Sobre a economia política do Brexit e outras questões (Parte I)

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Iniciamos a seguir a publicação da profunda análise produzida pela Associação de Nova Democracia (Hamburgo, Alemanha) sobre o Brexit. O que há por trás da saída da Grã-Bretanha da União Europeia, suas implicações para a disputa entre as potências e superpotências e, o que é o principal, suas implicações para a luta entre revolução e contrarrevolução, para os povos oprimidos na luta contra o imperialismo e para o proletariado dos próprios países imperialistas.

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Refugiados: produto da guerra imperialista que rega a situação revolucionária

Todas as contradições se acumulam. A contradição principal, isto é, a existente entre os países oprimidos, por um lado, e as superpotências e potências imperialistas [por outro], é cada vez mais aguda e se expressa em guerras contrarrevolucionárias de agressão imperialista contra os povos do Terceiro Mundo, por um lado, e em guerras de libertação nacional: guerras populares que abrem e selam o caminho e lutas armadas diversas que necessitam da direção do proletariado através de seu Partido, pelo lado do movimento de libertação nacional.

A agudização da contradição interimperialista se expressa na guerra de agressão imperialista pela nova repartilha, encabeçada pela superpotência hegemônica única, o imperialismo ianque (o cachorro gordo), onde os países do Terceiro Mundo são o butim a repartir, que se dá mediante redobrada pugna e conluio entre a superpotência ianque e a superpotência atômica Rússia (o cachorro magro); assim como entre estas, cada uma por sua parte, com cada uma e todas as demais potências imperialistas.

Como exemplo, citamos a disputa entre a superpotência atômica Rússia e a potência social-imperialista China no mesmo Oriente Médio e no resto da Ásia, pelo controle dos países oprimidos nessa região e seus recursos naturais. Outro exemplo, que trataremos também, é a disputa entre a superpotência imperialista ianque e a potência imperialista germânica relacionada com o Brexit.

A agudização da contradição proletariado-burguesia nos países imperialistas se expressa em guerra reacionária contra o proletariado e o povo e na crescente resistência das massas que clamam pela direção proletária, numa situação em que a guerra imperialista de agressão está regressando às metrópoles imperialistas.

Em relação com o Brexit, como fizemos em nossa nota com respeito ao fracassado “golpe de estado” contra Erdogan na Turquia [Nota do tradutor: ver adaptado e publicado em AND nº 174], não podemos deixar de mencionar o desenvolvimento da contradição entre a superpotência imperialista ianque e o imperialismo alemão; para não repetir, nos referimos a parte correspondente de nossa nota mencionada, e só queremos agregá-la os seguintes exemplos para que se tenha uma ideia mais próxima de como ocorre esta pugna:

Os imperialistas ianques questionam, por exemplo, a política econômica que segue o governo alemão na União Europeia e a nível mundial contra a atual crise mundial em marcha (ou estagnação secular como eles chamam), dizem que o maior problema no mundo industrial (países imperialistas) agora está pelo lado da demanda, antes do que pelo lado da produção. Desta forma, estão afirmando que na base desta crise está a superprodução de mercadorias. Assim, preconizam que agora são mais importantes as medidas para incrementar a demanda incrementando o gasto como as reformas regulatórias e dos impostos, ao invés de  medidas que promovam a flexibilidade laboral e o arrocho fiscal, em clara alusão à política seguida pela Alemanha na UE e que repercute contra todos eles. E contra a vantagem obtida pela Alemanha para suas exportações no mercado único e no mundo com a moeda única (Euro) e barateamento com respeito ao dólar e outras moedas de reserva. Têm dito [os ianques] que isso incrementa o perigo da competição monetária fácil e, em todo caso, [o perigo] de uma guerra monetária.

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A Alemanha tem dito que este é um jogo de soma-zero, porque isso implica o movimento de divisas da demanda de alguns países até outros, antes de seu incremento global. Em oposição, a expansão fiscal, também afirmaram, incrementa a demanda em base global.

Eles demandam a necessidade da coordenação internacional para isto no marco de seus fóruns econômicos (conluio), relatam que os acordos do G20 do ano anterior fracassaram neste aspecto pelo papel da Alemanha e esperam chegar a um acordo de “expansão fiscal” das principais economias imperialistas na próxima cúpula do G20 em setembro (China).

