Toda a graça da perversidade

A- A A+

No bojo da censura blindada do ecologismo e do ambientalismo, cujos autores não passam de figurinistas das grifes imperialistas, surge uma impressionante divulgação de "curiosidades" pseudodidáticas e mesmo pseudocientíficas — tanto mais quando nega a disposição humana de elevar as formas de existência e preservação e de, enfim, viver em paz com os da sua espécie e os demais bichos.

A literatura progressista, há muito, testemunha as agressões inimagináveis contra os animais de pequeno ou grande porte, os de consumo, de companhia, os de laboratório, os domésticos e silvestres. Inúmeras obras e relatos testemunham práticas de gente cujos pulsos conservam-se a salvo das algemas, exceto os dos homens pobres que, mais premidos pela necessidade de sobrevivência ou pela ignorância, são arrastados para o ambiente do extermínio das espécies.

Ainda no século XIX, portanto muito antes da histeria "ecologeira", a ciência demonstrou que o homem, ao se assenhorear da natureza, não conseguia ainda prever com exatidão as consequências das transformações que lhe impunha — ou simplesmente não se importava. No primeiro caso, por insuficiente conhecimento científico dos processos envolvidos e no segundo, determinado pelo estado de desenvolvimento das forças produtivas, particularmente das relações de produção.

Escrevia Fiedrich Engels em 1876:

(...) Daí a razão por que os capitalistas, cada um por seu lado, produzem e trocam apenas visando o lucro imediato e, assim sendo, só podem colocar em primeiro lugar os resultados mais próximos e diretos. Quando um industrial ou comerciante vende a mercadoria produzida ou comprada por ele e obtém o lucro habitual, dá-se por satisfeito e não lhe interessa de maneira alguma o que possa ocorrer depois com essa mercadoria e o seu comprador. O mesmo se verifica com as consequências naturais dessas ações. Quando, em Cuba, os plantadores espanhóis queimavam os bosques nas encostas das montanhas para obter com a cinza um adubo que só lhes permitia fertilizar uma geração de cafeeiros de alto rendimento, pouco lhes importava que as chuvas torrenciais dos trópicos varressem a camada vegetal do solo, privada da proteção das árvores, e deixassem atrás de si apenas rochas desnudas. Face à Natureza e à Sociedade, o modo atual de produção leva em conta somente o êxito mais palpável e inicial. No entanto, muita gente se surpreende ainda pelo fato de que as consequências remotas das atividades assim orientadas sejam diferentes e quase sempre contrárias ao objetivo visado...
Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem

A destreza do money

No USA, por exemplo, principalmente, no início do século XX, grupos de aventureiros sem a menor tradição circense investiam nesse ramo seu farto capital, submetendo quantos animais dispusessem às mais terríveis condições de existência, em função dos espetáculos, melhor dizendo, dos seus negócios.

Leões, tigres, ursos, todos passavam por uma "fase preparatória" em que tinham suas unhas arrancadas, ou suas testas queimadas para que se sentissem atemorizados no grande círculo de grades. O suficiente para valorizar o espetáculo e a coragem de quem os conduzia.

Depois de longas viagens, em meio à sede e à fome, sob frio ou calor intenso, os animais de maior porte, domésticos ou feras, eram transportados em espaços que mal comportavam seus corpos.

Quase nada mudou nos circos marinhos e de picadeiros. Seus ciclos biológicos continuam desrespeitados com intuito de dar uma dimensão muito maior do que pode comportar a sua capacidade física. Manter a qualidade do espetáculo significa obedecer a uma série de movimentos padronizados, trabalhar várias vezes ao dia sob intenso barulho — uma cruel rotina inibidora cuja ordem não pode ser alterada em função da segurança do domador, rotina que acelera o esgotamento e a uma existência breve dos bichos.

A era do tráfico

As facilidades deste tipo de negócio tornam abundante a oferta e procura das espécies. O tráfico de animais prospera, se torna tão rendoso quanto o de droga, e até menos problemático. O traficante de animais, quando flagrado, é apenas multado e sua mercadoria apreendida, não sofrendo as penalidades imputadas ao seu colega do ramo das drogas ilícitas.

