Acordos de paz: a continuação do oportunismo das Farc por outros meios (Parte I)

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Cada capítulo da história da sociedade colombiana é aberto e fechado por guerras. É uma lei histórica sem exceção desde final do século XV, o cenário da conquista e colonização espanhola. O estabelecimento da Colônia feudal representou o surgimento do seu contrário, a nação colombiana em formação que, já desde essa época, resistiu e se rebelou de forma armada contra os dois problemas fundamentais gerados pela coroa hispana, o problema da terra e a opressão nacional.

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Mineiros bolivianos enfrentam a polícia durante manifestação

Como um elo recente dessa história, desde 1948 a luta de classes tinha se elevado a conflitos armados generalizados (pelo menos duas terças partes do país andino). Esse foi o início do período que se caracterizou como “La Violencia” e se estendeu até 1958, envolvendo não só as rebeliões do povo, mas também fortes conflitos entre os grupos das classes dominantes. Esse período se finalizou com um acordão feito por cima conhecido como a “Frente Nacional”, com o qual os dois partidos tradicionais se partilharam no governo do Estado durante as seguintes décadas. Neste mesmo ano, fazendo contraponto com a reação, formalizou sua capitulação completa o Partido Comunista Colombiano (PCC) com a celebração de seu VIII Congresso onde se ecoaram as teses de Kruchov, “decretando-se”:se encerrou a etapa das lutas armadas, começando-se a transformação dos movimentos guerrilheiros em amplos movimentos de massas. Eis a novidade da fundamentação teórica dos nossos revisionistas atuais! Nossos profetas já mudaram as datas do fim da guerra revolucionária tantas vezes como as do fim do mundo.

Essa grotesca tese foi detonada menos de um ano depois com o triunfo da Revolução Cubana, e claro, com a agitada experiência colombiana, latino-americana e mundial da seguinte década. Como bem sabemos hoje, o final do período de “La Violencia” não trouxe a paz. De fato, todo esse período foi em boa parte a preparação de guerrilhas de uma maior qualidade.

A guerrilha das Farc teve como principal berço o município de Marquetalia, região onde tinham se formado autodefesas camponesas e guerrilhas, organizadas durante “La Violencia” pelo tradicional Partido Liberal e pelo revisionista Partido Comunista Colombiano. Intensificando a guerra contra-subversiva dos anos de 1950, através do plano LASO do Pentágono, o Estado reacionário recebeu instruções de eliminar as bases da insurgência popular por meio de contundentes operações militares. Em 1964, os bombardeios decorreram numa retirada forçada, mas magistralmente planificada, das autodefesas camponesas de Marquetalia dirigidas por “Tirofijo” ou “Manuel Marulanda Velez”, e a consequente aplicação da tática de guerrilhas.

Os dois problemas fundamentais gerados pela colonização espanhola quase cinco séculos antes e o problema da terra e a opressão nacional (agora pelo USA) empurraram aqueles camponeses a elevar sua autodefesa armada ao nível de guerrilha como mais uma expressão do caminho democrático do povo colombiano. As Farc foram filhas da resistência, mas órfãs de direção proletária. Esta raiz histórica deve guiar-nos na avaliação atual desse movimento como uma realidade contraditória, sua base camponesa combativa e sua direção revisionista.

As Farc receberam, ainda nascitura, influência ideológica do velho Partido Comunista Colombiano kruchovista. Na sua infância, desenvolveu sua linha ideológica e política em meio da transcendente luta internacional entre marxismo e revisionismo, conhecida como “A Grande Polêmica”, na qual estiveram no centro da tormenta o PCCh e o já revisionista PCUS. A guerrilha, a partir do seu limitado processo interno, convergiu com o PCUS e o que seria sua agência latino-americana, o revisionismo cubano.

