A “sementinha do mal”


clique nas imagens para ampliar

Passava eu pela rua quando ao meu lado ouvi uma conversa que me chamou a atenção. Eram  duas crianças pobres, tinham suas roupas rasgadas e camisetas esgarçadas. Eram camisetas de medida maior que seus números reais, muitas vezes espichadas para aquecerem seus membros ao dormir, como muito vemos pelas marquises da cidade.  Elas estavam na faixa de seus dez anos e tagarelavam,  quando uma fala me chamou a atenção: “ de menor, você não sabe que...”.

Não foi o assunto que me chamou a atenção e sim o termo utilizado: “De menor”.

“De menor” é um termo que se popularizou, herdado do termo jurídico “menor de idade”.

Assim, “de menor” se tornou um termo pejorativo usado pelas classes dominantes e pela polícia, caindo também no vocabulário popular, para representar crianças pobres que estão na rua. São tantas, cheirando cola ou outros produtos de entorpecentes, abandonadas. Um termo preconceituoso que rotula essas crianças.

Como esse termo identifico outro:

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

“Sementinha do mal”. Esse é um termo que policiais na cidade do Rio de Janeiro usam para se referir  às crianças que estão em estado de abandono pela cidade e nas favelas. O termo “sementinha do mal” chama a atenção, pois cumpre muito bem sua tarefa: ele já anuncia toda a trajetória futura dessa criança. É uma maldição pregada pelas classes dominantes ou pelo ex-gerente antipovo Cabral, tal como Israel fascista faz com as crianças palestinas.

Nele subentende-se que dali florescerá uma árvore maligna.

Pense numa fazenda onde existe uma grande quantidade de bois. Uma fazenda pecuarista. O que o proprietário faz com seu gado? Existe no curral um corredor feito de madeira em que o gado é colocado para seguir caminhando. Num determinado momento um homem com ferro em brasa imprime a marca de sua propriedade nesse boi. A ferro e fogo. Assim ele denomina de quem é esse gado, sua marca.

Assim como o gado — que, digo de antemão, não merece ser marcado a ferro e fogo —, nossas crianças — digo nossas, pois entendo que são filhas do povo, frutos de suas alegrias e agruras — são marcadas por essa velha sociedade, esse velho Estado. Nesse velho mundo, nossas crianças já nascem com seu destino traçado como gado.

O contrário também vale: os filhos do latifundiário estampam marcas de transnacionais e do imperialismo: em suas roupas, em seus carrões, em sua impunidade perante todo tipo de crime.

O que mais me chama a atenção é o fato dessa criança assumir esse termo e tê-lo em seu vocabulário. Isso mostra o quanto ela já incorporou esse rótulo. A ideologia, como dizem, entra pelos poros. E a ideologia dominante é a ideologia das classes dominantes.

Para essa criança ela é uma “de menor”, então ela tem que agir como um “de menor”. E como age esse “de menor”? Da forma como essa sociedade o rotula, afinal a vida que ela conhece é essa que estão falando. Então, para ser vista no mundo, para fazer parte de algo (já que é impedida de fazer parte de quase tudo) ela se assume “de menor”. “Já que dizem que sou isso, já que minha vida está sendo isso, então sou isso” — deve formular quase que instintivamente.

E a quem interessa esse ciclo?

Com a redução da maioridade penal, os “de cima” querem dar o golpe fatal nas “sementinhas do mal”.

Jovens — que poderiam ter um futuro promissor, no auge de suas energias, com sonhos e cheios de vida — trancafiados em cadeias, essas masmorras destruidoras de carne e de sonhos. Não se “ressocializa” quem foi marcado a ferro e fogo como “semente do mal”.

O universo carcerário só serve para perpetuar a dominação dos “de cima”. São milhares e milhares cujas baixas perspectivas caem dia após dia, hora após hora. É um sistema falido para o olhar de quem vê a aparência das coisas, mas não para o sistema, pois é preciso alimentá-lo. E esse sistema podre quer lucro, até mesmo da imensa massa carcerária.

Com a privatização de cadeias e a redução da maioridade penal, a prisão se torna um dos maiores potenciais para faturamento. O sistema capitalista, com sua selvageria, explora e massacra o desafortunado para cada vez possuir mais.

Precisamos parar esse ciclo covarde e ganancioso. Precisamos salvar nossas crianças. Essa velha sociedade não nos serve.

E quando a crosta podre desse velho mundo for se quebrando, e a luz entrar, as sementinhas terão espaço para crescer e florescer em todo seu explendor. E arrebentarão esse velho mundo, frutificarão e construirão o novo.

NÃO SAIA AINDA… O jornal A Nova Democracia, nos seus mais de 18 anos de existência, manteve sua independência inalterada, denunciando e desmascarando o governo reacionário de FHC, oportunista do PT e agora, mais do que nunca, fazendo-o em meio à instauração do governo militar de fato surgido do golpe militar em curso, que através de uma análise científica prevíamos desde 2017.

Em todo esse tempo lutamos e trouxemos às claras as entranhas e maquinações do velho Estado brasileiro e das suas classes dominantes lacaias do imperialismo, em particular a atuação vil do latifúndio em nosso país.

Nunca recebemos um centavo de bancos ou partidos eleitoreiros. Todo nosso financiamento sempre partiu do apoio de nossos leitores, colaboradores e entusiastas da imprensa popular e democrática. Nesse contexto em que as lutas populares tendem a tomar novas proporções é mais do que nunca necessário e decisivo o seu apoio.

Se você acredita na Revolução Brasileira, apoie a imprensa que a ela serve - Clique Aqui

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de Apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro

E-mail: [email protected]om
Reuniões semanais de apoiadores
todo sábado, às 9h30

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda (licenciado)
Victor Costa Bellizia (provisório)

Editor-chefe 
Victor Costa Bellizia

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão (In memoriam)
Henrique Júdice
Matheus Magioli Cossa
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação
Ana Lúcia Nunes
João Alves
Taís Souza
Gabriel Artur
Giovanna Maria
Victor Benjamin

Ilustração
Victor Benjamin