Por sua parte, o Ministro de Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, “criticou indiretamente as últimas manobras da OTAN no Leste da Europa e exigiu mais diálogo e cooperação com Rússia. Ele advertiu que ‘brandir os sabres e os berros de guerra só faz aquecer mais a situação’” (Spigel Online, 23 de junho de 2016). Esta crítica foi prévia à cúpula da OTAN de 8 a 19 de julho de 2016 em Varsóvia, onde nos discursos oficiais se falou dos valores comuns e de manter a unidade da Aliança, enquanto a Alemanha, tal como tem feito saber seu Ministro Steinmeier, se orienta cada vez mais fora desses valores tradicionais e por alianças baseadas em interesses em redes e coalizões alternantes (segundo lhes convenha). Isto quer dizer que quanto às suas relações com o imperialismo ianque e o imperialismo russo, vão atuar a cada vez, segundo convenha.

Logo, vamos à contradição interimperialista que se desenvolve mediante conluio e pugna entre Alemanha e Grã-Bretanha. Ambas potências imperialistas querem romper o status quo quanto às relações ou tratamento que recebe Grã-Bretanha como parte da União Europeia, e por sua parte, esta [Grã-Bretanha] planteia que se acorde uma cláusula de seguridade de que vão ser respeitados seus interesses atuais caso se avance a um maior aprofundamento da União Europeia.

Grã-Bretanha quer obter seguridades de que seus interesses não vão ser afetados no futuro; principalmente de que a City de Londres, o principal centro financeiro mundial, não vai ser afetado pelas maiores regulações em marcha como a chamada união bancária, e mais bem que se amplie a união dos serviços financeiros e não financeiros. Alemanha e seus principais “sócios”, entre eles França, querem aprofundar a União Europeia, o que implica que os imperialistas ingleses se submetam a todas as normativas (em forma gradual) europeias.

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Agressão imperialista contra as massas no Oriente Médio

Pois, ambos [Alemanha e Grã-Bretanha] planteiam que as coisas não podem seguir assim. Na reunião de fevereiro dos governos da UE, na qual Cameron (o Premier britânico) esperava conseguir aceitação aos seus reclames, agitando a ameaça do “Referendo sobre o Brexit”, não alcançou mais do que promessas cosméticas que não podiam satisfazer em nada a oligarquia financeira de seu país imperialista. Com isto a determinação da saída da Grã-Bretanha e os resultados do “Referendo” estavam cantados. E Alemanha e seus “sócios” os despacharam com um não pronunciado “ou aceitam e se comprometem com os acordos da União ou saiam”.

A prova de que “o Referendo” só foi o circo eleitoral, como todos os demais, para formalizar o já decidido, é que todos os principais grandes meios da informação da grande burguesia britânica estiveram pela saída da UE; no anterior “Referendo” de 1975 para formalizar o ingresso na então Comunidade Econômica Europeia (em 1973), que “ganhou” o sim, todos os grandes meios da informação estiveram pelo sim, a exceção do pequeno pasquim de um PC revisionista.

A União Europeia, como definiu o Presidente Gonzalo, é uma aliança imperialista para disputar a hegemonia mundial. Nesta aliança a luta pela hegemonia entre Alemanha e França se deu até os anos 90 do século passado. Grã-Bretanha jogou como uma dobradiça entre ambas, como a terceira em disputa. Com a [re]unificação alemã no final dos anos 80, as que se opuseram, em princípio França e Grã-Bretanha, sucedeu o que estes temiam: se incrementou o poderio da Alemanha [re]unificada e dentro da União foi diminuindo o peso político da Grã-Bretanha.

Com a implosão da União Soviética revisionista, sua zona de influência do leste da Europa (conformada por suas semicolônias e colônias) passou a nova repartilha. Estes países dependem agora principalmente da Alemanha e do imperialismo ianque em franca disputa, seguidos da Holanda e Áustria; os imperialistas franceses e ingleses vão logo atrás, estando também a presença dos interesses imperialistas japoneses, russos e chineses.

Alemanha deveniu-se assim na potência hegemônica dentro desta aliança imperialista que é a UE, e os imperialistas ingleses não podiam seguir nesta condição na UE, salvo a condição de afundar mais e mais rapidamente, daí o grito chauvinista na propaganda do Brexit de “Liberdade para Inglaterra”.

O que se passou na aliança imperialista da UE é que houve o deslocamento de forças do imperialismo inglês pelo imperialismo alemão, que atuam em conjunto com seus “sócios” menores, os imperialistas austríacos. A Alemanha, não só deveniu-se como potência hegemônica na UE em torno dos anos 2000, mas com a crise de 2008 seu poder veio a ser maior a nível mundial, como reflexo de sua política exterior e da debilidade do imperialismo inglês ser muito mais profunda. O que está em disputa é o papel da “City”, do poder financeiro inglês, não somente na UE, mas no mundo.

