A digna teimosia dos “severinos”

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Em novembro de 1968 a rainha da Inglaterra esteve 12 dias no Brasil, perambulando por diversas cidades. Quando passou pelo Recife foi recepcionada pela alta burguesia, intelectuais de direita e vassalos de toda espécie que se espremiam e trocavam empurrões pelo direito de bajular e beijar a mão da dona da coroa inglesa.
Pelas ruas da cidade, armaram um cenário de mentira: o então prefeito Augusto Lucena ordenou que a pobreza fosse escondida dos "olhares reais". E assim foi feito. Tapumes foram erguidos ao longo das avenidas por onde passaria o cortejo, desde o aeroporto até o palácio do governo, escondendo favelas e palafitas erguidas há muitos anos sobre mangues, córregos e aterros.

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Brasília Teimosa, localizada em cobiçada área estuarina,
é a mais antiga ocupação urbana do Recife

Trinta e seis anos depois da visita da rainha, as favelas do Recife se multiplicaram na mesma proporção da tragédia urbana, resultante das contradições entre o trabalho e o capital, entre o crescimento populacional e o aumento na concentração de riqueza. Resultado do trabalho não pago, que circula ao sair da fábrica nas formas malditas dos juros, do lucro e da renda da terra, dissimuladas com os mais diferentes instrumentos e nomes com que as classes dominantes batizam suas realizações: aluguéis, prestações etc. Mas, consequências da exploração, ao longo desses anos, não têm se tornado ainda piores em razão da enorme resistência e de organização popular em defesa da moradia e da dignidade proletária.

Hoje a cidade vive o gerenciamento petista que repete com outro matiz a mesma fórmula adotada pelo ex-prefeito Lucena. A maquiagem agora é mais sutil. Os tapumes receberam um verniz de "direito do cidadão", de "participação popular", de "inclusão social", ou que outro apodo imbecil venha usar e tentar camuflar a luta de classes, porque nesse caso pouco importa o dialeto falado nessa "nave de insensatos" e de "fantoches do mundo globalizado", no dizer do próprio Octavio Ianni, recentemente falecido.

Casa Amarela e Brasília Teimosa são exemplos de organização do povo pobre em defesa do direito de morar, resistindo a toda sorte de pressões e de violência do Estado a serviço dos moradores

Um desses tapumes foi erguido logo nas primeiras semanas do gerenciamento de Luiz Inácio, quando esteve na cidade e visitou o bairro de Brasília Teimosa, acompanhado de numerosa comitiva de ministros e apaniguados.

Seguindo os conselhos do publicitário Duda Mendonça, posaram para dezenas de câmeras, prometendo acabar com a favela erguida à beira-mar e nas vizinhanças da avenida Boa Viagem — concentração da alta burguesia local e área mais cobiçada pelos especuladores da região. Meses depois, foi a vez do prefeito da cidade, João do PT, aparecer nas TVs durante visita aos moradores da Vila do Morcego, ocupação localizada sob a ponte do Limoeiro, nas vizinhanças do prédio da Prefeitura. Prometeu moradia para aquela população e fez pose para as câmeras, arquivando imagens para a próxima campanha eleitoreira. Dias depois, João do PT mandou derrubar barracos erguidos às margens do Capibaribe, no bairro da Torre, transferiu as famílias para apartamentos construídos às pressas, também bastante fotografados e filmados, e mandou distribuir as já famosas bolsas-esmola.

Medidas vendidas como "participativas", que também não passam de tapumes, cujos efeitos ilusionistas da colorida propaganda buscam dissimular a verdadeira situação em que vivem o proletariado e as massas populares — distribuídas em mais de 200 ocupações dessa cidade de 94 bairros, onde residem 1.422 mil pessoas, das quais, 40% em favelas. Cidade gerenciada de acordo com a cartilha do capital monopolista, a que servem João do PT, Luiz Inácio e demais tripulantes da tal "nave de insensatos", que é esse governo de proveta.

Os tapumes — financiados por verbas repassadas pelo BID, com justificativas, teorizações e endosso das Ongs — tentam esconder a trágica situação em que continua vivendo a maioria dos "severinos" dos morros, dos córregos e alagados, vítimas do capital monopolista.

A luta não pára

Naquele novembro de 68 também começavam as mobilizações que resultariam num dos mais importantes movimentos das massas populares na história da cidade: o Movimento Terra de Ninguém, que reuniu milhares de famílias proletárias do bairro de Casa Amarela, localizado na zona norte, um dos mais populosos da cidade e palco de inúmeros e corajosos feitos da resistência popular. Ali, todas as melhorias e serviços de urbanização foram conquistados pela população residente nas áreas de morros, valendo-se de passeatas, atos públicos e ocupações de terras. Só assim o povo foi conquistando, ao longo de várias décadas, a água, o transporte, a terra, assistência médica e saneamento.

