Placas não contam a História

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Miguel de Souza Filho, herói da Segunda Guerra Mundial, em foto encontrada no
Museu da Borracha, Rio Branco, 1986

Rotina de muitos trabalhadores: meter-se num transporte coletivo e se deixar levar pelos caminhos da cidade em direção ao batente. É a paisagem de sempre, que normalmente passa rápido pelas janelas. Prédios, praças, outros veículos, mensagens publicitárias, monumentos, nomes de ruas... Nada parece impressionar os passageiros, nem mesmo a multidão de outros proletários lá fora.

Mas quando a autoridade dos que vivem por suas próprias mãos faz um confronto de juízos a paisagem se enche de detalhes. Então, premissas diversas lhes enlevam o raciocínio, de tal forma diferente dos que vivem do trabalho alheio, que uma enxurrada de deduções fulmina a velha lógica unilateral e a apodrecida ordem das coisas. Seu olhar torna-se mais observador, aguçado.

Diante das placas das esquinas e das imagens petrificadas de honrarias, por exemplo, o processo cognitivo do homem prático permite indagar: Que importância, afinal, teve aquele a quem transformaram em personalidade? Por que o homenageiam e não a outro? Por que jamais são íntimos do povo, tanto mais os donos do país nos recomendam cultuar sua memória?

O critério oficial para promover alguém como um “herói nacional” quase sempre invoca a condição da linhagem nobre, ter alta patente eclesiástica, militar, ser chefe político (e que diabo vem a ser “político”?). Raras vezes, um inventor, um cientista (alguns, difícil de pronunciar seus nomes), mas é o que tem: Rua Senador Fulano, Rua Visconde de-não-sei-das-quantas, Avenida Presidente, Praça Desembargador, Viaduto Santa, Vila Marechal, Bairro Doutor, Escola Meu Parente, datas proclamatórias.

Claro, são tantos os heróis verdadeiros (os do povo) que não haveria placas nem monumentos suficientes para lhes fazer justiça.

Em um país de heróis

No Acre, não haveria de ser diferente. Criado pelo capital monopolista do final do século XIX, o Acre surge predestinado a ser uma reserva estratégica do imperialismo, a não produzir riqueza para si; ser um espaço monitorado desde o estrangeiro. É parte da ocultação sistemática da história recente do Brasil, versão oficial dos negócios externos, relato quase que episódico do extrativismo gumífero, do conluio entre o capital financeiro e o aviamento, da exportação de castanhas (impropriamente chamada “do Pará”, que é seu porto escoador) e da madeira, das pastagens e da queimada, da especulação e da burocracia.

É o paraíso das ONGs, da hipocrisia ambiental, doutrina que coloca o povo (sua maior e mais criativa riqueza) no quadro de fatalismos. O Acre é parte do Programa Piloto do Grupo dos 7 (PPG-7), com zoneamento a cargo do banco alemão KFW.

Quanto às explicações científicas sobre sua história, toleram-se certas passagens da literatura oficial, fragmentos nas formas de dissertações ou teses acadêmicas, algum livro didático (uma edição foi censurada), ensaios. Nem assim conseguem rebaixar o orgulho que o acreano nutre pelo seu Estado, por sua bandeira belíssima e o hino vibrante.

... “tinto com sangue de heróis”

Tescon, um índio kaxinawá, seringalista, até cair numa emboscada em que sucumbiu em 1910, costumava invadir o lado peruano e libertar dos caucheiros espanhóis todos os que vivessem como escravos. De referência não mereceu mais que dez linhas na historiografia oficial.

Luis Gálvez Arias, — que desvendou o acordo entre The Bolivian Syndicate of New York, corporação colonial-militar, com o Estado boliviano para administrar o Acre — dotado de vasta cultura, talento militar e administrativo, recebe a pecha de aventureiro na historiografia oficialista. O “aventureiro”, após um rápido e bem sucedido ataque à sede administrativa boliviana de Puerto Alonso (hoje, Porto Acre), proclamou a independência do Acre. Foi deposto e a república extinta por Campos Sales, em atendimento aos protestos da Bolívia. Gálvez, doente, foi despachado para fora do Brasil e desapareceu a caminho da Espanha, seu país. Republicano convicto, na última década de 70 tornou-se personagem de um conto rápido, best seller que o lançou na condição debochada de Imperador do Acre. Hoje é nome de um mercado municipal, de um hotel e uma boite em Rio Branco.

