As últimas armas do império agonizante*

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A partir da Primeira Guerra, as potências imperialistas, na condição de forças em disputa pela partilha do mundo e, ao mesmo tempo, em conluio, estenderam a ação de suas armas contra a população civil, já que a luta de libertação dos povos nas colônias e semicolônias se desenvolvia em direção a uma nova e superior etapa. Não se tratava mais de dominar governos e respectivos exércitos nativos, mas as massas desejosas de governar.

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Soldados britânicos dominam plantação de papoula no Afeganistão

Por essas razões, quanto mais se aguçam as contradições de classe, mais proliferam as armas mortais lançadas contra povos inteiros. Se as armas atômicas surgiram para destruir continentes inteiros, as biológicas e químicas não são concebidas com intuitos mais modestos. Esse é o procedimento do imperialismo: sustentar a guerra contra o povo. É justa a afirmação de que a lógica do imperialismo é provocar distúrbios e fracassar, voltar a provocar distúrbios e fracassar novamente até a sua completa ruína.

No fundamental, até hoje, a guerra imperialista, desencadeada contra as amplas massas, impôs quatro novos tipos de armamentos: nucleares, espaciais (de longo alcance, como os artefatos intercontinentais, de águas profundas etc., e os engenhos cósmicos), biológicos e químicos.

Armentos da fase imperialista

O primeiro tipo se baseia no efeito destruidor da liberação da energia nuclear, como as bombas atômicas e de hidrogênio. A bomba de nêutrons produz radiação ampliada (privilegiando-a ao provocar reações em cadeia), havendo menor emissão de calor e impactos diretos, se comparada às duas primeiras, e dirige o seu poder mortal para os seres vivos, principalmente.

Já o centro de aplicação da guerra espacial foi, em grande parte, deslocado dos programas do tipo “guerra nas estrelas” para os projetos de saque e pirataria como os satélites que controlam as emissões televisivas, radiofônicas, voos internacionais e domésticos, navegações, sondagens para fins agrícolas, exploração de riquezas naturais, conservação da biosfera etc. As armas cuja produção é baseada na liberação da energia nuclear, ou a dos pesados armamentos da guerra espacial apenas em parte permanecem garantindo a manutenção ou disputa de hegemonias.

Um terceiro tipo de armamento é construído com substâncias tóxicas subtraídas de seres vivos para destruir parcial ou totalmente o inimigo, ou seja, incapacitar ou exterminar as forças oponentes. As armas biológicas têm claro propósito de dizimar populações civis, nenhuma utilidade para destruir postos ou posições fortificadas. As propriedades genocidas que assumem essas armas residem no efeito destruidor sobre toda a natureza, porque são “planejadas” para produzir violentas perturbações no equilíbrio natural.

Em quarto lugar, entre os armamentos mais utilizados na guerra contemporânea, surgem as substâncias químicas que aparecem em forma de gases, manifestando irritações e queimaduras insuportáveis, podendo chegar a convulsões até sobrevir a morte. Outras vezes, surgem na condição de psicoquímicos etc. Incluem-se entre esses armamentos muitas drogas consideradas lícitas e tantas outras ilícitas.

Cabe esclarecer, o surgimento da indústria química militar data da aplicação da pólvora para fins militares. Com o tempo, as armas químicas de grande poder explosivo tornaram-se, então, necessárias para conter multidões. Nos limites dessa conceituação, se incluem os gases tóxicos mortais e muitos outros que atuam sobre o sistema nervoso e a sua utilização aparece na Primeira Guerra Imperialista (1914 a 1918). Sucedem-se o cloro, o gás de mostarda (iperita), disfogêneo, fosgêneo, a adamita, o monóxido de carbono, o cianeto, herbicidas como o napalm, amplamente empregados na Guerra do Vietnã (1964 a 1975) etc., e, na década de 70, aplicados na Amazônia brasileira pelos grandes latifundiários. Em 22 de abril de 1915, os alemães lançaram contra os franceses 168 toneladas de gás cloro sob pressão, com um saldo de 5.000 mortos. Somente naquele ano, três novas experiências foram levadas a cabo.