O Movimento Terra de Ninguém ganhou força na década de 70 e tinha o objetivo de defender a posse e a titularidade das terras ocupadas pelos trabalhadores, ainda nos anos 40 e 50. Faziam parte do Movimento os moradores mais antigos do bairro que, em meio aos mais duros combates, conseguiram provar que as terras de Casa Amarela não eram propriedade dos Marinhos e de outras famílias que as reivindicavam, baseadas em relações arcaicas de mando e inspiradas na propriedade fundiária. As famílias dos falsos proprietários, que se diziam donas do bairro, criaram muitos problemas para o povo, cobrando taxas pelo aluguel do chão. Houve muitas refregas para impedir a cobrança e a população enfrentou corajosamente a repressão policial, até conseguir a desapropriação das terras nos anos 80.

Os tapumes tentam esconder a trágica situação em que continuam vivendo a maioria dos "severinos" dos morros, dos córregos e alagados, vítimas do capital monopolista

O professor e historiador da Universidade Federal de Pernambuco, Antônio Montenegro, ao estudar o assunto, constatou que "os agentes da especulação imobiliária, desde a década de 60, vinham tentando expulsar os moradores, através da cobrança do foro da terra, que aumentava ou se prolongava através de critérios que a população desconhecia, por mais que tentasse conhecê-los." Com apoio de militantes de partidos políticos, então na clandestinidade, dos mais diversos líderes populares, a população de Casa Amarela conquistou a necessária mobilização, a definitiva vitória contra a especulação e pelo direito de morar.

Teimosia organizada

Outra luta histórica na cidade foi travada pelos moradores de Brasília Teimosa, localizada em cobiçada área estuarina, entre os bairros de Boa Viagem e do Recife Antigo. A consolidação daquela área se deu a partir de aterros e da junção de quatro ilhas.

Com a expulsão dos holandeses, as ilhas aos poucos formaram uma península triangular, resultante do assoreamento pelas obras do Porto do Recife, no final do século XIX. Ali, desde então, residiam famílias de pescadores, fato que leva Brasília Teimosa a ser considerada a mais antiga ocupação urbana recifense. A sua história é marcada pelos enfrentamentos entre o povo e a repressão, travadas a partir de 1930, quando o então governador de Pernambuco, Carlos de Lima Cavalcanti, mandou dragar uma área, entre o mar e o Rio Capibaribe, para a construção de um aeroclube.

Os pescadores não concordaram em deixar a área e a população iniciou uma longa e heróica resistência, enfrentando inclusive dois incêndios que destruíram todos os casebres e vários ataques de surpresa desferidos pelas forças policiais, entre outras campanhas de expulsão. No começo dos anos 60, os moradores começaram, mais uma vez, a serem ameaçados pelos especuladores. A resistência não se fez esperar e as sucessivas vitórias do povo, sua teimosia, serviram de inspiração para batizar o bairro, após mais uma reconstrução das casas no amanhecer de um certo dia, depois que haviam sido derrubadas pela polícia na noite anterior, na mesma época em que se inaugurava a nova capital federal.

Casa Amarela e Brasília Teimosa são exemplos de organização do povo pobre em defesa do direito de morar, resistindo a toda sorte de pressões e de violência do Estado a serviço dos exploradores. Hoje, o governo FMI/PT, usa de todas as medidas ao seu alcance para criminalizar os movimentos populares e reprimir suas organizações, principalmente as que se recusam a seguir os modelos de "participação" ditados pelos organismos de gerenciamento imperialista. Um fato exemplar ocorreu no mês de fevereiro deste ano, quando cerca de 150 integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) entraram em confronto com a guarda municipal no edifício-sede da prefeitura do Recife. Os ocupantes reivindicavam o direito à moradia para 120 famílias residentes em duas ocupações, áreas que tiveram mandados de reintegração de posse expedidos no mês de janeiro. Eles foram violentamente impedidos de entrar no prédio por ordem do chefe de segurança da prefeitura. Então, responderam com pedras, pedaços de madeira, tonéis de plástico e barras de ferro.

Assim, a inútil administração municipal "resolveu" atender uma comissão de ocupantes... Para ofertar soluções futuras, as mesmas promessas vazias porque a governança dos ricos não sabe, não pode, nem deseja fazer outra coisa.

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