O espantalho da ‘escola sem partido’

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Tem causado grande celeuma, principalmente nos meios internéticos, um tal projeto “escola sem partido”, já apresentado em diversos municípios, estados e ao legislativo federal, tomado pelo viés de uma direita idiota que julga que há “doutrinação ideológica” (de esquerda) nas escolas.

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Secundaristas rechaçam o ‘escola sem partido’ em protesto na Av. Paulista, em São Paulo

A coisa toda ganha contornos meio tragicômicos quando grandes setores do oportunismo eleitoreiro fizeram dessa questão um cavalo de batalha que tem, via de regra, levado a que defendam o falido sistema de educação tal como existe.

O que diz o projeto

Na prática, o projeto de lei defende que sejam implementadas duas medidas:

- A afixação de um cartaz em todas as salas de aula com o que os autores do projeto chamam de “deveres do professor”, que na verdade são proibições ao professor.

- A criação de um canal onde, garantido o anonimato, podem ser denunciados professores que praticassem a tal “doutrinação ideológica” em sala de aula, o que pode e será utilizado para a perseguição de docentes pelas razões mais insondáveis.

Por trás do projeto, entretanto, está o pensamento mais tacanho quanto à instrução pública, uma miscelânea de ideias que remetem ao nazismo, franquismo, regime militar, macartismo, além da aparente ignorância sobre o assunto na argumentação, visando despertar todo tipo de ataque a tudo que tenha o mais leve cheiro de esquerda, socialismo ou comunismo, o que se deve também aos anos do PT no gerenciamento do velho Estado.

Não se faz necessário aqui rebater o que se pretende no preâmbulo do projeto ‘escola sem partido’ como neutralidade do ensino, uma vez que não há nele nenhuma iniciativa de mudança no estatuto dos colégio militares e religiosos, que fazem “doutrinação”, essa sim, confessional.

Para esses néscios, o aluno é algo mais estúpido que massinha de modelar, mas com a mesma consistência.

Que educação?

E eis que o oportunismo eleitoreiro — o que até bem pouco gerenciava o velho Estado e outras siglas menores — se lança a fazer mais barulho que os proponentes da “escola sem partido”, como se essa geringonça é que fosse amordaçar o professor em sala de aula.

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Como tudo pode piorar, muita gente se vê a defender o atual ensino público, numa reedição da falácia da farsa eleitoral de 2014, quando se apelou para a escolha do “menos pior” para gerente desta semicolônia.

Para esses mercadores de ilusão, toda a crítica à política de acesso às universidades, seja por ENEM ou outro vestibular, por exemplo, deixou de existir a partir do momento em que se apresentou como tema de redação ‘a violência contra a mulher’, ou uma questão sobre Simone de Beauvoir. Então existir prova passou a ser coisa boa.

Ou seja, o oportunismo eleitoreiro e os “movimentos sociais” por ele dirigidos não entendem quase nada de instrução pública também, mas como são, na melhor das hipóteses, reformistas, concebem a escola pública como algo a ser “melhorado”, “aperfeiçoado”, “humanizado”.

Ora senhores, assim como não há nada aproveitável no velho Estado, também na atual (e também velha) escola nada se salva.

A educação pública nesse velho sistema é autoritária, emburrecedora, truculenta, desmotivadora para professores e alunos, é o próprio espelho da sociedade antidemocrática em que vivemos, uma vez que existe para reproduzi-la.

Parece mesmo ridículo que num ambiente em ruínas, com salários miseráveis, mal formados, com direções autoritárias, sem recursos pedagógicos, tempos de aula minúsculos, cargas horárias estafantes, currículos mínimos quase impossíveis de cumprir, metas impossíveis de atingir travestidas de meritocracia, alunos que “se formam” sem saber ler nem escrever ou calcular, alguém consiga realmente doutrinar alunos como os defensores do “escola sem partido” imaginam.

Mais ridículo ainda é acreditar que isso é algo a ser defendido em nome do menos pior.

Mais um legado do PT

Como em vários outros episódios, o debate sobre o projeto “escola sem partido” revela novamente a bancarrota de grande setor que se intitula “esquerda”, mas vive mesmo é correndo atrás da direita, gritando como se não houvesse amanhã, mas sem nenhum projeto ou perspectiva que não seja eleitoral.

Em seus mais de 12 anos de gerência do velho Estado o PT ressuscitou várias múmias, entre elas o PSDB, na farsa eleitoral de 2014, e o DEM (PFL), na eleição de Rodrigo Maia para presidente da câmara dos deputados, recentemente.

Mas talvez o maior legado deixado pelo PT seja a volta com toda força do mais seboso anticomunismo, da caça às bruxas, do ganho de poder das seitas religiosas e seus carcomidos dogmas, enfim, de um monturo colossal de lixo que se soma ao imperialismo, à grande burguesia e ao latifúndio, que os movimentos popular e revolucionário terão que varrer, a começar, e já começou, pelo próprio oportunismo eleitoreiro.

E o “escola sem partido” não é nada mais que algo dado de bandeja pelo oportunismo aos setores mais reacionários. É mais um campo no qual a iniciativa popular foi perdida, depois de décadas em que os projetos eleitoreiros suplantaram a luta pela construção de movimentos revolucionários.

O que as ocupações ensinam

Mas, se é óbvio para os verdadeiros democratas e revolucionários que não haverá revolução alguma na educação sem que uma verdadeira revolução transforme a sociedade, não devemos lutar por melhorias na educação pública?

É claro que pode-se e deve-se lutar, mas exemplos como a greve de 5 meses dos professores do Rio de Janeiro, que não trouxe nada de substancial como resultado, a não ser um desgaste imenso da categoria, deveriam ser tomados a sério. No curto prazo não há como romper a hegemonia do oportunismo eleitoreiro nos sindicatos, mas é possível sentir na massa desses professores do Rio um classismo e combatividade, um desejo de radicalização que aponta para novos métodos.

A maior conquista da luta pela educação pública no Rio de Janeiro foi a eleição para diretores de escolas, que até então eram nomeados para os cargos. Ocorre que isso foi muito mais fruto das ocupações estudantis do que da mobilização dos professores.

Em Goiás, a reversão da concessão de escolas públicas para as Organizações Sociais (OSs), na prática a privatização, foi conquistada também pelas ocupações secundaristas.

Pode-se dizer inclusive que, embora tenha havido presença de várias correntes do oportunismo eleitoreiro no movimento estudantil nessas ocupações, elas se deram inclusive em luta contra esse oportunismo, por sua natureza imobilizadora da rebeldia dos trabalhadores e da juventude.

Professores em greve não fazem falta a quase ninguém, principalmente aos governos, enquanto escola ocupadas, por alunos e professores, e transformadas em centros de agitação popular são um problema para as burocracias.

O que se constrói a partir daí é uma questão de perspectiva dos envolvidos, mas seguramente é mais efetivo que votar contra o projeto “escola sem partido” numa enquete de uma rede social qualquer.

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