O tráfico de animais silvestres é o terceiro maior comércio ilegal do mundo, perdendo apenas para o de drogas e armas. Por ano, o comércio ilegal de animais movimenta cerca de US$ 10 bilhões, sendo o território de nosso país responsável por 10% deste mercado.

Há legislação severa sobre a fauna. Mas, severa para quem? Enquanto um camponês pode ser preso, e muitas vezes o é, por matar uma paca e aplacar a fome de sua família, mais de 12 milhões de animais são retirados a cada ano do país, ou vendidos livremente em feiras e lojas dos grandes centros.

Além de contar com pessoas que buscam exemplares raros para suas coleções ou outros menos raros espalhados pelos pet shops do mundo, o negócio é animado pelos monopólios transnacionais interessados na continuidade do tráfico, onde figura, por exemplo, o setor farmacêutico. O mercado mundial de hipertensivos movimenta anualmente cerca de US$ 500 milhões, e o princípio ativo desses medicamentos é retirado de algumas serpentes brasileiras, como a Jararaca (Bothrops jararaca). A cotação internacional desses venenos ofídicos é altíssima: um grama de veneno de Jararaca vale US$ 433,70 e o da Cascavel (Crotalus durissus terrificus) US$ 301,40.

Recentemente, cientistas descobriram em sapos da Amazônia uma substância 27 vezes mais potente que a morfina, algo que pode mudar todas as formas de tratamento com anestésicos no mundo. E o Brasil nada ganhará com isso, exceto o fato de acrescentar outro animal na sua lista de espécies ameaçadas de extinção.

Para o mercado ilegal, apreender não significa extinguir esse tipo de comércio, mas regulá-lo, o que resulta em favorecer a organização maior do tráfico e multiplicar seus recursos. Pouco importa que um grande número desses animais, da captura ao transporte, seja acometido por esgotamento, sofra mutilações ou que parte considerável de uma carga se perca inteiramente. Prejuízos terão os pequenos do tráfico, porque o controle sobre as operações dos traficantes menores faz diminuir concorrências e no decorrer do processo, operações sofisticadas tornarão a transação mercantil um negócio mais restrito e os "custos" legalmente repassados.

Roubo: amor antigo

No Brasil, em menos de 500 anos o latifúndio conseguiu destruir cerca de 94% da cobertura original de Mata Atlântica (Veja, Ed. Especial Amazônia, 1997), o ecossistema com a maior biodiversidade do planeta. Ainda assim, o latifúndio continua avançando em sua rota de destruição, dizimando espécies, devastando imensas áreas do cerrado e da Amazônia para dar lugar ao extrativismo ou monoculturas com vistas à exportação. Cada bicho vale o que pagam os criadores e colecionadores: pelas lindas plumagens, cantos melodiosos ou outros atrativos.

As espécies mais raras obtêm melhor preço, portanto, são as maiores vítimas de captura, mutilação e eliminação, aumentando seu risco de extinção. É o que acontece com a arara azul que custa até US$ 60 mil nas regiões de maior demanda: na Europa e no norte da América.

Porém, podem as corporações proteger as espécies?

O tráfico de animais prospera e segue a lógica implacável do mercado. Como no caso do tráfico de drogas, os principais territórios fornecedores são os países coloniais e semicoloniais, enquanto a demanda se concentra nas metrópoles. Sustentar que as metrópoles pretendem reduzir o roubo da fauna e da flora significa enganar ou ser enganado, uma vez que a única solução continua sendo a de acelerar o processo de independência desses países. Melhor que remediar, buscando alternativas econômicas para as "comunidades carentes" que capturam animais como meio de sobrevivência, é buscar a emancipação dessas classes que não são exatamente carentes, mas oprimidas.

E aos conselhos das grandes corporações que, para protegê-las, formulam medidas drásticas, é indispensável responder que as crises ecológicas, tais como as econômicas e políticas, são a crise do imperialismo.