Agentes incapacitantes para o alvo civil

No ideal imperialista sempre residiu a perspectiva de produzir um microrganismo em laboratório, altamente infeccioso, virulento e estável, capaz de contaminar milhões de homens com uma grave doença, matando ou incapacitando a curto, médio e longo prazo suas vítimas. É necessário que o microrganismo, uma vez inoculado, se reproduza numa grande velocidade.

Outra propriedade desejável é que esse microrganismo não dê oportunidade ao exército inimigo de conseguir imunidade ou proteção alternativa. Na guerra convencional, é necessário que o agressor esteja imune à arma que ele utiliza. No ataque sistemático aos povos o desprezo do imperialismo pelos seus soldados tende a se acentuar.

A defesa contra todas as armas que o imperialismo utiliza para esmagar a luta de independência dos povos surgirá no processo de destruição do imperialismo pelos povos e na onda de emancipação das massas trabalhadoras.

Nem faz questão de negar

Na guerra químico-biológica, nem sempre o imperialismo tenta ocultar como procedente do seu arsenal determinadas drogas que aterrorizam o mundo. Se merecem especial atenção as drogas ilícitas e as propriedade de reprodução econômica, de dependência orgânica e psicológica, como o alto poder de degradação física e intelectual que as acompanham, como os cloridrato de cocaína, crack, heroína e morfina, além do MDMA (êxtase), o ópio etc., muitas das drogas lícitas têm finalidades identificadas com a dominação imperialista. São incontáveis as drogas (“sob controle”) lançadas legalmente no mercado atacadista e varejista dos grandes laboratórios com a finalidade principal de causar sujeição física e psíquica, provocando estados mórbidos, tão danosas quanto as ilícitas. E é desnecessário descrever o incentivo ao consumo do álcool.

O “humano” do militarismo reside em não poupar técnicas, armas e munições para a contrainsurgência na forma de agentes incapacitantes, cujo emprego intensa e profundamente seja eficaz até mesmo para o controle de populações e territórios com proporções continentais, o que pode acontecer, ao menos enquanto o acirramento das contradições não faça evoluir o quadro de mobilização da esmagadora maioria das populações do Terceiro Mundo.

Na guerra contemporânea, os programas de guerra de baixa, média e alta intensidades para combater os regimes democráticos, os movimentos de emancipação das classes oprimidas, de independência e os de reconstrução nacionais, os engenhos biológicos e químicos passaram a gerar diversas modalidades de armas com propriedades letais (morte instantânea) e os incapacitantes, entre os “benévolos” e os letais de ação mais demorada.

Os “incapacitantes benévolos” foram assim denominados pelos ianques para referir-se aos agentes de efeito passageiro entre os gases neurotóxicos, alguns deles lançados sobre o Vietnã, o que nem sempre significou o emprego de gases neurotóxicos que matassem de imediato. De uma maneira geral, entre eles estão os gases asfixiantes, lacrimogêneos e vesicantes (provocam o aparecimento de bolhas de sangue com bactérias e toxinas), intensamente aplicados “na guerra humana” e que, regra geral, inutilizam a vítima por algum tempo.

Sem dúvida, esse tipo de guerra é mais barata porque suas vítimas são encarregadas de reproduzir e disseminar doenças que contraem, é claro, contra a sua vontade, como também não destroem os meios de produção concentrados nas mãos do imperialismo, enquanto que “humano”, “ético” etc., é o nome que ele dá ao lucro máximo.

Centuriões recomendam drogas

Na aplicação militar de drogas em jovens para estimular sua coragem guerreira, os exemplos mais usuais poderão se fixar nas tropas muçulmanas que usavam o haxixe (de efeito sedativo e alucinatório), nos séculos XVI e XVII, de onde provem a palavra assassino, derivado de “hachichins”, comedores de haxixe. Nada de espantoso, porque na guerra de agressão, entupir a cabeça dos soldados com maconha é prática do U.S. Army desde a Coréia, passando pela guerra do Vietnã, quando se tornou mais intensa, ao que o alto comando ianque acrescentou outras drogas (anteriormente pesquisadas) à dieta cerebral da soldadesca visando manter bem elevado “o moral da tropa”.

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Durante a década de 50, os centuriões ianques passaram a recomendar o emprego de produtos químicos que afetassem a mente, se fazendo acompanhar por doutrinas arranjadas que justificavam plenamente essa prática. Tratava-se de algo cujo uso permanente alterasse o equilíbrio mental da juventude, entre os milhões de jovens nas colônias e semicolônias, obrigando-os a conviver com uma espécie de política de penitenciária.

