O Homem (e os ratos) de Lagoa Santa

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Você é um homem ou um rato?

Para o caso de Lagoa Santa, um dos centros da arqueologia e da paleontologia mundiais, as duas respostas são positivas. Pois lá existe o chamado Homem de Lagoa Santa, esqueleto visto como o mais antigo das Américas. Mas também existem os ratos.

O Homem é “famoso”, pertence à linha do Neandertal. Mas quem são os roedores? Ah, esses também têm sua fama. Pertencem à linha do “Mickey Mouse”. Ou melhor, são subalternos do rato gringo imperialista.

Acho bom eu (Rosana) explicar logo esse rolo, para que o leitor de AND compreenda o que quero dizer, nesta primeira reportagem que me atrevo a fazer desde que tive um AVC (ou AVE como dizem alguns), no ano passado. Derrame que me deixou como sequela um cérebro isquêmico, além de um andar trôpego e mãos/braços meio ineficientes.

Aproveitei um período de tratamento de saúde em Minas Gerais para fazer uma pequena investigação jornalística em Lagoa Santa, ao norte de BH, “redescobrindo” as ossadas tão importantes e, ao mesmo tempo, tão esquecidas.

Só consegui isso por contar com a valiosa ajuda de uma equipe do AND nas Gerais. Os colegas apoiadores do jornal me transportaram de carro até aquela cidade; conduziram minha cadeira de rodas em visita aos museus de lá; pesquisaram junto comigo e até digitaram este texto para mim no computador. Enfim, esta matéria é resultado de um trabalho coletivo, que colocou flores, tons e luzes em meu caminho, e pelo qual agradeço muitíssimo.

Então vamos lá.

Tudo começou entre 1835 e 1843, quando o naturalista dinamarquês Peter Wilhelm Lund, em sua segunda visita ao Brasil, descobre dentro de uma das grutas da região de Lagoa Santa partes de esqueletos de animais gigantes já extintos. Entre eles o mastodonte, o tigre-dente-de-sabre, o megatério (preguiça).

Junto a essa megafauna, nos mesmos locais, Lund encontrou restos de ossos humanos, mais tarde chamados de Homem de Lagoa Santa, que hoje tem importância internacional pois integra a cadeia sucessiva dos Homos. Ou seja, integra a história da formação física da Humanidade.

Antes de falecer em 1880, na própria Lagoa Santa onde ficou morando, Lund já tinha chegado  à conclusão, entre outras, que seu achado de megafauna mesclado às ossaturas humanas era uma novidade científica sem par no mundo: indicava que o homem conviveu com grandes bichos, ao contrário do que se pensava até ali.

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Assim, conforme o arqueólogo e biólogo Walter Neves, da USP, mais de três décadas antes que os cientistas estadunidenses sequer cogitassem a existência do Homem Glacial americano e mais de meio século antes que evidências neste sentido fossem geradas, Peter Lund já estava convencido de que os primeiros homens das Américas eram tão antigos que haviam convivido com grandes animais extintos.

Além disso, o material de Lagoa Santa, coletado pelo dinamarquês, ajudou bastante a formulação da Teoria da Evolução das Espécies, por Charles Darwin. Isso porque, entre outros motivos, os esqueletos dos animais estavam em excelente estado milhares de anos após sua extinção, devido às condições climáticas e geográficas daquela região brasileira/mineira.

Lagoa Santa é um carste com alta presença de calcário abaixo do solo. Confesso que (eu, Rosana) não conhecia esta palavra, mas diz a internet que carste, carso ou karst, é um tipo de relevo caracterizado pela dissolução química (corrosão de rochas), que leva ao aparecimento de cavernas, grutas, vales secos, canyons etc. (com presença de cálcio, um forte conservante). O termo deriva do alemão karst, nome de região que vai do norte da Itália até o sudoeste da Eslovênia e noroeste da Croácia.

Após a morte de Lund houve uma lacuna de uns 50 ou 70 anos de silêncio nas pás dos arqueólogos e na falta de notícias científicas sobre Lagoa Santa. Até que nas décadas de 1930-1950 outros pesquisadores, brasileiros e estrangeiros, voltaram a encontrar muita coisa na região: pinturas rupestres, pontas de flechas, cabeças de machados de pedra e mais ossos, muitos ossos.

Porém ,o achado mais espetacular de todos ainda estava por vir. Nos anos 1970 foi descoberto, numa gruta, um crânio humano antiquíssimo que, ao ser estudado, mostrou que aquele espécime do Homem de Lagoa Santa era... era... uma mulher! E mais: essa mulher, com mais de 12 mil anos, era o ser humano mais antigo das Américas! E mais ainda: ela tinha traços negroides!

Espanto geral! Desafio à ciência!

Como uma pessoa de parentesco africano ou australiano aborígine veio parar no interior do Brasil, no interior de Minas, cerca de 12 mil anos atrás!?

Apelidada de Luzia, com um rosto “reconstituído” por técnica interessantíssima, numa imagem que correu mundo pelas TVs, jornais, revistas e internet, a mulher e seu crânio tinham tudo para botar novamente Lagoa Santa no ápice dos acontecimentos científicos internacionais como nos tempos do velho Lund.

Botaram sim, mas não exatamente como os brasileiros e mineiros mereciam. Isso porque os ratos começaram a roer-a-roupa-do-rei-de-roma. Isto é, “Mickey” e seus seguidores, no Brasil e fora dele, começaram a interferir, a sabotar, a detonar o “queijo” de Lagoa Santa.    

Explicamos melhor: vários cientistas imperialistas dos USA (“Mickeys”), passaram a influenciar negativamente os cientistas/intelectuais de mentalidade subalterna, colonizada, atrasada, reacionária de diversos países, inclusive do próprio Brasil, no sentido de desqualificar Lagoa Santa, de tirar o valor dos achados.

Os “Mickeys” ianques e outros começaram a dizer que o Homem de Lagoa Santa (Luzia e sua gente) não era o mais antigo das Américas. Não, não pode ser, afirmavam os ratos gringos e seu cordão de puxa-sacos (puxa-caudas?). Diziam: o mais velho é nosso, que queremos ser o primeiro lugar em tudo.

O mais antigo das Américas, insistiam eles, é o nosso Homem de Clovis, da cultura chamada de Clovis, localizada no estado ianque do Novo México. Estado que, como o nome revela, foi roubado do vizinho mexicano. Esses roedores furtivos...

Os cientistas brasileiros de postura menos lambe-botas pegaram uma barra pesada enfrentando os estragos provocados pelos “Mickeys”. Para começar, a própria Arqueologia brasileira sempre foi sabotada pelas classes dominantes daqui, em consonância com as de lá (“lá” é a Ratolândia, ops... a Mickeylândia, ops...enfim...bom...vocês leitores de AND sabem a que lugar estamos nos referindo). 

Só houve um breve/curto incentivo quando as “autoridades” do Brasil fizeram um acerto oficial com as de lá (antes o acerto era, digamos, extraoficial, no escuro como os roedores gostam...). Exatamente. Às claras, sem nenhuma vergonha na cara, depois do golpe de 64, os milicos brasileiros acertaram com Washington a realização do PRONAPA (Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas). E pior: o comando da coisa ficou com eles. Quem deu as ordens no PRONAPA foi um casal ianque: Betty Meggers e Clifford Evans. Um texto bacana sobre o assunto, com abordagem mais ampla, é o artigo Arqueologia no Brasil e no mundo: Origens, problemática e tendências, de Pedro Paulo Funari, publicado na revista Ciência e Cultura vol. 65, no. 2, S. Paulo, junho de 2013. É encontrável na internet.

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