Jack London: um operário das letras

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O escritor estadunidense Jack London faria 140 anos em janeiro, se não tivesse morrido aos 40 anos, em 1916. Onde já se viu, alguém viver 140 anos?, diriam. Ocorre que a vida de Jack London foi tão movimentada em 40 anos que nem os mais aventureiros de nossos contemporâneos podem imaginar, muitos dos quais não farão o mesmo, ainda que vivam por 140 anos.

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O tumulto em sua vida começou mesmo antes do seu nascimento, quando sua mãe, Flora Wellman, tentou o suicídio após o astrólogo Willian Chaney tentar obrigá-la a abortar e diante da negativa, se negar a assumir a paternidade.

Jack na verdade nasceu John Grifith Chaney em 12 de janeiro de 1876 e foi deixado com Virgínia Prentiss, uma ex-escrava que seria a referência de sempre para ele. No fim de 1876, Flora casou-se com John London, um veterano da Guerra de Secessão, e levou o pequeno John para viver com eles. Mais tarde o menino seria conhecido como Jack e adotaria o sobrenome London.

Aos 9, leu seu primeiro livro, o que segundo ele definiria seu caminho pelas letras. Aos 10 conheceria uma bibliotecária que o conduziu pelo caminho do aprendizado literário. A partir daí mergulhou nos livros com avidez. Porém, aos 13 anos precisou trabalhar em uma fábrica de enlatados por 12 a 18 horas diárias. A fome de ler o consumia, mas chegava em casa exausto demais para ler.

Tempestades e brigas

Meses depois, pegou dinheiro emprestado com Virgínia, comprou um barco e se tornou pirata de ostras na baía de São Francisco, Califórnia. Sua passagem precoce para a vida adulta veio acompanhada da bebida, do pugilismo e da delinquência, mas ele tinha tempo de ler. Em seguida, Jack foi recrutado pela Patrulha Pesqueira.

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A partir daí, os acontecimentos se desenrolaram numa sequência frenética:

— Em 1893, embarca como marinheiro em uma escuna para a costa do Japão.

— Na volta, enfrenta trabalhos extenuantes numa fábrica de juta e uma usina de energia para bondes.

— Se junta a uma marcha de trabalhadores desempregados.

— Inicia vida de andarilho e viajante clandestino em trens e fica 30 dias preso por “vadiagem”, em Buffalo, estado de Nova Iorque, do outro lado do país.

— De volta à Califórnia, voltou à escola e publicou seu primeiro conto antes dos 20 anos, “Tufão nas costas do Japão”, recebendo então 25 dólares como pagamento.

— Se lançou aos estudos até ser aceito na Universidade de Berkeley, mas só conseguiu cursar um ano porque lhe faltaram recursos. London nunca se graduou em uma universidade.

—  Com 21 anos, partiu para o Klondike, no Alasca, participando da Corrida do Ouro. Como a maioria dos aventureiros, só encontrou doença e morte em seu caminho, coisa que London, com sua genialidade, transformou em literatura, o que viria a torná-lo famoso. Seu livro “O chamado selvagem”, um dos maiores clássicos da literatura estadunidense, é ambientado no longínquo norte e foi publicado em 1903.

Jack London voltou do Alasca como um ativista do socialismo e passou a frequentar círculos políticos e de polemistas.

Lançou-se à produção literária como uma maneira de fugir da pobreza. Era disciplinado e tinha metas diárias de escrever mil palavras por dia, só realizando outras atividades quando atingisse o objetivo. Isso fez dele um dos mais prolíficos escritores de seu tempo e, se de sua pena saíram coisas medíocres pela obrigação de escrever, não chegaram a empanar seu brilhantismo em outras obras monumentais.

Casou-se duas vezes. Com Bessie Maddern, com quem teve duas filhas, casou-se em 1901 e divorciou-se em 1904, em meio a desconfianças dela e um absoluto desencontro de estilos de vida. Mas foi em Charmian Kitteredge, a partir de 1905, que encontrou sua grande parceira e companheira de aventuras. Juntos, construíram um barco e navegaram pelo Oceano Pacífico Sul, compraram um “rancho” (fazenda) e empreenderam como produtores rurais, no que fracassaram, apesar de Jack London ter estudado com afinco o que havia de mais avançado em técnicas agrícolas.

Biógrafos apontam ainda que familiares de Charmian e outros rondavam como urubus a fortuna de Jack, muitas vezes conseguindo beliscar uma grana fácil. Mas talvez o grande golpe mesmo tenha sido o incêndio (criminoso?) na “casa do lobo”, grande construção de mais de mil metros quadrados que London fazia em seu rancho.

Na literatura como na vida

O maior biógrafo de Jack London talvez tenha sido ele próprio. Em grande parte de seus escritos são encontradas passagens de sua vida e mesmo livros como Martin Eden são inteiramente autobiográficos.

Suas viagens ao Havaí e ao Pacífico Sul são retratados em livros como O Lobo do Mar, A travessia do Snark, Ilhas do Pacífico.

Sua passagem pelo Alasca, além de O chamado Selvagem, rendeu Caninos brancos, Na terra dos lobos, As vozes da floresta.

Sua convivência tempestuosa desde a adolescência com o álcool é retratada no pungente John Barleycorn.

Sobre seu período de andarilho, escreveu os contos contidos no livro De vagões e vagabundos. Em 1902, viajou a Londres, se disfarçou de mendigo e viveu por meses como um morador de rua no East End londrino, setor mais miserável da cidade. Ali, viveu a miséria e o desespero, a repressão e a exploração mais vil. Dessa experiência nasceu O povo do abismo— livro analisado em artigo da edição nº 67 de AND.

Jack London foi um estudioso voraz do que de mais avançado a ciência produzia. Seu livro Antes de Adão, embora hoje pareça muito atrasado, na época refletia uma certa compreensão da Teoria da Evolução que apontava para avanços.

A obra literário-política mais relevante de Jack London é O tacão de ferro, livro no qual arrisca, em 1907, uma sequência de como se desenvolveria a luta de classes no USA nas décadas e séculos posteriores. E em muitas coisas ele acertou.

Jack London faleceu em novembro de 1916 e, como quase tudo em sua vida, sua morte também foi controversa. Fala-se em suicídio, mas sabe-se que sofria de dor intensa por uremia e possivelmente teria tomado acidentalmente uma dose fatal de morfina.

Sua crença na humanidade pode ser interpretada como ingenuidade por alguns, bem como sua atuação política é heterodoxa em se tratando do socialismo científico, mas convém lembrar que falamos do USA do início do século 20, e por lá o movimento operário e revolucionário lidava e ainda lida com imensas dificuldades e confusões.

A paixão do socialismo

Trecho de artigo de mesmo nome publicado em 1905

“Então, voltei à classe operária, na qual havia nascido e à qual pertencia. Não me preocupava mais em subir. O imponente edifício da sociedade não guarda delícias para mim acima da minha cabeça. São os alicerces do edifício que me interessam. Lá, eu estou contente de trabalhar, de ferramenta na mão, ombro a ombro com intelectuais, idealistas e operários com consciência de classe, reunindo uma força sólida agora para mais uma vez pôr o edifício inteiro a balançar. Algum dia, quando tivemos poucas mãos e alavancas a mais para trabalhar, vamos derrubá-lo, com toda sua vida em putrefação e sua morte insepulta, seu egoísmo monstruoso e seu materialismo estúpido. Então vamos limpar os porões e construir uma nova moradia para a espécie humana, onde não haverá andar de luxo, na qual todos os quartos serão claros e arejados, e onde o ar para respirar será limpo, nobre e vivo. Esta é a minha perspectiva. Vejo à frente um tempo em que o homem deverá progredir em direção a alguma coisa mais valiosa e mais elevada que seu estômago, quando haverá maiores estímulos para levar os homens à ação que o incentivo de hoje, que é o incentivo do estômago. Conservo minha crença na nobreza e excelência da Humanidade. Acredito que a doçura e o despojamento espiritual vão superar a gula grosseira dos dias de hoje. E, no fim de tudo, minha fé está na classe trabalhadora”.

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