O ácido lisérgico (LSD) foi sintetizado em 1943. Com os estudos sobre o LSD e assemelhados, novas perspectivas foram abertas para a guerra, em 1952, como o B2 (o “gás do medo”), em caráter experimental no campo de Dugway, que permanece sendo a única droga incapacitante padronizada, capaz de produzir um conjunto de efeitos desorientadores que se aproxima dos estágios iniciais da esquizofrenia ou sugere “sensações agradáveis”, mudanças na personalidade etc.

Na década de 70, os psicoquímicos retornaram como arma, sob a surrada alegação ianque de que sua aplicação na guerra a torna “mais humana”.

O imperialismo ianque apoiou os contrarrevolucionários da Nicarágua, via armamentos e drogas (com que também inundaram os bairros pobres da capital), episódio que se tornou amplamente conhecido na administração Reagan. Em seu próprio país, no início de 70, o governo ianque havia sufocado o movimento dos Panteras Negras encharcando os bairros miseráveis com toda a sorte de corrupção, principalmente drogas.

Quando, na segunda metade da década de 60, o USA desencadeou uma terrível contrarrevolução cultural, três consignas eles dedicaram à juventude que pretendiam dominar: “sexo, drogas e Rock and Roll”.

Os agredidos não têm como fiscalizar

Premeditadamente é ocultada, através dos mecanismos de “esquecimento”, a aplicação de duas outras armas lançadas na fase imperialista para destruir populações inteiras. É o caso do Zyklon B, utilizado nas câmaras de gás nazistas para assassinar prisioneiros (comunistas, socialistas, judeus, democratas), arma desenvolvida nos Laboratórios Leverkusen pelo consórcio alemão (uma reunião das empresas Bayer, Hoechst e Basf) IG Farben (Farbenindustrie), criado às vésperas da Segunda Guerra.

Os primeiros agentes tóxicos dos nervos, incolores e inodoros, foram produzidos ainda na década de 30, na Alemanha, como o tabun, depois o sarim, sendo que, até 1939, eram monopólio alemão. Em 1944 surge o soman. No USA, o tabun é conhecido como GA; o sarin, como GB e o soman como GD.

Coisas da “guerra humana”

Enquanto o imperialismo e o social-imperialismo russo faziam alarde de acordos sobre o fim da ameaça nuclear, novas experiências com armas químico-bacteriológicas se sucediam, bem como eram ampliados e atualizados os seus estoques, porque o desarmamento jamais passou de uma falácia, já que somente a destruição do imperialismo pode tornar realidade a destruição das armas espaciais, nucleares, químicas e biológicas, fazendo com que a química e a biologia se voltem para a produção de alimentos e o combate às moléstias, contribuíndo para a longevidade do ser humano.

A produção de agentes da guerra química e bacteriológica somente é mencionada pelo imperialismo quando se trata de desencadear uma contrapropaganda e ofensiva guerreira de grande porte contra algum país, levantando “suspeitas” de que ele possui arsenais químicos e bacteriológicos. O pretexto serve tanto para invocar o acesso aos segredos de defesa de um Estado estrangeiro que se apresente insubmisso (situação que procura induzir a opinião mundial na tentativa de torná-la favorável a uma pronta intervenção militar), quanto se defender por antecipação às denúncias de que os USA e Inglaterra utilizaram amplamente agentes químicos no Iraque, em 1991.

Contra os poderosos não se aceitam provas

Provas de que gases tóxicos seriam largamente empregados, no caso de fracassar a blitzkrieg nazista, foram descobertas em 15 de julho de 1942, em Sitnia e Pskov, na antiga URSS. Instruções de uso, expedidas diretamente pelo Alto Comando, redigidas em 1940, revelavam que as armas e os planos da guerra química foram entregues onze dias antes da invasão da URSS em 11 de junho de 1941.

O Processo de Tóquio alcançou 12 fascistas japoneses por virem empregando, desde 1931, armas biológicas. Entre 1.500 a 2.000 prisioneiros de guerra, feitos cobaia humanas, morreram em consequência de experiências em Harbin, na Manchúria, num centro disfarçado de Cruz Vermelha, descoberto pelo exército soviético. Em 1949, os ianques promoveram uma epidemia entre os esquimós canadenses. Uma comissão científica internacional acusou os fascistas ianques de usarem do mesmo expediente em prisioneiros chineses e coreanos, durante a Guerra da Coreia (o antra-vírus aparece ali pela primeira vez) e de aplicarem as mesmas experiências japonesas.

