A guerra ao mosquito à luz da guerra ao caramujo

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Desmascarado e desacreditado perante as massas, o gerenciamento do PT ora tenta mobilizar o povo brasileiro para uma “guerra” contra o mosquito aedes aegypit, transmissor do vírus da dengue e da zika, sem qualquer condição política ou moral para uma “luta conjunta”, como implorou Dilma em rede nacional, até mesmo contra um simples inseto. Desesperado, o máximo que este gerenciamento moribundo consegue lograr em matéria de articulação entre política e medicina preventiva é colocar seus ministros para, de terno e gravata, limpar as calhas da Esplanada dos Ministérios, reforçando com esta cena patética a velha ideia reacionária de que “o exemplo tem que vir de cima”.

Com apoio ativo do povo chinês, conquistado graças à sua liderança exercida na luta revolucionária das massas, o Presidente Mao Tsetung comandou, há mais de meio século, uma exitosa guerra contra os caramujos hospedeiros do parasita causador da esquistossomose. Em 10 anos, a China conseguiu reverter um quadro de 12 milhões de pessoas infectadas pelo verme schistosoma japonicum, tornado-se o primeiro país do mundo a pôr sob controle aquela que, na época, era chamada de “doença invencível”. O feito foi conseguido graças à mobilização de milhões de pessoas para a execução de um planejamento estratégico global contra o molusco.

O médico britânico Joshua S. Horn, que esteve na China socialista como médico de campo, conta em seu livro ‘Medicina para Milhões’ que Mao aplicou na guerra contra o caramujo três conceitos praticados na vitoriosa guerra contra o império nipônico.

O primeiro desses conceitos foi a linha de massas, calcada na percepção de que uma estratégia ou um programa, para servir ao povo, deve estar alicerçado na experiência do povo, no seu grande poder e sabedoria, que devem ser sistematizados e aperfeiçoados pela liderança, que, só então, deverá planejar e decidir o caminho a seguir. Horn ressalta da sua vivência na China revolucionária que “confiar na experiência do camponês é de importância capital. Mobilizar as massas não significa enchê-las de pás, enxadas e instruções; mobilizá-las é insuflar-lhes entusiasmo, apoiar-lhes a iniciativa, aproveitar-se de sua experiência”.

Aplicou-se também na guerra contra o caramujo a tática militar da concentração de forças, delineada por Mao Tsetung na época em que o Exército Popular de Libertação era muito inferior, em termos numéricos, ao inimigo, sumarizada da seguinte forma: “Em cada batalha concentrar uma força superior em termos absolutos, cercar completamente as forças inimigas, lutar para delas livrar-se totalmente, não deixar ninguém escapar à rede”.

Joshua S. Horn exemplifica como esse princípio foi usado na guerra contra o caramujo da esquistossomose:

Dos dez municípios infestados nas cercanias de Xangai, dois foram escolhidos como alvos importantes nos estágios iniciais do que seria uma longa campanha. Tudo disponível em termos de mão de obra, recursos médicos, bombas, equipamento para drenagem e represamento de rios concentraram-se nessas duas áreas; e em pouco tempo, os moluscos receberam ali o golpe fatal. As forças foram então reorganizadas, desfechando-se o ataque em outro lugar. Aos poucos, extensas zonas ficaram livres dos moluscos.”

Por fim, a teoria do Tigre de Papel, que, no campo da política, Mao usou para qualificar a dupla natureza do imperialismo e de todos os poderes reacionários: ao mesmo tempo que “devoram as pessoas, devoram-na aos milhões, às dezenas de milhões”, numa perspectiva de longo alcance não são páreos para a força das massas oprimidas, desde que organizadas e conscientes do seu poder.

“Aplicada à luta contra o caramujo, isso significa de um lado que, sendo tais moluscos prejudiciais à humanidade, não interessa se numerosos, bem camuflados e protegidos, estão mesmo condenados, pois o homem é incomparavelmente mais poderoso, e resolverá o problema em definitivo.”

