O “Lampião” australiano

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Edward “Ned” Kelly morreu em 1880, aos 26 anos, enforcado no pátio de uma prisão em Melbourne, na Austrália. Seu corpo foi decapitado e enterrado no pátio da prisão e sua cabeça enfeitou a mesa de policiais até 1929, quando aparentemente se perdeu.

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A história deste jovem australiano, entretanto, chama a atenção tanto por sua coragem e destemor, como pela clareza na identificação dos inimigos do povo australiano da época: os latifundiários, o velho Estado e seus representantes. Infelizmente, como em tantos outros casos, todas essas qualidades não se converteram na clareza política capaz de conduzir a um processo revolucionário.

A Austrália colonial se constituiu basicamente como uma colônia penal, para onde eram degredados os indesejados pela coroa inglesa. Uma legião de irlandeses, escoceses e mesmo ingleses pobres, principalmente camponeses, foi arrancada de suas raízes e forçada a exterminar a população nativa e a construir um novo país a milhares de quilômetros. Eles foram submetidos às condições ainda mais desumanas de miséria e relações sociais com os amos da metrópole. Carregaram também as disputas religiosas entre católicos e anglicanos.

As gerações que nasceram no novo continente não escaparam dos estereótipos criados pelo dominador inglês. Particularmente, os irlandeses eram identificados como ladrões e as mulheres como prostitutas, muitas delas sendo obrigadas a sobreviver dessa atividade.

Ned era filho de irlandeses e desde cedo conheceu o trabalho, a miséria, o machismo e o preconceito. Sua família católica, numerosa e miserável, tinha como pai um ex-apenado por roubo, que, obviamente, vivia evitando qualquer outro problema com a polícia. Uma segunda prisão, entretanto, foi seu fim.

Chefiada pela mãe, a família passa pela mão de aproveitadores, policiais corruptos, rufiões, até que um famoso bandoleiro (Harry Power) traz relativa estabilidade às relações amorosas da senhora Kelly. Foi ele também o responsável por apresentar in loco a geografia daquele pedaço da Austrália ao jovem Ned, tornando-o seu aprendiz e cúmplice de assaltos e outros crimes.

O próprio Ned é preso durante três anos por roubo de cavalo.

Após esse aprendizado, Ned arruma trabalho, mas uma série de desgraças familiares, culminando na tortura de seu irmão pela polícia, o leva a abandonar o emprego e se refugiar com o irmão no alto de uma montanha, num antigo esconderijo de Power, criando uma espécie de comunidade alternativa. Já nessa época, ele compreendia como o latifúndio era o principal motivo da desgraça de sua família e dos camponeses pobres.

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Mais pessoas, atraídas pelo modo de vida dos Kelly, engrossam a comunidade, que tenta se dedicar à produção agrícola. Já nessa época, ainda com 22 ou 23 anos, Ned era caçado como “fora da lei”, com recompensa por sua cabeça, mesmo sem ter cometido nenhum crime mais grave que roubar alguns cavalos de latifundiários e as velhas acusações de cumplicidade com o bandoleiro. A mãe de Ned é presa injustamente.

Nessas condições, o agora chamado “bando de Kelly”, composto por Ned, seu irmão Dan e por dois amigos, mergulha na clandestinidade como grupo errante, até que Ned mata três policiais num confronto e mergulha também no mundo das atrocidades policiais.

A partir daí os acontecimentos se desdobram num frenesi. A recompensa por sua cabeça quintuplica. Uma força policial enorme se lança a sua caça. Aumenta o apoio do campesinato pobre ao “bando”. Ned conhece e se apaixona por Mary Hearn, uma jovem irlandesa forçada pela miséria a se prostituir. Os Kelly assaltam dois bancos de forma genial. Ned tem um filho, que nasce no USA. Utilizando metal doado pelos vizinhos camponeses, o “bando” desenvolve armaduras, o que provocaria pânico no combate final.

E nesse combate, em junho de 1880, apenas Ned sobrevive, sendo atingido mais de 50 vezes nas pernas, depois de 12 horas de tiroteio. Sua execução na forca foi em novembro do mesmo ano.

Os restos mortais de Edward “Ned” Kelly foram encontrados e identificados em 2011, no pátio da prisão. Sua cabeça segue desaparecida.


Robin Hood ou cangaceiro

Diversos autores, inclusive brasileiros, recorrem à figura de Robin Hood para a comparação com Ned Kelly. Tal relação, entretanto, não é correta.

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Armadura original de Ned em exposição

Por se tratar de camponês pobre, expulso de suas terras, de sua luta contra os latifundiários e contra o terror policial, talvez o “bando de Kelly” se encaixe melhor na mesma categoria que o fenômeno do cangaço.

O fato de o grupo ter sido pequeno, apenas quatro integrantes, pode depor contra a teoria de “bando”. Porém, pode ser considerada a baixíssima densidade demográfica da colônia de Victoria, o que justificaria o efetivo policial deslocado para combatê-lo, de cerca de cem militares.

Em comum também com o cangaço podemos citar a enorme limitação política, já que apesar de reconhecer o inimigo, os Kelly não encontraram o caminho para a criação de um movimento revolucionário ou algo mais consequente. Já no desenrolar da história se percebe como Ned vai tomando consciência de que lutava por uma causa perdida e que seu fim estava próximo.


O livro

O livro A história do bando de Kelly, de Peter Carey, foi publicado no Brasil em 2002, pela editora Record.

Traz uma forma bastante pitoresca de narrativa, pois pretende que o texto seja da lavra do próprio Ned Kelly, considerando sua baixa escolaridade, o que pode induzir o leitor a acreditar numa leitura difícil. Nada disso, a leitura flui bem e logo o leitor se adapta à falta de pontos e vírgulas.

Outras dezenas de livros foram escritos, principalmente na própria Austrália, onde Ned Kelly é, até hoje, bastante popular, não sem dividir opiniões com os que o consideram apenas um bandido cruel.

A filmografia sobre essa espécie de cangaceiro australiano é também extensa, contando seguramente mais de dez filmes, sendo os mais famosos os de 1970, tendo Mick Jagger, vocalista dos Rolling Stones, no papel de Ned. Em 2003 foi lançado Ned Kelly, com Heath Ledger no papel principal, Orlando Bloom e Nomi Watts.


“Os filhos de Sieve”

Passagem importante do livro de Steve Carey é a que trata de travestismo entre os descendentes de irlandeses. A coisa vai sendo tratada como homossexualismo, ajudando a conduzir a trama, até que Mary Hearn, a companheira de Ned, esclarece a história.

Trata-se da tradição entre os camponeses irlandeses que, ao se rebelarem, se vestiam de mulher e passavam carvão no rosto para aterrorizar os nobres latifundiários. Muitas vezes promoviam atos de sabotagem, como incêndios.

No livro, revela-se que o pai de Ned era um “filho de Sieve”, mas o filho desde a infância acreditava que o pai era homossexual, o que em meados do século 19 era uma abominação. Esse pano de fundo da história ajuda a conduzir a busca pela identidade nacional dos descendentes de irlandeses nascidos na Austrália.

Na verdade, o nome “Filhos de Sieve” foi uma invenção de Peter Carey para o livro, porém há registros de um grupo chamado “Molly Maguires” na Irlanda, um grupo ativo durante a década de 1880 que atacou os proprietários e os seus bens durante a luta pela independência irlandesa da Grã-Bretanha.

E isso se mostra bem mais comum do que parece. Há uma longa lista de episódios envolvendo travestismo em levantes sociais por grande parte da Europa.

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