A criação de animais em cativeiro, negócio altamente rendoso, longe de atenuar o tráfico — é um instrumento seu. O valor nunca é obtido pelo acesso que se tem a uma mercadoria abundante ou rara. O trabalho de quem captura o animal, o do pequeno traficante, dos fiscais portadores de visão inoperante, dos burocratas que intervêm na tramitação de documentos, dos que comandam as estações de embarque e desembarque etc, com toda as especializações e pagamentos e o mais que se transforma em artifício do tráfico — ainda que longe da produção fabril, mas perfeitamente integrado no sistema de circulação do capital — vai se constituir numa extensão das relações do monopólio na fase imperialista.

Ao preço da mercadoria também se agrega o trabalho dos profissionais frustrados por nada capturarem, dos espécimes ou carcaças apreendidas etc., etc. A questão não reside na raridade em si, mas no modo como se detém o monopólio da espécie transformada em mercadoria, na divisão social do trabalho, nas relações do lucro máximo.

A razão é a mesma

A reprodução de pássaros ornamentais e canoros já é uma realidade, inclusive a partir de espécies que logicamente foram arrancadas de seu habitat de forma reconhecidamente ilegal. Um curió pode ter custo igual ao de um automóvel zero quilômetro, muitas vezes sendo vendido no ovo.

Não é a escassez natural que faz aumentar os preços no mercado, já que ele próprio nada mais é que o reino absoluto dos grandes monopólios. Quem não pode dispor das espécies são os outros, a exemplo dos cultivares de maior consumo que as grandes corporações simplesmente fizeram extinguir nos países onde eram encontrados em abundância. Elas os reproduzem em laboratórios com alterações planejadas, como os transgênicos, em que, do plantio à armazenagem, há imensos custos para o agricultor e o pequeno comerciante, uma vez que às desleais condições impostas para a aquisição do cultivar se incorporam obrigatoriamente outros produtos, sob o controle das mesmas corporações.

Traficantes proíbem o tráfico?

Como fazer demagogia não atrapalha os negócios e ainda ajuda a elevar o preço, após grande gritaria chegou-se à brilhante solução de tentar regular o comércio internacional. Desde que o primeiro povo foi subjugado, que a primeira colônia foi estabelecida, se iniciou a pilhagem. No Brasil, as primeiras caravelas retornaram à Europa carregadas de Pau-Brasil e logo surgiram leis que regulassem o seu tráfico.

O "comércio" de escravos africanos era também legal e o roubo do nióbio, do ouro, do manganês, do minério de ferro permanecem todos legais — dependendo de quem os rouba. Ou seja, legitimando parte do tráfico e tornando criminosa a outra, ambas são excelentes negócios.

Leis "drásticas" que dizem defender o "direito dos animais" e da flora proíbem atividades predatórias menores para liberar as maiores. Ainda assim apelam para um ineditismo de denúncias que em absoluto não existe e com a finalidade de ocultar que a renda provém do trabalho e que o tráfico, hoje, tem origem no semifeudalismo e no semicolonialismo sustentado.

Há muito, o véu do "patrimônio da humanidade", do ambientalismo etc., foi descerrado, tal como o sistema que tudo transforma num único monopólio privado dos meios de produção. A tendência natural do suposto "controle internacional das espécies", do "comércio racional" é tornar-se letra morta ou pior, puro jurisdicionismo. Não se materializam propostas coletivas, porque esse tipo de atuação jamais se vincula organicamente com o interesse das nações, mas com a engrenagem do capital financeiro mundial que não admite soberania nacional.

Acordos, tratados, protocolos, toda a inutilidade documental tem uma única finalidade: a de socorrer o monopólio, aquele que legal ou ilegalmente pouco importa, regula preços. E os preços são a expressão do valor em dinheiro, como ensina a economia política. Os preços refletem, antes de tudo, o valor do trabalho, dissimulado quando mais complexas se tornam as operações financeiras e as mercadorias deixam de se comparar diretamente.

A sorte dos silvestres não está separada do destino da espécie humana, caso não se livre do sistema que oprime toda a humanidade.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja