Polícias chacinam nove pessoas em uma semana no Rio de Janeiro

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Na manhã de 4 de abril, cinco jovens foram mortos e duas mulheres ficaram feridas em uma operação conjunta das polícias Civil e Federal na favela de Acari, Zona Norte do Rio de Janeiro. Depois que o delegado da Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil (Core), Fabrício de Oliveira, foi a público dizer ao monopólio de imprensa que todos os mortos eram ligados ao tráfico e trocaram tiros com a polícia, a reportagem de AND e da Mídia Independente Coletiva (MIC), à convite de moradores, foram a Acari e ao Instituto Médico Legal (IML) conversar com testemunhas e familiares para saber o que de fato teria acontecido nessa trágica manhã de segunda-feira.

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Cena rotineira em favelas do RJ após operações policiais

Policiais chegaram em Acari às 6h da manhã para cumprir um mandado de prisão contra um homem de 51 anos identificado como ‘Lula’. Segundo relatos, os agentes entraram na favela a bordo do “caveirão” — como é conhecido o veículo blindado da Polícia Militar — atirando a esmo e baleando dois jovens. Um homem não identificado foi baleado no braço e o auxiliar de serviços gerais do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, Sérgio Eduardo Fernandes, de 26 anos, que saía de casa para trabalhar, foi atingido com um tiro no peito na frente da esposa.

Em seguida, três testemunhas do crime foram rendidas por policiais da Core e colocadas sentadas no chão ao lado dos feridos. De acordo com relatos, após uma sessão de torturas, os cinco homens foram executados a sangue frio. Além de Sérgio e o homem não identificado, foram mortos Anderson Cardoso de Lima, de 25 anos, Luiz Henrique Silva, de 31 anos, e José Carlos da Silva, de 20 anos. Esse último, teria conseguido fugir e se abrigar em uma casa na Rua Piracambú, onde foi encontrado por policiais e executado na presença das pessoas que moram no imóvel. Revoltados, moradores protestaram no local e foram ameaçados por policiais.

Momentos depois, dois veículos blindados bloquearam completamente a visão dos moradores da cena do crime. Das lajes, testemunhas viram policiais retirando as blusas das vítimas — evidência de tiros a queima roupa —, forjando armas na cena do crime, recolhendo cápsulas e lavando a calçada com baldes de água. Nossa equipe esteve também no IML, onde familiares das vítimas confirmaram que os corpos chegaram no local sem blusa. Ao menos duas delas apresentavam perfurações causadas por projétil de arma de fogo na parte de trás da cabeça, outra evidência de execução sumária.

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Um dos jovens assassinados

Eu não vi o que aconteceu, pois fiquei com medo que [os policiais] me vissem e viessem atrás de mim. Mas eu ouvi tudo. Os meninos já estavam rendidos. Um deles estava baleado. Começaram a jogar água fria no rapaz para ele morrer mais rápido. Eu só ouvia os gritos dos meninos desesperados pedindo pela vida. ‘Não me mata não, senhor’, eles gritavam — disse uma testemunha que preferiu não se identificar.

No IML, familiares se queixaram da demora na liberação dos corpos. Até a chegada de nossa equipe, o reconhecimento dos cadáveres estava sendo feito apenas por fotos, diferente do procedimento padrão. Alguns familiares estavam há 10 horas esperando a liberação dos corpos de seus entes. Além disso, as famílias das vítimas disseram que, até aquele momento, não haviam sido procuradas por nenhum representante do Estado ou do monopólio de imprensa.


Três mortos na favela do Jacarezinho

Três pessoas morreram baleadas pela polícia, na manhã do dia 7 de abril, em uma operação conjunta da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) e da Coordenadoria de Recursos Especiais da Polícia Civil, no Jacarezinho, Zona Norte do Rio. Na operação, o jovem Wellington da Silva, de 19 anos, morreu com um tiro pelas costas. No local, parentes se queixavam da demora no socorro à vítima. O corpo do rapaz ficou por oito horas estirado no chão.

