Lumumba e o longo processo da independência africana

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Janeiro de 2016 marcou os 55 anos do assassinato do líder independentista e panafricanista Patrice Lumumba, artífice da independência da República Democrática do Congo (antigo Congo Belga). Lembrar seu assassinato chama a atenção para as intensas manobras imperialistas por uma nova repartilha das semicolônias entre as potências e superpotências. E a África hoje já é teatro de guerra para as intervenções estrangeiras, golpes e provocações imperialistas.

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Após a primeira onda de colonização do século XVI, a África, principalmente a subsaariana, se viu novamente fatiada como uma “pizza” ao sabor dos interesses das principais potências imperialistas do mundo, reunidas na Conferência de Berlim em 1884-1885. Na ocasião, os plenipotenciários decidiram “presentear” a região do Congo ao rei Leopoldo II, da Bélgica.

Estima-se que, durante os quase 80 anos de dominação belga, 8 milhões de congoleses tenham sido mortos pelos colonizadores e outros tantos mutilados, como castigo por baixa produtividade ou resistência à escravidão. Sobretudo, no fim do século XIX e primeiras décadas do século XX, quando o Congo era uma propriedade privada do rei, as atrocidades eram a forma de administrar a colônia, tudo em nome da “missão civilizadora” e cristã, é claro. Sobre esse período pesa um fenômeno batizado como “grande esquecimento”.

Milhões de elefantes foram mortos para extração de marfim, milhares de congoleses foram deixados às feras na coleta da borracha, outros milhares morreram na mineração e na construção da principal ferrovia da colônia. No conjunto da obra, a colonização belga no Congo foi um dos maiores casos de saque e rapina de todos os tempos.

Lutas de libertação

Os povos africanos dominados sempre lutaram por sua libertação. No Congo, os levantamentos foram reprimidos com particular crueldade pelos belgas, até que, com o fim da Segunda Guerra Mundial, se avolumaram os movimentos de libertação nacional, na sua maioria estimulados pela política soviética (de Stálin) de descolonização e autodeterminação dos povos.

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Já em 1944, uma grande insurreição de militares ocorre no Congo Belga. Após a repressão, seus líderes fogem e espalham o fermento da rebelião pelo país.

Após a Segunda Guerra Mundial, as colônias africanas registram um período de crescimento econômico, apesar da maior requisição de recursos por parte das metrópoles. Particularmente o Congo Belga desfrutava de uma política de desenvolvimento que, em 1958, na divisão do PIB, marcaria uma redução considerável na produção de produtos agrícolas e o crescimento da indústria voltada ao mercado interno. Dito isso, é preciso destacar que 99% da população era composta por negros, que detinham apenas 5% do capital.

A política colonial belga, desde o fim do século XIX, se sustentava na chamada “Trindade Colonial”, composta da administração estatal, das grandes empresas (principalmente de mineração) e das missões católicas. Estas últimas tinham especial importância pois, por monopolizar a educação pública, monitorava o surgimento de lideranças e agitadores.

Lumumba e a independência

A realização da 1ª Conferência de Povos Africanos, em Accra, Gana, em 1958, foi, segundo seus biógrafos, um grande divisor de águas na vida de Patrice Lumumba, então com 33 anos e já um agitador pela independência. Ali, entre lideranças de dezenas de povos africanos, ele teria encontrado o panafricanismo e se convencido do sonho de uma África unida e independente. Sua atuação política era recente, como dirigente de um sindicato de servidores públicos.

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No ano seguinte, já tendo fundado o Movimento Nacional Congolês (MNC), único grande partido de base realmente popular e multiétnica do Congo Belga, Lumumba é preso durante uma insurreição em bairros pobres de Leopoldville, então capital da colônia.

As sucessivas revoltas obrigaram o governo belga a tramar uma transição controlada do poder para congoleses submissos e, em janeiro de 1960, iniciam-se as negociações. A imposição dos delegados do MNC obriga que os belgas retirem Lumumba da prisão e o coloquem num avião com destino a Bruxelas, onde fica decidida a independência da República Democrática do Congo para o fim de junho do mesmo ano.

As eleições para o novo governo marcam uma profunda divisão de forças. O MNC, grande vencedor, não consegue formar o governo e se obriga a compor com o ABAKO, organização do povo Bacongo chefiada por Joseph Kasavubu.

Assim, o governo se configurou com Kasavubu como presidente, com ideais regionalistas, federalistas e moderadas; e Lumumba como primeiro-ministro, defendendo a unidade territorial, o nacionalismo e o panafricanismo. Essa contradição seria lenha na fogueira do jogo que se desenrolou na sequência.

O imperialismo não larga o osso

Já na cerimônia de independência, na presença do rei da Bélgica, que pretendia transmitir magnanimamente a soberania aos congoleses, Lumumba pronuncia combativo discurso anticolonial, contrastando com a atitude conciliatória de Kasavubu.

Inflamados pelas palavras do primeiro-ministro e pelo general Janssens, membros da força pública (polícia) se rebelam contra a oficialidade branca, que aplicava os mesmos métodos da época colonial aos soldados do país recém libertado.

As revoltas militares se alastraram e a conspiração imperialista se fez presente: as grandes empresas de mineração financiaram a secessão da província de Katanga, rica em minérios. Tropas de paraquedistas belgas desembarcaram em várias regiões do país.

Enquanto isso, com a providencial ajuda ianque, o general Joseph Mobutu, alçado a chefe da força pública após a demissão de Janssens, trilhava o caminho da conspiração contra o governo.

Já isolado, Lumumba pede ajuda à União Soviética, já social-imperialista, o que lhe vale a sentença de morte por parte do USA, Reino Unido e Bélgica, já então agindo em cumplicidade.

Tropas de “paz” da ONU, requisitadas pelo governo congolês, desembarcaram no país e, como era de se esperar, agem como tropas de ocupação, ajudando a depor o governo recém empossado.

Apenas três meses depois de assumir, Lumumba se viu em prisão domiciliar. Em dezembro de 1960, ele tenta uma fuga para um reduto fiel a suas ideias, mas é recapturado, brutalmente torturado e entregue às forças separatistas de Katanga, que após novas sevícias, o executam em 17 de janeiro de 1961. Lumumba contava então com apenas 35 anos de idade.

Kasavubu permaneceu ainda alguns meses como um figurante no governo, até que, em 1963, o general Mobutu o substituiu e instalou uma das mais longevas tiranias africanas, com apoio do USA, claro.

Passados 55 anos do assassinato de Lumumba, a África toda segue imersa em dezenas de guerras civis, intervenções estrangeiras oficiais ou mercenárias, criação de novos países ao bel prazer do imperialismo e a velha sangria das riquezas do continente, que continuam fluindo para as potências às custas dos povos africanos, que, por sua vez, prosseguem na busca pela verdadeira independência.

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