre os rumos do movimento e em como as comissões devem se organizar.

Na maioria das escolas ocupadas, as decisões são tomadas coletivamente em assembleias e as tarefas são divididas em comissões de segurança, limpeza (inclusive com reciclagem do lixo) etc. “Queremos mostrar não apenas que somos contra o fechamento das escolas, mas que somos capazes de deixar a escola muito melhor do que era antes”, disse um estudante em entrevista à reportagem deAND, que acompanha as ocupações. Apoiadores de diversos setores têm dado apoio fundamental à luta dos estudantes, fornecendo alimentos, promovendo atividades culturais, debates e, em muitos lugares, acampando em frente aos colégios.

Os reacionários tremem

http://anovademocracia.com.br/162/10f.jpg
Foto: Gustavo Oliveira

Com a ajuda do monopólio de imprensa, que publica falsas informações, Alckmin tem tentado a todo custo intimidar e desmobilizar os estudantes. Em todas as escolas, policiais têm feito rondas muitas vezes de forma “à paisana” e filmado o rosto de apoiadores. Casos de agressão policial, em sua maioria nas escolas que ficam em bairros periféricos, foram registrados em vídeos que circulam na internet. Há também diversas denúncias de que conselheiros tutelares têm assediado alunos e pais para que esses desistam da luta. No dia 12 de novembro, dois mandados de reintegração de posse chegaram a ser expedidos pelo juiz Luis Felipe Ferrari Bedendi, da 5ª Vara de Fazenda Pública, mas ele mesmo, no dia seguinte, suspendeu a decisão, alegando que a questão não é sobre a posse dos imóveis, mas sim de política pública, e queA cada dia, uma nova escola pode ser invadida; expede-se, na sequência, a reintegração de posse, é ela cumprida e o ciclo se repete, com a possibilidade, inclusive, de existir a reocupação de uma escola já liberada”. A presença de menores de idade também pesou na decisão:Caso imprescindível a utilização de força policial, por mais preparada e capacitada seja a Corporação Estadual, existe a probabilidade de ocorrer algum prejuízo aos menores, já que o calor da situação, aliado à pressão popular no entorno da escola são elementos suficientes a algum acontecimento trágico”.

Mesmo com a derrota parcial, Herman Voorwald, secretário de Educação do estado de São Paulo, e Geraldo Alckmin continuaram declarando que haverá reintegrações de posse e que a “reorganização” é benéfica a todos, mesmo quando todos se colocam contra. Quando muito, falam em “suspensão temporária da reorganização para negociação”, em clara tentativa de desmobilizar. Uma nova liminar de reintegração de posse foi requerida pelo “governo” do estado, mas, na tarde do dia 23 de novembro, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) negou o pedido por unanimidade e a Defensoria Pública pede a extinção do processo, visto que “as ocupações não ocorrem com a intenção de posse”.

Exemplo da juventude

http://anovademocracia.com.br/162/10g.jpg
Foto: Victor Prat

Enquanto isso, os estudantes continuam a erguer bem alto a palavra de ordem “Não tem arrego!” e  um grande boicote à prova do Saresp (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar de São Paulo) está sendo convocado. Em informativo, os estudantes afirmam: “O governo alega que usa as notas e os índices do Saresp para orientar suas políticas para a educação pública. Mas a política de Alckmin nós já conhecemos: fechar salas, fechar escolas, cortar verbas, precarizar e privatizar a educação pública [...]. Boicotar o Saresp é mais uma forma de lutar contra a reorganização e apoiar as escolas ocupadas”. A gerência estadual já anunciou a suspensão da prova nas escolas ocupadas, o que o movimento interpreta como uma vitória e sinal de que Alckmin está sentindo a pressão dos estudantes, que permanecem altivos e com os brilhos nos olhos típicos da combatente juventude brasileira, demonstrando que grandes lutas continuarão a crescer não só pela Educação em São Paulo, mas em todo o país, nas cidades e no campo, em consonância com a luta de todo o povo nessa nova era que vivemos rumo à Revolução Brasileira.

Na próxima edição traremos mais notícias sobre a luta estudantil de São Paulo, e também novas atualizações estarão diariamente em nossa fanpagefacebook.com/jornalanovademocracia.

http://anovademocracia.com.br/162/10h.jpg
Foto: Gustavo Oliveira

Me gustan los estudiantes

(Eu gosto dos estudantes)

Violeta Parra

Que vivam os estudantes,
Jardim da nossa alegria!
São aves que não se assustam
Com animais nem polícia.
E não se assustam com as balas
Nem o ladrar dos cães!
Caramba y zamba la cosa*
Que viva a astronomia!

Eu gosto dos estudantes,
Que rugem como os ventos
Quando lhes metem nos ouvidos
Batinas e regimentos.
Passarinhos libertários,
Igual aos elementos!
Caramba y zamba la cosa
Que viva o experimento!

Eu gosto dos estudantes,
Porque levantam o peito
Quando lhes dizem “farinha”,
Sabendo-se que é farelo!
E não se fazem de cegos
Quando se apresenta o que foi feito!
Caramba y zamba la cosa
O código do direito!

Eu gosto dos estudantes
Porque são a levedura
Do pão que sairá do forno
Com todo o seu sabor
Para a boca do pobre,
Que come com amargura.
Caramba y zamba la cosa
Viva a literatura!

Eu gosto dos estudantes,
Que marcham sobre as ruínas
Com as bandeiras ao alto,
Para todos os estudantes.
São químicos e doutores,
Cirurgiões e dentistas.
Caramba y zamba la cosa

Vivam os especialistas!
Eu gosto dos estudantes,
Que com eloquência bem clara
À bolsa negra sacra
Baixou as indulgências.
Porque até quando nos dura,
Senhores, a penitência?
Caramba y zamba la cosa
Que viva toda a ciência!
Caramba e samba a coisa,
Que viva toda a ciência!


* Expressão de entusiasmo, “Caramba e samba a coisa” na tradução literal 

 

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja