Filme retrata movimento que ocupou as escolas em São Paulo

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O cineasta Carlos Pronzato começou sua carreira na indústria cinematográfica argentina e no cinema independente mexicano dos anos 80, antes de se instalar no Brasil, na Bahia, no final da década de 90. Lá, se dedicou e ainda se dedica ao teatro e à literatura. Depois de um longo período percorrendo e vivendo por toda a América Latina, exercendo mil outros ofícios, incorporou episódios, culturas e povos que posteriormente o levaram a percorrer os mesmos trajetos, dessa vez, com uma câmera na mão, um pouco mais de disciplina e consciência dos problemas de nosso povo. Hoje, Pronzato é uma figura importante para o cinema político latino-americano e já produziu dezenas de documentários em vários países do continente.

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Carlos Pronzato é um cineasta que tem seu trabalho voltado às lutas populares

Em seu último filme, Pronzato foi a São Paulo conversar com estudantes, educadores e outros personagens envolvidos no movimento que ocupou cerca de 200 escolas em todo o estado exigindo educação pública gratuita e de qualidade. Acabou a paz: Isso aqui vai virar o Chile — Escolas ocupadas em São Paulo já está disponível na internet e foi exibido em praças, cinemas e universidades por todo o país. AND conversou com o cineasta para saber, entre outras coisas, como foi o processo de rodagem do documentário. Confira como foi o papo:

AND: O que você viu de especial na luta dos estudantes de SP que o motivou a fazer esse filme?

Pronzato: Em primeiro lugar, toda luta estudantil tem especificidades próprias, e como venho acompanhando esse tipo de levante desde 2003, quando gravei o documentário Revolta do Buzu — gíria baiana para “ônibus” —, em Salvador, me senti na obrigação de acompanhar o desenrolar do levante estudantil de São Paulo. Até porque, dez anos depois daquele episódio histórico contra o aumento das passagens em Salvador, aconteceu em todo o país as Jornadas de Junho em 2013, registradas no meu outro documentário A partir de agora, as Jornadas de Junho, momento histórico que resgatou as grandes manifestações de massa. Mas, se houve um elemento bem especial e que me tocou profissional e emocionalmente durante este processo, foi o fato de saber que, antes das ocupações, os estudantes assistiam o documentário que fiz em 2006 no Chile, A Rebelião dos Pinguins, estudantes secundaristas contra o sistema, como uma efetiva ferramenta de conhecimento de estratégias dos estudantes chilenos para serem aplicadas nos seus objetivos de ocupar as escolas em São Paulo.

AND: Alguma coisa o surpreendeu ao visitar as escolas ocupadas para rodar o filme?

Pronzato: Bem, eu cheguei já com o processo em estado avançado, as manifestações de rua já tinham sido reprimidas e os estudantes já tinham passado por aquele ápice, quando havia mais de 200 escolas ocupadas. Contamos com muitos arquivos cedidos por cinegrafistas como o Caio Castor, se bem que o filme montado a partir de entrevistas. Trabalhamos fundamentalmente em duas escolas, as duas primeiras a serem ocupadas no interior e na capital: as escola estaduais Diadema e Fernão Dias Paes. Também fui em outras escolas a partir de contatos de militantes, onde encontrei estudantes preparadíssimos e que ofereceram ótimos depoimentos. Me chamaram muito a atenção as similaridades das ocupações estudantis com outras ocupações de camponeses e de sem-teto, na organização interna, na disciplina, no tempo político dedicado às assembleias e, fundamentalmente, na quantidade de atividades de formação, lúdicas, políticas, sociais, com o apoio de ativistas e até de professores companheiros, algo raro no período letivo normal.

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Capa do documentário sobre as ocupações em São Paulo

AND: O que você acha da expansão das ocupações para o movimento pela educação no Rio de Janeiro?

Pronzato: Achei fantástico porque tenho muita aproximação com professores do Rio que desenvolvem atividades importantíssimas nas suas próprias escolas — inclusive usando nossos filmes — muito além do terreno ermo dos programas oficiais, subvertendo muitas vezes essa lógica imposta por esses programas voltados à formação de peças submissas da engrenagem capitalista. Eu sabia que a qualquer momento a faísca paulista iria incendiar o Rio porque o terreno já estava bem semeado por professores de luta aliados a um movimento secundarista combativo e organizado. É uma expansão que já está dando frutos, já que o Rio é o centro do país e isso significa uma visibilidade fundamental para o tema da educação, tema mais importante de qualquer sociedade. As reivindicações das lutas em São Paulo e no Rio são similares e a repressão, tanto política quanto policial, é a mesma. Em São Paulo, os alunos sofreram duros golpes e alguns chegaram a se ferir nos episódios de violência policial.

AND: Porque você acha que o cinema independente deve interagir com esses movimentos?

Pronzato: Esses movimentos espontâneos, ao meu juízo, são tão ou mais organizados que muitos grupos políticos de projeção com pouca ou nenhuma discussão política com as bases. Sem a atuação desses movimentos, sem estudo, trabalho organizativo, utilização das redes reais e virtuais, espontaneidade na hora da ação direta, sem isso, pouco ou nada teria acontecido de produtivo politicamente nos últimos anos no Brasil e no mundo. O cinema independente deve interagir com esses movimentos porque essa é a sua sustância, seu sentido, seu território de ação. Falo de um cinema que, na linguagem popular, não deve nada a ninguém, muito menos aos patrocinadores que nem tem. Está apenas voltado para registrar e principalmente analisar e interpretar tomando partido por uma causa, muito além de uma objetividade inexistente. É um cinema que atua junto daqueles que se rebelam. Interagir com essa rebelião é fundamental, porque não é apenas dar voz aos oprimidos como costuma-se dizer, muito além disso é o diálogo estabelecido com os movimentos dentro e fora dos filmes de forma participativa. Como dizia um grande cineasta militante argentino, Raymundo Gleizer, assassinado pela ditadura argentina em 1976, “o importante não é o cinema revolucionário, o importante é a Revolução!”.

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