Em 1991, a cólera se alastrou em algumas regiões do Peru. O imperialismo cinicamente alardeava que os guerrilheiros não permitiam a ação saneadora dos órgãos de saúde do governo semifeudal e pró-ianque, enquanto que a moléstia, de súbito, tinha aparecido justamente sobre as áreas de maior atuação armada, durante uma grande ofensiva dirigida pelo Partido Comunista do Peru, cujo nome cautelosamente o imperialismo prefere trocar por Sendero Luminoso. Contra os poderosos não se aceitam provas, ao menos enquanto são poderosos, lembram os que combateram os nazistas.

A vez do antraz

Durante todo o século XX foram notificadas apenas 18 ocorrências de Antraz nos USA, e nenhuma outra nos 25 anos anteriores. Em outubro de 2001, a partir do dia 5, surgiram confirmados quatro casos. A contaminação ocorreu de maneira criminosa, através de envelopes destinados a autoridades e personalidades, contendo o vírus altamente elaborado. No período, cinco pessoas morreram ao inalar o Antraz e outras treze foram infectadas. Uma das versões do governo ianque é de que o Antraz foi cultivado no Cazaquistão. Coisas desse tipo são prontamente aceitas pela imprensa semicolonial brasileira.

Em abril de 2002, a doutora Barbara Hatch Rosenberg, (bióloga molecular, investigadora de ciências ambientais da Universidade Estatal de Nova York), expert em armas bacteriológicas, denunciou que os autores do ataque de 2001 trabalhavam nos projetos de guerra biológica do governo dos USA, que o FBI provavelmente sabia de quem se tratava e que a prisão desses elementos iria contrariar escalões do governo e as forças armadas (Obrero revolucionario. www.postedatrwor.org , 146, de 14 de abril de 2002).

A sofisticação dos equipamentos necessários para produzir esse tipo de Antraz, fino, puro, muito concentrado e flutuante, comprova tratar-se de um produto made in USA.

O “Antraz que enviaram aos senadores tinha um aditivo sílice, o mesmo que se emprega nos projetos militares estadunidenses”, explica a publicação Obrero Revolucionário, edição citada. A CIA também admitiu manter um programa secreto para elaborar armas biológicas como o Antraz.

Um porta-voz dos laboratórios do exército em Dugway, Utah (onde, em 1968, morreram 6 mil ovelhas expostas a uma experiência com gases neurotóxicos), confirmou em dezembro a existência desse material de guerra, mas que nada faltava em seus estoques. Em seguida, foi a vez da CIA admitir que dispõe de um programa secreto para elaborar armas como o Antraz, mas que não utiliza o elemento Ames, e em seus depósitos tudo estava conferido. Em resumo, em 30 anos o governo ianque, pela primeira vez, confessou dispor de armas bacteriológicas…

Alguém produziu o Antraz encontrado nos envelopes. Mas, quem? Os laboratórios militares dos USA, em particular a CIA, assegura a cientista ao acusar os chefões de seu país. Um laboratório trabalhou para a CIA e esta é a melhor pista de que esse tipo de Antraz provém do arsenal ianque, informou a BBC de Londres, em 19 de dezembro de 2001. Em 14 de março de 2002, o noticiário da BBC voltou a se referir à possibilidade de que o episódio do Antraz se tratava de uma operação de contra-inteligência da CIA.

A cepa Ames (porque originalmente foi elaborada nos laboratórios do governo, em Ames, Estado de Iowa), mas obtida no Fort Detrick é um elemento primordial para a guerra biológica ianque, desde a década de 60. Além do mais, somente quatro laboratórios ianques têm capacidade para produzir Antraz de uso bélico. Outra: apenas umas 50 pessoas guardam os conhecimentos necessários para produzir exatamente esse tipo de agente. Assim, as experiências químicas e biológicas não necessitam ser interrompidas. Interrompida deve ser a existência do imperialismo na face da terra.

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* Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 1 de AND, em junho de 2002

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