Chacina no Morro do Chapadão (RJ): “Eles pagaram a Olimpíada com o sangue dos nossos filhos”

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Em novembro do ano passado, cinco jovens voltavam de uma festa no Parque Madureira — coração do subúrbio carioca — quando foram atacados por policiais do 41º BPM. Os cinco rapazes morreram e a perícia constatou que foram feitos nada menos que 111 disparos contra o veículo que os transportava. Ali pertinho, no Morro do Chapadão, policiais do mesmo batalhão invadiram um baile funk no dia 18 de junho atirando para todos os lados. Segundo relatos, seis pessoas foram mortas e ao menos 30 ficaram feridas. A reportagem de AND esteve no local e conversou com moradores sobre o caso, que não teve absolutamente nenhuma repercussão nas manchetes do monopólio dos meios de comunicação.

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— Era um dia normal de baile. Eu tinha acabado de acordar e, quando abri a porta, vi meninas correndo baleadas pedindo socorro, também vi um mototaxista baleado e um morador tentando ajudar, mas a polícia não deixava ninguém ajudar. Tinha tanta gente baleada, que você fica se perguntando: “Cadê esse povo?” — questiona uma moradora.

— As pessoas têm medo de falar. Minha vizinha disse que ouviu o policial falar: “Se alguém aqui procurar hospital, nós vamos caçar e matar”. Quando eu vi um outro vizinho meu, fiquei apavorada, pois ele estava todo ensanguentado. Mas não era sangue dele, era sangue das pessoas que ele ajudou a socorrer. Eu fiquei apavorada, porque meu sobrinho estava no baile. Eu corri lá para cima e vi uma cena de horror. Tudo quebrado, sangue para todos os lados, o bar todo furado de bala, os isopores das pessoas que estavam trabalhando quebrados, um horror — disse uma testemunha que preferiu não se identificar.

No local, nossa reportagem conversou também com um grupo de mães de jovens mortos pela polícia nos últimos dois anos. Muitas delas se emocionaram ao relatar o assassinato de seus filhos, e outras mostraram-se dispostas a lutar até as últimas consequências por conquistar a punição para os assassinos. Por questões de segurança, nenhuma das mães será identificada nos relatos a seguir.

— Eles atiraram no meu filho e não deram a ele a oportunidade de ser socorrido. Não tem um mês isso. Ele ficou agonizando e os familiares tentando ajudar, mas os policiais não deixaram a gente socorrer — diz uma mãe.

— Só de lembrar daquele policial dizendo que meu filho, “aquele desgraçado”, já estava morto, meu coração chega a doer. Meu filho estava vivo no hospital e não deixaram eu entrar e me despedir dele. E eu morro de medo de ir à delegacia. Porque é isso que a gente tem que fazer quando a gente perde um filho dessa forma. Mas eu tenho medo. Eles [os policiais] disseram para mim que se eu for, eu não vou sair de lá viva — conta outra mãe aos prantos.

— Nessa foto aqui, ele era guardião de piscina — diz outra mãe mostrando a camisa com a imagem de seu filho — mas interromperam a vida dele simplesmente porque ele era negro e favelado, pois basta isso para você ser um inimigo desse Estado assassino — protesta.

— Isso acontece quando vem o 41º Batalhão da PM. A gente sabe que esses policiais só entram aqui para matar. Só quando eles não encontram algo que interesse, eles entram nas casas acabando com tudo. Eles sobem aqui drogados. Quem tem dinheiro, usa o pouco que tem para sair da comunidade sem saber que hora vai poder voltar, porque o Chapadão vira um inferno. ‘As mulheres são prostitutas’, ‘os jovens são vagabundos’, ‘todo mundo acoita a bandidagem’, para eles nós somos todos criminosos — conta uma moradora.

— A favela vai crescendo e vai sendo dominada pelo ódio, porque a gente não vê justiça. O Complexo do Chapadão está esquecido. Nós não temos aqui nenhum assistente social, projetos sociais, boas escolas, nada. Como vamos exigir dos jovens que não entrem para o crime? — pergunta uma das mães.

— Depois que eu perdi o meu filho, eu não tenho mais medo. Se eles quiserem eles vão me matar, mas eu não vou deixar de lutar por justiça, não vou deixar de lutar por uma comunidade melhor — garantiu outra mãe.

— Nós mães de vítimas da violência temos que nos apoiar umas nas outras. É importante a gente se reunir, como estamos fazendo aqui agora. Porque nossos filhos se foram, mas têm muitos outros aí que com a nossa militância nós podemos salvar. Eu não conheci a Ana Paula — mãe do jovem Jonathan, assassinado pela PM em Manguinhos em 2014 — em um baile funk, em um barzinho, nos conhecemos nos apoiando na dor. Eles pagaram essas olimpíadas com o sangue dos nossos filhos, com o nosso dinheiro. E agora vão vir as pessoas de fora para receber a medalha de sangue dos nossos filhos. Eu tenho mais três crianças e eu vou lutar pelo direito delas de ir e vir. Eu quero ter neto, quero ser avó, quero que meus netos cresçam, tenham o direito de trabalhar. Porque somos nós que pagamos o salário desses policiais corruptos safados. A gente paga a gasolina da viatura e as balas que matam os nossos filhos, tudo sai do nosso bolso — conclui uma mãe.


Morro do Borel: PMs da UPP executam jovem 

No dia 29 de junho, o AND divulgou imagens exclusivas que mostravam o que podem ter sido os últimos momentos de vida do jovem Jhonata Dalber Mattos Alves, de 16 anos. Segundo os relatos de testemunhas, o rapaz transportava sacos de pipoca que seriam distribuídos na festa do irmão no Morro do Borel, quando foi alvejado com ao menos dois tiros disparados por policiais da “Unidade de Polícia Pacificadora” (UPP). Nas imagens, Jhonata é carregado por PMs e colocado dentro de uma viatura diante do protesto dos moradores.

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Após o assassinato, a população em revolta tomou a Rua São Miguel e as outras vias que margeiam a favela, usou ônibus como escudos, ergueu barricadas e enfrentou a polícia. Enquanto acontecia o protesto, moradores enviavam relatos desesperados via internet denunciando a ação criminosa da polícia.

— Gente, a minha casa está tomada por gás lacrimogêneo, nós não conseguimos respirar aqui. Os policiais estão agredindo todo mundo na rua. Por favor, não saiam de casa — enviou uma moradora, via Whatsapp.

Policiais disseram na delegacia que o rapaz teria disparado contra a guarnição e, por isso, teria sido baleado. No entanto, os primeiros resultados da perícia e o depoimento de testemunhas, dentre elas o avô do menino, apontam para uma versão completamente diferente dos fatos.

— É triste você criar um filho, criar um neto e de uma hora para outra acabar na mão de qualquer polícia. Porque ele não mandou o meu neto parar, em vez de dar um tiro? Não tinha confronto. Não houve confronto nenhum. Mentira deles. A única coisa que o meu neto foi fazer no morro era ir na casa da tia pegar uns saquinhos de pipoca porque era festa do irmão dele mais novo no colégio e minha filha estava esperando para encher os saquinhos para a festa de hoje no colégio do menor. Não teve confronto no morro. Meu neto foi assassinado. — diz o avô de Jhonata, Antonio Trigo Alves, 67 anos.

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