A rebelião dos petroleiros e suas lições

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Ao longo de 21 dias, petroleiros do Brasil inteiro pararam a produção de plataformas, impediram carregamentos de insumos, assumiram salas de controle de unidades da Petrobras e fizeram a maior rebelião de petroleiros dos últimos 20 anos.

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PSDB e PT: privatizações marcaram os dois governos

Para contar a história dessa greve é necessário retomar à última década: o gerenciamento Lula/Dilma (2003-2014) encontrou prósperos recursos em um preço de barril em mais de 100 dólares no mercado exterior. Com essa dinheirama pôde alimentar uma claque de sindicalistas, particularmente os dirigentes da Federação Única dos Petroleiros (FUP) — filiada a Central Única dos Trabalhadores (CUT) —, que se encastelaram em milionárias estruturas e muitos foram nomeados para importantes cargos dentro da Petrobras, a exemplo de um ex-dirigente do Sindipetro-SP, Diego Hernandes, que, por vários anos, ocupou a gerência executiva de RH da empresa.

Para represar a crise econômica, que já dava sinais de que iria estourar em meados de 2014, a gerência Dilma/PT decide utilizar a Petrobras para manter certos índices econômicos sob controle e assim ter um apoio mínimo e vencer as eleições. Manteve o preço da gasolina baixo, acelerou o início de operação de plataformas e a “exportação” dessas unidades. O resultado eleitoral veio, mas abriu-se um fosso que depois alguém teria que tampar.

E, mal passadas eleições, o gerenciamento petista aplicou medida idêntica à saída dos privatistas da década de 1990 (a outra facção do Partido Único que disputava o gerenciamento do Estado): vender a Petrobras em pedaços. Seu presidente, Aldemir  Bendine, teve como missão resolver o “problema financeiro”, oferecendo lucrativas e operacionais partes da Petrobras para o mercado. Além de Bendine, Dilma nomeou para a presidência do Conselho de Administração, Murilo Ferreira,  presidente da mineradora Vale, empresa transnacional que entre seus sócios controladores tem a empresa japonesa Mitsui. O primeiro “grande negócio” comemorado pelo mercado especulativo foi a venda de 49% da lucrativa distribuidora de gás Gaspetro, integrante do Sistema Petrobras, para a Mitsui por 1,9 bilhões de reais. Poucos dias antes do anúncio da venda, o mesmo Murilo Ferreira se afastou do Conselho de Administração da Petrobras.

Telecatch pelego

O ambiente de bonança criado pela alta do petróleo possibilitou grandes lucros para acionistas, empreiteiros, bancos e diversos grupos ligados ao governo. No meio dos trabalhadores, a FUP, sob a batuta do PT, simulava paralisações e assim alimentava com ganhos limitados uma pequena fatia dos trabalhadores do sistema Petrobras, enquanto uma grande maioria de terceirizados era mantida em situações precárias. Os pelegos da FUP se especializaram em simular disputas e conquistas trabalhistas, enquanto negociavam diretamente com o RH da Petrobras seus interesses. Um tipo de sindicalismo de telecatch, assim como aquelas lutas mexicanas fingidas, em que ambos simulam bater e apanhar.

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Para 2015, o teatro iria começar, embora com condições diferentes dos outros anos. A Petrobras começava ameaçando retirar conquistas antigas dos petroleiros, e usava a crise como álibi. A FUP iria ameaçar uma greve, a Petrobras recuaria retirando o bode da sala, e os petroleiros aceitariam não receber nenhum reajuste e desistiriam de pleitear qualquer coisa nova.

A FUP fez o seu papel de cena e chamou uma greve com parada de produção por tempo indeterminado. Existem plataformas que sozinhas produzem quase R$ 1 bilhão mensal em óleo e gás. Parar a produção dessas unidades significaria um prejuízo de mais de 400 milhões de reais diários, afora a possibilidade de desabastecimento de gás para a indústria. Era claro que isso não era sério. O sindicato governista contra o governo?

A greve teve início no dia 29/10 nas bases da FNP (Federação Nacional dos Petroleiros, que agrupa 5 sindicatos), mas a FUP daria o indicativo de início apenas para dia 01/11 com orientação de parada de produção e ocupação das unidades.

Plataformas ocupadas

Os trabalhadores ocuparam salas de controle das plataformas e portões de acesso da empresa, impedindo o carregamento de insumos usados em terra e mar. Em muitas unidades, os petroleiros permitiram apenas o fornecimento de comida e insumos para a sobrevivência humana.

