Extermínio de moradores de rua em São Paulo

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Já passa de 100 o número de moradores de rua encontrados mortos na capital paulista desde março deste ano. Em meio ao problema gravíssimo, a causa de boa parte dessas mortes inevitavelmente choca a todos e chama a atenção para o desfile da imoralidade por parte do prefeito da cidade, Fernando Haddad (PT).

Louvado entre os setores oportunistas de “esquerda” por banalidades como sua aparência ou por benfeitorias para “inglês ver”, o ex-ministro da Educação por quase sete anos durante o gerenciamento petista de Lula e Dilma, entre 2005 e 2012, operando ações que culminaram no recente desmanche da educação pública da “Pátria Educadora”, sob a sombra de um hipotético viés popular, retrucou as denúncias referentes às recentes ações da Guarda Civil Metropolitana paulista, como as denúncias referentes às apreensões de colchões, cobertores e agasalhos dos moradores de rua em pleno período em que a cidade quebrou o recorde de baixas temperaturas em 22 anos, com a alegação de estar “impedindo a refavelização das praças”, coisa que, também segundo Haddad, “infelizmente acontecia na gestão anterior da prefeitura”.

Em depoimento ao AND, a ativista Andreza Delgado, do Movimento Passe Livre-SP e escritora do site Capitolina, contou que, ainda em 2012, na gestão de Gilberto Kassab (PFL/DEM/PSD), anterior a de Haddad, as ações higienistas em São Paulo começaram a ocorrer com muita frequência, como consequência da especulação imobiliária, quando até mesmo se falou no impedimento dos moradores de rua se alimentarem por meio da distribuição de sopas. Ela relata que, agora, “militâncias” favoráveis ao atual prefeito chegam ao ponto de culpabilizar os moradores por supostamente não permanecerem nos poucos abrigos existentes, locais onde, segundo Andreza, os próprios moradores de rua, o CATSO (Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais) e a Pastoral do Povo de Rua, ocorrem humilhações, falta autonomia aos alojados, planejamento social etc. “Menosprezam a situação dessas pessoas, dizem que quem os apoia e critica a prefeitura faz o ‘jogo da direita’, chegam a ignorar a falta das condições mais básicas nos pouquíssimos abrigos, escondem as mortes”, destaca a ativista.

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Andreza também contou que Haddad tentou fechar por inúmeras vezes um espaço de organização onde o CATSO havia realizado uma ocupação juntamente aos moradores de rua e mais de 200 pessoas haviam se abrigado e rebateu os argumentos favoráveis ao programa da prefeitura chamado “Braços Abertos” que, em tese, seria em favorecimento das pessoas em situação de rua: “De braços abertos mesmo não tem nada, já que trata a questão da vulnerabilidade dos moradores de rua com as drogas, por exemplo, como questão de segurança pública e não saúde pública, é claramente higienista”. Ela destacou a importância do enfrentamento às políticas de Fernando Haddad e frisou ser urgente a necessidade de desmistificar figuras que se apresentam como “jovens” e “progressistas” e acabam conquistando pessoas apenas com seus discursos, apesar das práticas serem completamente opostas, e apontou: “Quando, em 2013, Haddad assumiu a prefeitura, apenas deu prosseguimento à gentrificação da cidade iniciada por Kassab. A impressão que tenho é que ele, com sua face, ora elegante e chique, ora higienista, tenta criar uma pequena Europa no Centro de São Paulo”.

Desmascarando a hipocrisia

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Protesto em defesa dos moradores de rua em São Paulo

Enquanto tenta se manter na base da farsa e das aparências, oferecendo cargos a figuras famosas de grupos identitários e outras apelações, no ano passado, numa pesquisa encomendada pela própria prefeitura, o déficit habitacional se mostrou evidente com os números que apontavam que, apenas durante a atual gestão, a população de rua havia crescido incríveis 10%. No entanto, os dados foram completamente ignorados pela prefeitura que tentava se mostrar diferente dos até então aliados políticos que começavam a conspirar numa briga entre as duas faces da grande burguesia. Por capricho do destino, a secretária de Assistência e Desenvolvimento Social de Haddad, que fez desfeita da situação alarmante na cidade, onde quatro pessoas entram em situação de rua por dia, era, e é até hoje, sem maiores problemas, Luciana Temer, filha do atual gerente do velho Estado, Michel Temer (PMDB). A mesma declarou na oportunidade: “Não aumentou muito, as pessoas veem diferença porque antes os moradores de rua se escondiam, agora aparecem porque não buscamos um processo de higienização”. De fato, o que vemos são declarações, como as lembradas pelo Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais em depoimento ao AND, proferidas por Haddad: “Ele disse que a população de rua privatiza o espaço público, ou seja, o povo de rua privatiza e as empresas como o Itaú devolvem os espaços para a população”. O Banco Itaú foi a principal empresa a financiar a campanha de Haddad e instala regularmente barracas em praças públicas pela cidade.

Por sua vez, o Instituto Médico Legal (IML) da cidade agora adota uma curiosa posição, semelhante a do monopólio de imprensa, de tentar desviar o foco da real causa das mortes dos moradores de rua que tiveram seus pertences tomados e associar as mortes às doenças portadas pelas mesmas, “esquecendo” que as causas mais comuns de mortes como a pneumonia são agravadas e levam ao óbito em decorrência de tal exposição, como denunciou o CATSO: “Dizem ser o frio que mata quem dorme nas ruas da cidade, mas o frio é só a ponta do iceberg”.

Resistência

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Protesto em defesa dos moradores de rua em São Paulo

Engana-se quem pensa que a situação absolutamente vexatória que é imposta aos moradores de rua pela prefeitura de Haddad os desanima. No dia 16 de junho, com cruzes em memória a seus companheiros e cartazes exigindo moradia, eles foram da Praça da Sé até a prefeitura junto ao CATSO e à Pastoral do Povo de Rua. Os manifestantes chamaram a atenção também para os misteriosos “incêndios acidentais” que vêm ocorrendo com cada vez mais frequência na capital, bem como em outras cidades da Região Metropolitana de São Paulo, em especial nas favelas.

O CATSO resumiu a situação e fez uma convocatória:“Assim prossegue a marcha fúnebre e o sangue derramado pela prefeitura de São Paulo em parceria com a especulação imobiliária que prevê uma cidade para quem possa pagar por ela. Mas, do outro lado, haverá resistência. E você que lê isto, de que lado ficará nesta verdadeira guerra pela cidade?”.

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