Vila Autódromo resiste à remoção

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Tratores olímpicos atacam novamente

Na última semana de fevereiro de 2016, a prefeitura do Rio de Janeiro desencadeou um novo ataque contra a Vila Autódromo, favela da Zona Oeste da cidade. Na investida dos tratores do velho Estado, a associação de moradores foi reduzida a escombros e outras três moradias estão com seus dias contados. Uma dessas casas pertence a Dona Maria da Penha Maceno, de 50 anos — liderança da luta contra a remoção da Vila, que resiste há mais de quinze anos ao assédio do Estado e da máfia do mercado imobiliário que domina a região.

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Moradores denunciam as provocações da prefeitura

No passado, foram inúmeros os argumentos usados pelas gerências de turno do município para remover a Vila Autódromo, entre eles, a acusação de que moradores “invadiram o terreno” há décadas atrás e, em seguida, a acusação de que “poluíam as lagoas da Barra da Tijuca”. Mais adiante, os jogos Pan-Americanos foram a senha para uma nova ação do Estado. Tentativa novamente fracassada de remoção. Na Copa, novos assédios sem sucesso dos agentes da prefeitura.

Dessa vez, a construção do Parque Olímpico foi o argumento para uma covarde ação do prefeito Eduardo Paes. A obra faraônica se prolongou por cinco anos e expulsou mais de 500 famílias do local, transformando essa antiquíssima colônia de pescadores e sua bela paisagem ribeirinha em um monte de entulhos e destroços, semelhante a um cenário de terra arrasada. Uma liminar que garantia a permanência das famílias que resistem foi derrubada pela prefeitura na tarde de 22/2 e, no dia seguinte, uma emissão de posse foi despachada pelo Ministério Público em favor do gerenciamento municipal, liberando as tropas do Estado para varrer quatro imóveis na Vila Autódromo.

Figura histórica na luta contra o despejo da Vila Autódromo, Dona Penha manteve-se firme até agora. Porém, com medo das ameaças dos agentes da prefeitura — que chegou a infiltrar um guarda municipal à paisana dentro de sua casa — ela decidiu deixar o local. Nas últimas noites, dezenas de ativistas fizeram uma vigília na casa dela em protesto à ação iminente dos agentes do Estado.

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Eu estou deixando a minha casa, mas não estou deixando esse local. Aqui, a luta continua. Mesmo perdendo minha moradia, eu vou continuar lutando para permanecer na comunidade. A sensação é de tristeza, sensação de quem sofreu um grande desrespeito, pois eu tinha o direito de permanecer na minha casa. Esse juiz disse que eu tenho que sair da minha casa e o que eu posso fazer além de acatar a decisão dele? Eu fico triste por um lado, mas, por outro lado, fico feliz por saber que estou saindo daqui de cabeça erguida, feliz pela certeza de que a luta continua e, como sempre fizemos, a gente sacode a poeira e dá a volta por cima — diz Dona Penha.

Infelizmente, a gente não espera nada dessa política, pois ela só trabalha para um lado da sociedade. Nosso país se diz democrático e capitalista, mas eu acho que ele é muito mais capitalista do que democrático. Por ser pobre, o cidadão não tem direito à cidade. Por conta de um megaevento, você é expulso da sua comunidade. Desde o início da história do nosso Rio de Janeiro que é assim. Essa cidade foi fundada a base de expulsões. Dos índios aos favelados, a situação é a mesma até hoje — desabafa revoltada.

Durante a madrugada pessoas se revezavam entre o preparo da alimentação dos ativistas que mantém-se em vigília em defesa das famílias da Vila Autódromo e auxiliam com a mudança de Dona Penha.

A Vila resiste.

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Moradores denunciam as provocações da prefeitura

Ontem foi a associação de moradores, e hoje, mais uma família está sendo desapropriada. Nosso sentimento é de impotência. Por um lado, eles chegam e demolem a associação de moradores, que representa há décadas essa população e é eleita pela própria população.  Por outro lado, o Estado que deveria nos proteger, através da defensoria, mesmo com todas as apelações, não conseguiu reverter o quadro. E aí? O que mais podemos fazer às margens da lei? Qual o interesse que prevalece? O interesse em cima dessa área é muito maior. É muito doloroso você ver, depois de mais de 30 anos aqui, uma guerreira como a Penha ter que deixar a casa dela porque eles já disseram que vão derrubá-la, como fizeram com centenas de moradias aqui — denuncia o morador Altair Guimarães.

Nesse mundo os pobres não têm direito a nada, porque os ricos precisam promover sua sujeira, sua imundice. O que restou de terras estão sendo dominadas pelas grandes construtoras e empreiteiras do Brasil — protesta.

No fechamento desta edição recebemos a informação de que, em 8 de março, Dia Internacional da Mulher Proiletária, a tropa da Guarda Municipal voltou a cercar o local e a casa da Dona Penha foi demolida.

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