Era cedo. Ele estava saindo para trabalhar e, quando viu a polícia, ele tentou voltar correndo para casa. Mas os policiais atiraram nele pelas costas. Olha só o pobre do menino. Ele tinha três filhos e era um menino bom. Quem disser que ele era bandido está faltando com a verdade. Eu o vi nascer e crescer e nunca soube de algo que ele tenha feito de errado. Ele está aqui desse jeito há oito horas sem que ninguém venha recolher o corpo — disse um familiar de Wellington.

A ação começou às 6h da manhã, quando trabalhadores saiam de casa para trabalhar. Por conta do tiroteio, 1.200 crianças ficaram sem aula e a estação de trem do Jacarezinho foi fechada pela Supervia. Depois que a Defesa Civil removeu o corpo de Wellington, um novo confronto começou. Nossa equipe estava no local na companhia do Coletivo Papo Reto, que denuncia violações de direitos na favela.


Trabalhador é assassinado por PMs na janela de casa

Na manhã de 4 de abril, o trabalhador João Batista Soares de Souza, de 29 anos, foi baleado e morto por PMs durante uma operação, na Praça da Igreja São Daniel, na favela de Manguinhos, Zona Norte do Rio de Janeiro. João foi baleado por policiais a bordo do “caveirão”.

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Os policiais deixaram o local sem prestar socorro à vítima, que foi atingida na frente da mulher e dos três filhos. João estava na janela quando foi atingido pelo disparo de fuzil e seu sangue ficou espalhado por todo o local do crime. Familiares, moradores e lideranças comunitárias que estavam na casa de João após seu assassinato conversaram com nossa equipe, falaram de seus sentimentos e contaram como tudo aconteceu.

Ele chegou do serviço, trocou de roupa e foi pegar a cadeira da nossa filha para colocá-la na janela. Foi quando eu escutei um disparo. Quando eu olhei para trás ele estava debruçado na janela sangrando com o corpo para fora. Os moradores correram para me ajudar, porque os policiais não fizeram nada. O ‘caveirão’ estava aqui na porta da nossa casa. Eu gritei, xinguei, mas nenhum deles saiu do blindado para me ajudar — diz a esposa de João.

Nós vivíamos juntos, trocávamos conselhos. Nos ajudávamos nas dificuldades financeiras, éramos muito amigos. Ele fazia meu pãozinho, ele era tudo. Agora eu não tenho mais meu filho. Meu encarregado veio comigo até aqui, eu achei que ele fosse me mandar embora, mas, na verdade, ele veio trazer essa notícia horrível. Não sei porque as pessoas chamam isso de pacificação, pois nada foi pacificado. Nossa vida virou um inferno e nossos filhos estão morrendo todos os dias — lamenta a mãe de João.

Nossa reportagem foi ao local acompanhada da ativista Fátima Pinho, de 42 anos, que, em outubro de 2013, também teve seu filho assassinado por policiais militares em Manguinhos. Na ocasião, o jovem Paulo Roberto Pinho, de 18 anos, foi levado por PMs para um beco escuro onde foi torturado até a morte. Assim como outras mães de vítimas da violência policial em Manguinhos, Fátima passou a se organizar para lutar por justiça para os assassinos de seu filho.

Nossa, quando eu soube da notícia, que eu cheguei aqui, veio à tona na minha mente tudo o que aconteceu com o meu filho. Que tristeza! Para eles, todo mundo que mora na favela é bandido. Infelizmente, a política do Estado para a favela é o extermínio. A gente tenta dar uma palavra de conforto para a família, mas sabemos que nada vai trazer o filho dela de volta. O que a gente tenta é motivar a pessoa para ela entrar na luta, brigar por justiça, para que nossos jovens parem de ser mortos — diz Fátima.

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