Chang Kai, o encarregado do posto de prevenção da esquistossomose da cidade de Ching Pu, onde o empenho das massas em ações guiadas pelo pensamento do Presidente Mao tornou possível erradicar o caramujo numa região que vivia infestada do molusco, disse a Johua S. Horn, entretanto, que o povo havia apenas vencido algumas batalhas:

“O importante, o fato realmente decisivo, foi a luta de classes. Tivemos que lutar por cada centímetro do caminho contra aqueles que queriam fazer-nos retroceder. E ainda teremos que lutar no futuro. Se não estivermos em guarda, se relaxarmos a vigilância, seremos derrotados. Perderemos tudo o que já ganhamos. Isso é o que consideramos importante. O combate à esquistossomose só é possível enquanto conseguirmos permanecer no caminho do socialismo. Se abandonarmos essa estrada, perderemos; e os caramujos serão os vencedores.”

Hoje, após décadas de restauração capitalista na China, a esquistossomose volta a flagelar os camponeses pobres daquele país. Algumas aldeias agrícolas já apresentam um quadro de quase 90% da população infectada pelo verme schistosoma japonicum, mesmo que já há mais de 30 anos exista um remédio eficaz contra o parasita. Os rios e lagoas do interior da imensa China voltam a ficar infestados pelo famigerado caramujo, assim como os traidores do povo infestaram todas as instâncias do Estado chinês, permitindo a volta dos maiores males, sociais e biológicos, que infelicitam as massas chinesas.


‘Odeio a velha sociedade. E esmago o crânio daquele que tentar trazê-la de volta!’

Um dos trechos mais contundentes do relato de Joshua S. Horn é aquele em que ele descreve sua visita à cidade de Ren Tun, que havia sido quase completamente liquidada pela esquistossomose, mas que renasceu após conseguir pôr a doença sob controle, com seus cidadãos organizando-se e engajando-se na guerra ao caramujo liderada pelo Presidente Mao Tsetung.

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Especialmente revelador é a reprodução pelo médico britânico do que ouviu de uma moradora de Ren Tun chamada Lu Zhing Zhuan, orfã de mãe desde pequena, criada por um pai severo, cuja família, de pescadores, morava em um barco, era castigada pela pobreza e foi golpeada pela “doença invencível”. Ela descreve os últimos momentos do seu pai, vítima da esquistossomose:

“Foi ficando cada vez mais fraco, quase não conseguia ficar de pé. Então me mandou arranjar um furador e uma pena de pato, e fazer um furo na sua barriga, enfiando a pena de pato para retirar a água. Recusei-me a obedecer a apanhei outra vez. Fiquei com tanto dó dele que arranjei a pena de pato e pedi emprestado um furador usado para costurar sapatos de pano. Ele me mostrou como fazer o furo, mas eu não conseguia mesmo fazê-lo.”

“Agarrei suas pernas, mas ele me batia soluçando, implorando-me que lhe furasse a barriga. Então obedeci. Foi muito fácil. Enterrei o furador logo abaixo do umbigo. A barriga estava esticada como um tambor; e à medida que eu ia retirando o furador, introduzia a pena. A água esguichou pela pena de pato. Peguei um balde, que logo ficou quase cheio. Eu estava zonza. Meu pai deitou-se de lado, a água saindo pela pena. O vizinho do outro barco veio e esvaziou o balde; trouxe algum alimento, mas ninguém conseguia comer.”

O pai de Lu Zhing Zhuan morreria poucos dias depois. Horn descreve assim como foi o final do seu encontro com aquela mulher que despejava à sua frente “a amargura acumulada de toda uma vida”:

“Procurei consolá-la, dizendo que não devia sentir remorso, pois seu pai teria morrido de um modo ou de outro. ‘Remorso! Não sinto remorso. Éramos ambos vítimas da velha sociedade meu pai e eu, assim como centenas de outros’. Ela gritava agora o rosto transtornado pela raiva. ‘Odeio a velha sociedade. Odeio! E esmago o crânio daquele que tentar trazê-la de volta!’

Então as lágrimas vieram. Mas eram lágrimas de ira, não de pesar lágrimas de alívio por ter chegado ao fim o pesadelo do passado.”

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