PM mata três e aterroriza morador do Morro do Cantagalo-PPG

No último dia 10 de outubro, mais de cem policiais militares do Choque e do BOPE sitiaram os Morros do Cantagalo e Pavão-Pavãozinho deixando um rastro de sangue e morte pelos becos e vielas do PPG. Ao menos três pessoas foram mortas, uma delas executada sumariamente por policiais da UPP ainda de manhã. Após a execução, um intenso tiroteio entre traficantes e PMs começou no alto do morro e se estendeu até o final da tarde.

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Rastro de sangue deixado pela polícia nos becos do PPG

Como de costume, o monopólio dos meios de comunicação aproveitou o episódio para criminalizar a população do Cantagalo e suas lideranças. Enquanto os abutres rondavam os acessos à favela entrevistando residentes das áreas mais abastadas de Copacabana, a equipe de AND subiu o morro para conversar com os moradores, que relataram o sufoco que viveram nesse fatídico dia.

Segundo os relatos, várias pessoas tiveram suas casas invadidas, pertences revirados, moradores foram agredidos — inclusive crianças — e inúmeros estabelecimentos e moradias foram destruídas por disparos de fuzil.

— A gente ouviu os fogos e logo depois começou o confronto. A gente ainda não sabia que os PMs da UPP tinham executado um rapaz. Eles disseram que a vítima estava com drogas, um radinho e uma pistola, mas isso é mentira, como provou a família do rapaz na delegacia. Teve um momento em que nós estávamos perto de um carro da polícia e nós ouvimos o comandante do choque no rádio dizendo que não queria ninguém vivo, que era para matar todo mundo. Foi quando nós subimos para acompanhar a rendição dos traficantes e garantir que ninguém fosse executado. Quando a polícia apareceu trazendo eles, os familiares começaram a chorar muito nervosos. Tinha um rapaz gravemente ferido com um tiro na barriga. Foi uma sensação horrível de medo, insegurança, impotência, muito ruim — diz a presidente da associação de moradores do PPG.

— Teve casa de morador que foi arrombada, crianças foram agredidas, tudo foi revirado pelos policiais. Crianças de dois a dez anos sendo amedrontadas por policiais, isso é um absurdo! Um restaurante foi metralhado. Não somos a favor do tráfico e nem contra a polícia. Não é essa a questão. Ao contrário disso, os moradores vivem isolados, sem terem em quem confiar. Pessoas que estavam trabalhando chegaram em casa e encontraram tudo destruído. Imagine a sensação. Eu lembro quando o governador falou aqui na inauguração da UPP, que a pacificação traria a paz, os direitos e a segurança para o morador. Mas hoje nós não temos nada disso. Se o policial cismar com a sua cara, ele te mete a porrada a troco de nada. Isso não está certo — protesta a líder comunitária.

— O choque entrou na minha casa, revirou tudo, bateu nos meus filhos que nem ao menos puderam me ligar, porque os PMs disseram que eles eram traficantes e queriam usar o telefone para alertar a quadrilha. Deram tapa na cara dos dois. Meu filho de 17 anos está traumatizado na casa da madrinha fora do morro — denuncia uma moradora do Pavão-Pavãozinho que preferiu não se identificar.

— Isso não vai acabar enquanto não houver uma mobilização dos moradores para mostrar para essa sociedade, para esse governo que nós não queremos os nossos jovens mortos. Quando estamos em época de eleição, todo mundo procura a comunidade. Mas quando você precisa de ajuda como nós precisamos tanto ontem, não aparece ninguém. Se não é a família subir o morro para acompanhar as prisões, nós teríamos uma chacina. Eu posso ser a próxima vítima. As armas e as drogas não são produzidas aqui dentro de favela. Quem traz isso para a favela são grandes traficantes que nunca são incomodados pela polícia. Isso tem que mudar — conclui a líder comunitária do Morro do Cantagalo e mãe de vítima da violência do velho Estado, Deize Carvalho.

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