Plácido de Castro organizou e dirigiu um exército de seringueiros na guerra de anexação. Da mesma forma proclamou a República Independente do Acre, sendo trucidado em 9 de agosto de 1908 a mando da administração local por sicários cuja identidade é mantida em sigilo até hoje. O Brasil, por ter vencido a guerra, pagou indenização ao Bolivian Syndicate e ao “governo boliviano”.

Há um monumento erguido na praça principal de Rio Branco — a capital que leva o nome do ministro da República, apesar de barão (!), que negociou o tratado de paz e respectivas indenizações —, Praça Plácido de Castro, espaço dividido em dois lados, sendo o outro chamado de Rodrigues Alves. Há mais um monumento, no Capatará. O comandante também empresta seu nome a um município, a algumas escolas e ao melhor teatro do estado.

Recentemente, o novo aeroporto internacional escapou de receber o nome de Chico Mendes (ficou sendo Plácido de Castro), sorte que não teve a Via AC–1, estrada que leva à capital, agora Via Chico.

Reforçando o marketing do ecologismo, bem ao agrado do World Bank, a administração estadual ergueu uma estátua na frente da antiga sede do governo e da Assembléia Legislativa, sinal distintivo que recorda o triste e novelesco assassinato do agente ambientalista. Quem vai dizer que nada fizeram pela vítima?

Distante algumas quadras, à direita do Palácio, uma outra praça exibe Tamandaré. A relação do almirante com o Acre é tão distante quanto a presença do mar (que realmente existiu ali) no tempo paleontológico. Essa minúscula área pública em que confinaram o almirante, o povo a denominou de Costa Oca, devido a que o dorso do busto esculpido em bronze é reto e, afinal, tão oco quanto a homenagem prestada.

Se nos detivermos num desses acreanos que contribuíram para a vitória sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra, vale lembrar, não existe uma única referência, nem mesmo, àquele que chamava Miguel, nascido no município de Sena Madureira.

Na zona Oeste do Rio

A um bairro construído nos anos 60, de forma humilhante, deram o nome de Vila Kennedy. Explica-se: ela foi idealizada por Carlos Lacerda — então governador da Guanabara, elemento abertamente fascista e pró-ianque — para receber a massa de moradores expulsa (pelo próprio Lacerda) de favelas da cidade.

A construção do bairro contou com o apoio da famigerada Aliança para o Progresso, programa criado na administração John Kennedy (USA, 1960-1963) destinado a financiar projetos antinacionais e contra-revolucionários na América Latina. Ao nome do gangster juntou-se a ridícula réplica da estátua da liberdade dos magnatas ianques, fincada numa praça da Vila.

Súbito, em 1982, um conjunto habitacional nas proximidades da Vila ganha o nome de Conjunto Sargento Miguel Filho, exatamente o herói nacional nascido no Acre, caído em combate na Segunda Guerra Mundial. A partir de 1987, mais 33 heróis, esses assassinados durante o gerenciamento militar (1964-1985), foram homenageados, e as ruas ali ostentam placas que lembram Jane Vanine (estudante que se exilou no Chile, onde foi executada em 1974), Hélio Luiz Navarro (“desaparecido” no Araguaia, também em 1974) etc.

O nome oficial do Conjunto Sargento Miguel Filho permanece, apesar do apelido —Malvinas —, relacionando-o à violência armada que oprime a população do bairro com o episódio da agressão do imperialismo inglês às ilhas argentinas na década de 80.

Enquanto grandes contingentes de nordestinos, embrenhados na solidão da selva se ocupavam em extrair borracha destinada ao arsenal de guerra, Miguel de Souza Filho — que nasceu em 1921 no, então, território do Acre — se incorporava no 11º Regimento de Infantaria, em Minas Gerais. Em 22 de setembro de 1944, a bordo do navio Gen. M.C. Meigs, deixou o porto do Rio de Janeiro em direção à Itália, onde já se encontrava o 1º Escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Miguel, o único acreano entre os pracinhas, chegou em Nápoles na manhã do dia 6 de outubro, depois, transportado para o porto de Livorno, onde desembarcou no dia 12 de outubro. No mesmo dia, sua tropa foi enviada para o local denominado Staging Drea, a oeste de Pisa (Vila Passore). Ali, o grupamento Gen. Falconieri foi dissolvido e os praças integraram o grupamento comandado pelo General Cordeiro.

No dia 27, o grupamento passou a fazer parte do V Exército Norte-americano, desde sua chegada a Livorno, ficando sob controle do IV Corpo.

