Rap como ferramenta de mudança

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Trabalhando com a cultura hip hop, principalmente o rap, organizando rodas culturais, Ernesto Mike Charlie representa o movimento pela zona oeste do Rio, onde nasceu e foi criado. Com muitos projetos, Ernesto vê o hip hop como algo capaz de mudar a vida das pessoas, levando em consideração a sua própria vida e a de conhecidos.

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— Nasci aqui em Santíssimo, que fica entre Bangu e Campo Grande, e desde pequeno escrevia poesia, coisa natural para mim que via meu pai escrevendo poesia em papel de pão. Meu avô também escrevia, e minha avó, hoje com 93 anos, ainda escreve. Vira-e-mexe chego lá e ela tem um poeminha novo para me mostrar — conta Ernesto.

— Os assuntos que sempre foram aquilo que na hora. Geralmente o dia a dia, as coisas da zona rural, porque na época dos meus avós essa área de Bangu, Santa Cruz, Campo Grande era um ambiente bem rural ainda — continua.

— Na escola fazia paródias com músicas conhecidas, de brincadeira, e ia desenvolvendo a rima. Mas o que determinou minha vida nesse sentido foi a entrada do hip hop, que eu tinha um certo contato desde criança nas festas de rua de Santíssimo — diz.

A primeira fita de rap foi adquirida de uma maneira que marcou sua vida.

— Meus pais eram separados e fui fazer uma visita normal para o meu pai. Na verdade, ele estava bastante doente, mas eu achava que fosse viver, nem imaginava que seria a última vez que o veria — recorda.

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— Então me deu um dinheiro e com ele comprei duas fitas VHS: Gabriel Pensador e o primeiro álbum dos Racionais. Com essas fitas o hip hop entrou de vez na minha vida, e com o valor sentimental de ter sido o ultimo presente do meu pai — continua.

— Depois fui estudar em um colégio em Marechal Hermes e lá pude conhecer a rua mesmo. Os meninos  que hoje são famosos no rap, no esqueite, estudaram lá. Com o pessoal, eu comecei a frequentar a sinuca na Lapa, um local onde todo mundo do hip hop se encontrava — fala.

Ernesto diz que procura mostrar o rap como uma ferramenta de transformação.

— O diferencial do meu trabalho é ver o rap como foi na minha vida e de outros jovens que conheço: capaz de mudar vidas. Existem jovens que eram usuários de crack e com o rap encontraram família, viraram dançarinos, bailarinos — expõe.

— Infelizmente muita gente não tem o conceito de família, não viveu isso, não ensinaram isso pra pessoa, mas, é cobrado seriamente. E quando a pessoa se encontra com um grupo de rap, já se enturma com um pessoal que vai para a batalha — diz.

— Um MC conhece o outro, alguém já marca para ir em um ensaio, o outro faz um vídeo. Já tem outro que gosta de desenhar e o grafiteiro chama pra pintar juntos, e marca um dia para ir em um mutirão de grafite etc — continua.

Articulador cultural

— Sempre trabalhei em outra atividade durante o dia, para sobreviver. As vezes fico cansado com a jornada dupla, mas, me sinto recompensado por encarar o rap, todo o aprendizado que tenho, como uma faculdade — declara Ernesto.

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— Fiz faculdade de turismo, aprendi muita boa lá, cresci como pessoa, mas, não quis ser profissional de turismo. Na verdade, na época da faculdade eu estava sempre com o pessoal do rap, participava das batalhas e tinha minhas composições — continua.

Ernesto já participou de diversos movimentos da cultura hip hop na Zona Oeste.

— Nos últimos dois anos fiz a Roda Cultural, no Caixa de Surpresa, em Bangu, espaço importante para a cultura. As rodas têm esse nome porque na rua originalmente o pessoal ficava em rodinhas fazendo rimas — explica.

— É um encontro de pessoas, e procuramos entretê-las para ficar na roda. As vezes não tem formato de rodas, por ter um palco e tal. Mas em alguns lugares, como Padre Miguel, onde fazemos um evento perto da antiga quadra da Mocidade, é redondinha mesmo — diz.

Durante a roda, diz Ernesto que o DJ fica tocando preferencialmente rap nacional e rap consciente.

— Para mim, nossa juventude tem que ouvir coisas boas. Particularmente já escrevi muitos raps politizados, poesias de conselhos, ideias boas. Gosto de música com responsabilidade — fala.

— Sempre tentei dar um tema mais cultural nas rodas. Já tivemos palhaçaria, teatro etc. As vezes ao invés de colocar um DJ coloco outra banda, e quem toca violão e está ali perto já pega emprestado a guitarra para tocar. Outro que toca bateria participa também, tem essa interação — continua.

Ernesto procura diversificar também nas batalhas de Mcs, optando pelas ‘melhores palavras’.

— Elas lembram as batalhas dos repentistas nordestinos, é um contra o outro usando a música e a rima. As vezes surgem ofensas mesmo, fazem agressivamente, são chamadas batalhas de sangue. Só que isso já tinha demais e preferir partir para algo diferente — conta.

— Faço a batalha do conhecimento: o público vai escolhendo palavras, escrevemos em um quadro e os Mcs trabalham em cima disso, e sem ofensas. Também faço a batalha de sangue, mas procurando as melhores palavras, lembrando que tem crianças por perto — continua.

— E inventei a batalha do jornal. Estico os jornais em alguma parte do palco, chamo o pessoal para ler, comento uma manchete, etc, e o pessoal vai sublinhando as palavras que querem e colocando no quadro. Isso também é bom para incentivar a leitura do jornal — diz.

Além das rodas, no Caixa de Surpresa, Ernesto realizou o Zona Oeste em Cena, uma pesquisa sobre a Zona Oeste. Atualmente está envolvido na construção de um espaço de cultura, arte e sustentabilidade.

— Já está acontecendo e é aqui em Santíssimo. Estou recolhendo óleo de cozinha de toda a família para fazer sabão, fazendo um mudário, plantando alguns legumes. Também terá um salão para palestras, quero fazer parcerias com alguns cursos, enfim, diversas ações — fala.

— É a ocupação do meu terreno e se chamará Uclas — Usina de Cultura Arte e Sustentabilidade, e é claro que vou colocar o mundo do hip hop aqui também. Já temos uma galeria de arte, oito grafites de grandes artistas pelo quintal, e sem falar nas telas dentro de casa — conclui.

(21) 99228-0019 é o contato do artista.

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