Portanto, o “Referendo” não é o assunto definidor e no fim das contas não define, não tem poder de definir, senão que tem sido um instrumento político que tem planteado o imperialismo inglês como arma de pressão ou chantagem entre eles para conseguir suas exigências de romper o status quo a seu favor, mas tem fracassado; porque a Alemanha é mais poderosa e não cedeu à chantagem, e agora lhes dizem bom caso, se vão, está bem, mas tem que negociar em uma situação política mais desvantajosa.

Então os imperialistas ingleses perderam esta partida, portanto, o custo que têm que pagar é maior e os outros imperialistas também saem golpeados, porque seus “aliados” na UE e suas semicolônias ali sobem suas exigências, se afundam suas pugnas. Veja só, tiveram que eximir as multas da Espanha, etc. por não sujeitar-se à “disciplina fiscal”. E estão vendo como podem ajudar a dar saltos a garrocha nas normativas bancárias da UE, quase recém em marcha, aos grandes bancos italianos em quebra técnica. E na UE há também desde 1990 países do Terceiro Mundo, isto é, os imperialistas têm também suas semicolônias nesta União. Em definitivo, maior perigo de dissolução por repercussão da decisão britânica e custo maiores.

Esses são os interesses econômicos e políticos fundamentais e o principal do desenvolvimento da contradição imperialista em relação ao Brexit. Nós sabemos que concordante com estes interesses econômicos imperialistas, existe uma política imperialista ou burguesa para lutar por impor seus interesses que é chauvinista. Isto é, chauvinismo para fazer primar seus próprios interesses imperialistas contra as outras potências imperialistas e para impô-los sobre os países oprimidos, por isso, nisto não pode haver diferença substancial entre ambos os lados. Todos os imperialistas são chauvinistas e atuam sempre chauvinistamente em qualquer relação, tanto de aliança ou conluio como pugna e ruptura entre eles.

Na Grã-Bretanha, tanto os que queriam ficar como os que queriam sair, têm seguido todos os “interesses nacionais” principalmente, os de sua grande burguesia. Outra coisa é que a nível das massas, alguns políticos burgueses com seus partidários oportunistas e revisionistas e também social-fascistas, para defender a saída ou o Brexit, têm esgrimido publicamente uma posição chauvinista e, por outro lado, outros políticos burgueses defendendo também seus interesses “nacionais” imperialistas têm advogado pela permanência como uma posição “democrática” e de “paz” para a vida comum na Europa.

E quem tem agitado entre as massas a possibilidade da “democracia” e a “paz” sob o imperialismo não são mais que vulgares oportunistas pequeno-burgueses e gente da aristocracia operária que praticam a política de Kautsky com respeito ao imperialismo e que, como ele, terminarão também no “social-chauvinismo”. Isto é, os seguidores da política burguesa no âmbito do povo e dos operários têm a mesma natureza, praticam a política de sua burguesia a este nível. E isto mesmo vale para toda a Europa onde também, alguns querem dividir o movimento das massas através desta linha divisória da política burguesa dentro dos operários e do povo.

Para nós, a linha divisória entre estes e nós é a da revolução e contrarrevolução. Entre os que seguem a linha proletária dentro dos operários e do povo e os que, dentro destes, representam a política de sua burguesia e se apresentam como oportunistas, revisionistas, reformistas, social-chauvinistas, social-fascistas, etc.

Na Grã-Bretanha isto se dá porque ali há duas facções e diferentes grupos da grande burguesia também, como no resto dos países imperialistas, mas os que se sobressaem são os da oligarquia financeira. O governo, através de Cameron, como representante político máximo desta oligarquia financeira, tem representado os interesses do conjunto da burguesia britânica dirigido a romper o status quo a favor de seu país imperialista e esgrimindo o “Referendo” como uma chantagem contra os outros países imperialistas da UE, enquanto fazia campanha pela “permanência”. Mas Cameron foi quem planteou que, caso fosse eleito novamente em 2015, iria renegociar o tratado da UE e ofereceu o “Referendo” antes de 2019, que foi adiantado para junho de 2016. Logo, pois, ele foi o que primeiro o planteou, esperando obter réditos políticos, jogando à possibilidade que os outros acedam a seus reclamos. Os outros, também do mais variado espectro da política burguesa britânica, que estão pela permanência, também estão por similares interesses, mas por seguir tratando as coisas mediante mais negociações [Continua na próxima edição].

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