Em 3 de novembro foi extinto o grupamento General Cordeiro e o 11º. RI passou a fazer parte da IDE/1, comandada pelo General de Brigada Euclides Zenóbio da Costa. No dia 20, Miguel e seus camaradas se deslocaram para o povoado de Filettole, e a 30, para a Região de Lustrolo.

Morreu em ação no dia 12 de dezembro, em Monte Castelo. Foi agraciado com as medalhas de campanha Sangue do Brasil e Cruz de Combate de 2ª Classe. No decreto a que se refere a última condecoração, lê-se: “Por uma ação de feito excepcional na campanha da Itália”. Em 12 de fevereiro de 1945, o 3º. Sargento, nº 5038, Regimento de Infantaria da 4ª. Cia. recebeu elogios do Exército “pelo desassombro e perfeita noção do cumprimento do dever (...), até o momento em que tombou morto (...)” na área de C. Viteline.

Profundas controvérsias

A tentativa de tomada de Monte Castelo, no fatídico dia 12 de dezembro, representou o ataque mais frustrado da FEB na Segunda Guerra devido à reação fulminante dos alemães. Taticamente, eles desfrutavam de uma posição privilegiada. O tempo ruim dificultava o auxílio de aviões e os pracinhas não tinham recebido treinamento suficiente para missões daquela natureza. Joel Silveira, correspondente de guerra, retornou ao Monte Castelo, vinte anos depois, traçando o seguinte comentário a respeito daquela ação suicida:

Naquele malogrado ataque a Monte Castelo do dia 12 de dezembro, os homens da 4ª Companhia do 2º Batalhão do Regimento Sampaio não conseguiram chegar além deste pedaço de chão que pisamos agora (...). A artilharia e as metralhadoras alemãs surpreenderam os pracinhas quando Abetaia já parecia definitivamente conquistada. Foi um fogo arrasador. (...) Muitos brasileiros caíram mortos (...). Nos dias seguintes, os padioleiros tentaram retirar os seus cadáveres, mas o inimigo não deixou — e os ‘pracinhas’ mortos lá ficaram até o dia 21 de fevereiro, quando a Companhia do tenente Kleber Gomes Ferreira, do 2º Regimento, fez remover os corpos enregelados para o cemitério de Pistóia
(Silveira, Joel. Histórias de pracinha — oito meses com a Força Expedicionária Brasileira. Edições de Ouro, Coleção Brasileira de Ouro, 1967, p. 321).

Militares na campanha acusaram, anos depois, a insensatez daquele episódio em que os brasileiros serviram de buchas de canhão para que o exército ianque poupasse seus soldados.

O marechal Mascarenhas de Moraes, que comandou uma das divisões do Corpo Expedicionário, escreve em suas memórias:

A exceção do 6º RI (Regimento de Infantaria) (...) os dois outros regimentos — 1º e 11º RI (justamente o do Sargento Miguel de Souza Filho) — não haviam passado pelo período normal de treinamento (...). Mas as altas autoridades aliadas, de Washington, e o próprio general Eisenhower, na França, determinavam que, apesar dos efetivos, do clima e do terreno, as operações ofensivas prosseguissem a fim de aferrar o maior número possível de unidades alemãs na Itália
(Moraes, Mal. Mascarenhas de. Memórias. Livraria José Olympio/Biblioteca do Exército, Vol.1, Coleção Documentos Brasileiros, Rio de Janeiro, 1969, p. 222).

Mais contundente nas críticas, outro marechal denunciou em seu livro a subserviência dos comandantes brasileiros, subordinados ao IV Corpo do V Exército do USA:

A minha sensibilidade de latino nunca se conformou com aquela subalternidade chocante (...). Só mais tarde foi possível compreender a altiva atitude dos sul-africanos e neozelandeses, que nunca aceitaram tutela indiscriminada dos chefes americanos. Sabiam impor suas exigências sob a ameaça de abandonar o campo de luta e voltar a seus países
(Brayner, Mal. Floriano de Lima. A verdade sobre a FEB — memórias de um chefe de Estado-Maior na Campanha da Itália. Civilização Brasileira, Col. Documentos da História Contemporânea, Vol. 45, Rio de Janeiro, 1968, p. 2).

Adiante ele descreve:

Justamente os menos aparelhados (refere-se aos brasileiros), menos aclimatados e menos experientes eram os que recebiam o encargo de combate (...). E tudo isso porque nada ponderávamos, nada reclamávamos, nada negávamos
(Idem, p.235).

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