Voltaremos para as nossas terras — dizem os bravos camponeses


Patrocínio (MG)
– As setenta famílias organizadas na Liga dos Camponeses Pobres do Centro Oeste (LCP-CO), que tomaram a Fazenda Salitre em 8 de novembro de 2003 foram expulsas da área da fazenda pela polícia militar, que cercou o acampamento dos camponeses e impediu que alimentos, remédios e apoiadores do movimento chegassem até o local.

Após 30 horas de pressões e ameaças por parte da força policial, no dia 12 de março os camponeses decidiram deixar a área para evitar que ocorresse um massacre nos moldes dos já perpetrados por polícia e jagunços em muitos anos de luta pela terra e em vários locais do país.

Os camponeses denunciaram ainda que mesmo depois da retirada de suas famílias, a polícia continuou cercando, ameaçando e difamando o acampamento. Segundo a LCP, "alguns bravos democratas de Patrocínio tem dado todo apoio, mas foi preciso muito esforço para que fizessem chegar os alimentos e remédios ao acampamento."

A ação da polícia inclui ainda multas e apreensão de veículos de simpatizantes e membros do movimento.

No entanto, as ameaças feitas pela polícia a serviço do latifúndio não intimidaram a massa dos trabalhadores da terra que escolheu aquele chão abandonado para ser seu. O comitê de apoio da LCP informou que mesmo decidindo se retirar do latifúndio os camponeses acamparam em uma área próxima, e prometem resistir até ter a posse da terra.

A região do triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, que é onde fica Patrocínio é caracterizada por alta concentração de terras, apesar de ser uma área bastante industrializada (ver AND nº 16). Os grandes latifúndios são conhecidos por exploração de trabalho escravo e por figuras lendárias dos tempos do coronelismo, como Honorato Borges, morto há tempos, sogro de Alaor Ribeiro de Paiva, que se diz proprietário do latifúndio onde os camponeses estavam acampados até o dia 12 de março.

A Fazenda Salitre é improdutiva, está abandonada há vários anos e é fruto de grilagem, fazendo parte de uma longa cadeia dominial sem documentos de origem, alem de ter expulsado vários posseiros de terrenos vizinhos. Nem com todas as manobras possíveis os advogados do latifundiário Alaor Ribeiro de Paiva, que se diz o dono das terras, conseguiram comprovar a sua propriedade.

Impossibilitado de usar o argumento da propriedade contra os camponeses, restou ao juiz Cássio Salomé, da Vara Agrária de Belo Horizonte determinar que os camponeses deviam sair do latifúndio porque aquele seria uma área de proteção ambiental. Segundo panfleto da LCP-CO, posteriormente o mesmo juiz teria afirmado em conversas informais que agiu assim atendendo a um pedido do governador Aécio Neves, que vem empreendendo uma grande campanha de repressão aos movimentos de camponeses pobres, assim como não mostrou interesse na apuração do assassinato dos fiscais do trabalho que foram assassinados em Unaí quando investigavam denúncias de trabalho escravo naquela região. Tudo isto demonstra cada vez mais a cumplicidade das administrações com o latifúndio.

 

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