Com um cenário de crescimento e radicalização da greve, viria a segunda parte do plano acordado tacitamente entre FUP e o RH da Petrobras: desmobilizar a greve e selar um acordo lesivo aos petroleiros. Mas o tiro saiu pela culatra.

Os piquetes aumentavam e, sem conseguir desmobilizar a categoria, FUP e RH iniciaram ameaças de demissões e pintaram a situação em cores horripilantes, indicando o fim da greve. Mas, ao contrário disso, alimentaram a rebelião.

No Norte Fluminense, maior área produtora de petróleo do país, grevistas se articularam por “redes sociais”, organizaram caronas de diversas áreas do país e lotaram as assembleias de Macaé e Campos, com mais de 800 petroleiros, que, por maioria, rejeitaram o indicativo de encerrar a greve, desmoralizando os pelegos e suas manobras.

Rebelião das bases

A partir do dia 14/11, os piquetes, muitas vezes feitos por funcionários pagos pelo sindicato, passaram a ser assumidos massivamente pelos trabalhadores das unidades. No Terminal de Cabiúnas, unidade terrestre que recebe o petróleo da Bacia de Campos, os piqueteiros receberam reforço importante e injeção de ânimo, formando cordões humanos de mais 100 grevistas e conseguindo barrar pelegos e insumos para a produção. Na refinaria de Duque de Caxias (RJ), os piquetes eram feitos por um número recorde que ultrapassou 200 petroleiros, atrasando trocas de turno e impedindo diversas atividades da cadeia produtiva.

Os aeroportos de onde saem os helicópteros para as plataformas foram cercados por uma multidão com faixas e cartazes, impedindo voos de pelegos em Campos, Farol de São Tomé, Macaé, Cabo Frio, Jacarepaguá, Vitória (ES), etc. A sede da Petrobras em Macaé chegou a ser invadida pelos grevistas, que ainda ocuparam o heliponto do local, terminando com a última opção de embarque de pelegos na cidade. A Petrobras precisou organizar voos clandestinos para tentar fugir dos piquetes. A semana foi de piqueteiros perseguindo ônibus com fura-greves, paralisação de voos e o início da articulação de um grande ato no Centro da cidade do Rio de Janeiro, que denunciaria os efeitos nefastos da política privatista de Dilma/Bendine.

Do movimento de piqueteiros começou a se gestar uma direção independente e autônoma, que começava a decidir e deliberar o movimento independente da direção pelega da FUP/CUT.

Percebendo o grande risco de perder totalmente o controle da greve, os pelegos da FUP intensificaram a campanha de desmobilização na principal base rebelde. Às 18h de 19/11, o Sindipetro-NF convocou, pela internet, uma assembleia para o dia seguinte (um feriadão), às 8 horas da manhã, na sede de Macaé e em Campos. Essa manobra visava desmobilizar os grevistas que moravam no Espírito Santo e no Rio de Janeiro, que teriam que atravessar de carro, com passagens de ônibus esgotadas, um engarrafamento colossal entre as capitais e o Norte do RJ.

Ao fim, numa assembleia marcada pelo cansaço, manipulações e vergonhosa atitude da burocracia sindical, os pelegos puseram fim na greve sem ganhos reais e tendo que derrotar um combativo movimento da juventude petroleira.

Como resultado desta que foi a terceira mais longa greve dos petroleiros, ocorreram recordes no prejuízo à produção e na intensidade da mobilização, com os piquetes mais massivos da história da categoria. Porém, foi uma greve interrompida.

Os petroleiros não obtiveram ganho econômico real, a Petrobras não reverteu punições anteriores e não se comprometeu em não punir. Os dias de greve ficaram em suspenso, podendo a Petrobras decidir ou não descontá-los, dependendo de uma negociação de gabinete entre FUP e o RH. A denominada “Pauta Brasil”, alardeada pela FUP, que reivindicava uma interrupção do processo privatista de Dilma e Bendine, será debatida em um Grupo de Trabalho bipartite, sem garantias de nada, e que até o momento não foi capaz de impedir o fatiamento e vendas que já estão ocorrendo — como é o caso já citado da Gaspetro, da venda de parte da BR Distribuidora e de diversos campos de produção de petróleo no país.

De positivo para os trabalhadores ficou o exercício dessa greve histórica, o desmascaramento das direções oportunistas, pelegas e governistas e a organização de diversos grupos independentes para fazer frente às futuras manobras e traições da burocracia sindical.

 

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