Ainda em meio do fogo dos combates de Marquetalia, lançaram seu primeiro manifesto, o primeiro programa agrário, onde se destaca como ponto central a destruição do latifúndio (seu confisco e entrega gratuita aos camponeses). Foi um significativo avanço mesmo com seu surgimento relativamente espontâneo, natureza principalmente defensiva e agudas limitações políticas iniciais. Ainda com as importantes consignas revolucionárias levantadas, esse movimento armado não superou o marco pequeno burguês da época ao ser insuficiente a proposta em relação às tarefas, meios e instrumentos que são necessários para concretizar as reivindicações do campesinato e do povo em geral, assim como enquanto a outros aspectos que devem ser desenvolvidos por uma autêntica direção revolucionária.

Durante os anos e décadas seguintes se desenvolveram uma série de conferências e eventos que sintetizaram a experiência guerrilheira, especialmente em relação ao planejamento, estruturação, persistência e expansão da guerrilha a nível nacional. Porém, a tendência de avanço militar jamais esvaziou sua linha da ilusão das “duas vias”. Desde os primeiros combates em Marquetalia e no seu primeiro programa Agrário, expressaram desenvolver a via da luta armada de forma “forçada”, “obrigados”, por não ter “espaços legais”; mas desejando a possibilidade de participar de forma pacífica nos diferentes níveis da velha sociedade. Essa ilusão, claro está, não constitui uma ingenuidade pueril, mas é fruto de que, no fundo, o projeto político que sempre defenderam não supera, no essencial, o marco do projeto imposto pelo velho Estado.

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O exemplo mais custoso (até hoje) das ilusões constitucionais das Farc aconteceu em 1985. O governo do presidente Betancur, como muitos outros, vendeu sua imagem como o governo da paz organizando conversações com as diferentes guerrilhas. Decretou oficialmente 1984 como “o ano da paz” e chegou a um acordo de trégua com as Farc (Acordo de La Uribe) que se estendeu até 1987 com uma zona de distensão de dois mil quilômetros quadrados. Em março de 1985, principalmente as Farc lançaram um partido político legal para participar de eleições, a célebre União Patriótica (UP). Inesquecível lição para os autênticos revolucionários: em poucos anos a cifra de assassinatos de militantes desse partido, por forças militares e paramilitares, superou pelo menos 3.500!

As limitações ideológicas e políticas das Farc as afastaram do caminho democrático que transitaram no seu surgimento, e estruturando sua linha revisionista alimentada com anos de acumulação eclética (castrismo, guevarismo, allendismo, bolivarismo etc.), se aproximaram rapidamente ao caminho reacionário do velho Estado burocrático-latifundiário. Vejamos só as questões mais fundamentais. A destruição do latifúndio se limitou a uma declamação oportunista, enquanto na prática se basearam na sua existência como fonte de financiamento através dos impostos “revolucionários” cobrados aos latifundiários, grandes produtores de coca e cocaína, e empresas do capitalismo burocrático no campo.

A partir da base de manutenção e defesa da existência do latifúndio, a guerrilha não passou de agentes da evolução da semifeudalidade no campo. O controle militar de amplas zonas rurais nunca representou a transformação revolucionária da sociedade (um novo poder), mas a recriação das velhas relações erigindo-se como senhores da guerra. Pelo contrário, seu espírito de feudo levou-os ao mais desenfreado hegemonismo contendendo e se conchavando com outras organizações por poder local, e cumprindo em momentos inclusive um papel dentro da guerra contrarrevolucionária como denunciara, em seus documentos, o Partido Comunista da Colômbia (ML) quando dirigia o EPL e a mais alta experiência militar do proletariado desse país, uma autêntica tentativa de guerra popular, no final da década de 60 e começo de 70.

Na estruturação de uma política estratégica para a sociedade colombiana, desenvolvida especialmente no marco dos diferentes diálogos de paz nas últimas três décadas (com sua forma mais acabada nos presentes acordos), terminaram por assumir a posição de grande burguesia burocrática, abandonando o simples caráter pequeno burguês de sua luta. No entanto, esta consideração final a veremos com maior detalhe na segunda parte do presente artigo, depois de já temos introduzido aspectos históricos que marcam a tendência revisionista e reacionária que as Farc continuam a cumprir.

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