A cabocla e a saúde nada pública - Uma história absolutamente verídica

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Uma cabocla de cabelos brancos acabou de chegar da UTI. Conhecendo-a em seus quase 80 anos vê-se que na juventude fora forte em sertões nordestinos. Uma vida inteira de labuta na agricultura ajudando a alimentar muitos brasileiros sacramenta a sua fortaleza. Agora estava ali na enfermaria, vencedora das adversidades.

"Saúde é um direito de todos, dever do Estado". Isto subentende serviço público estruturado e com recursos. Assim é que Neuza procurou o Hospital do Gama (DF), e houve indicação de internação e provável cirurgia.

Sua mais querida amiga, tida como filha, encontrou-a em meio ao tumulto de muitas macas, sem conforto ou privacidade. Uma situação de calamidade pública não oficializada e transformada em rotina, nada dimensionada para a demanda.

Glíndia, a amiga da cabocla, ficou revoltada: estavam usando a fina e curta agulha de insulina para infusão venosa! Pronto-socorro sem agulhas? Furiosa, procurou farmácias próximas, todas cujos estoques tinham sido consumidos para os doentes internados no hospital. Um veterinário amigo salvou-a. Abriu sua loja e forneceu algumas agulhas.

Pedido da doutora: retosigmoidoscopia — exame feito com um aparelho introduzido através do ânus para visualizar o reto e o intestino grosso. O aparelho está quebrado, veio a informação. A doutora procura o chefe de equipe, ouve colegas, busca fazer o exame em outro hospital do DF. Meia-noite e trinta. Conseguiram uma ambulância para levá-la a um hospital, a 25 km. Às duas horas da madrugada, Neusa, com um marca-passo (aparelho inserido no tórax que produz pequenos choques, induzindo o coração a bater no ritmo normal), está na mesa de exames para o procedimento que todos acham desagradável, feito por um jovem que talvez não compreendesse os pudores de uma senhora idosa.

Manhã. Após rodar 50 km em ambulâncias, a cabocla estava de volta, já no centro cirúrgico, entubada para o início da cirurgia.

Há necessidade de usar o bisturi elétrico que, pela cauterização dos vasos, diminui a hemorragia intra-operatória.

Foi solicitado o imã para proteger o marca-passo. Onde está o imã? Procura-se na sala cirúrgica, na de preparo, na de material. Sumiu. Só havia um? Não há reserva?

A cabocla, entubada, adormecia com a esperança de cura. Na sala, médicos e auxiliares com as mãos para cima, sem poder tocar em qualquer superfície para evitar contaminações ou explodir de raiva ante o absurdo da situação.

E então, onde está o velho método brasileiro do quebra-galho?

A amiga, Glíndia, estava a postos:

— Como é que é? Não pode ser operada porque não há um imã? Como é o raio deste imã? Ela vai ser operada! Aguardem.

No almoxarifado, nada. Saiu às carreiras para as lojas. Na primeira e na segunda, nada. Na terceira o dono ficou curioso:

— Para que a senhora quer um imã?

Glíndia mentiu, procurando sensibilizá-lo na busca. Disse que a mãe seria operada e, como tem um marca-passo, há necessidade do imã.

— Precisa ser novo?

— Não. O de um alto-falante velho serve.

O lojista achou um, lá, bem no meio dos tarecos, velho, horrível, rasgado, cheio de poeira. Desmancharam-no. Lá estava o precioso imã.

Cirurgia bem-sucedida, médicos atônitos: no intestino apenas um grande cálculo, sem sinais de câncer.

À tarde, na sala de recuperação pós-cirúrgica, vem a notícia: não há vaga na Terapia Intensiva e ela deverá ser transportada para a UTI de outro hospital. A amiga interveio. Procurou o médico intensivista e ouviu:

— Eu tenho vergonha de dizer, mas não há colchão para o leito vago. Ele estragou, não existe quem conserte nem está havendo reposição. Roxa de raiva, Glíndia retrucou:

— Isso não vai ficar assim! Ela não vai sair daqui para outro hospital!

Procurada, a chefe da equipe respondeu:

— O que posso fazer? Apenas ceder o colchão, aqui, da sala de repouso.

Não servia. Tinha que ser um tipo colchonete, com forro plastificado para se ajustar às macas da UTI.

— Mas espere, disse a chefe.

Ligou para o Centro Cirúrgico:

— Vocês têm um colchão para emprestar?

Resolvido. A cabocla pode ir para a UTI, não antes de uma disputa, quase aos tapas, por lençóis. E ainda restava a preocupação sobre os remédios que usaria.

Dois dias na enfermaria. Idosa, veias fragilizadas, acessos venosos difíceis. Optaram pela punção da veia subclávia. Nova batalha. O único trocáter existente foi encontrado na farmácia hospitalar. Por ordem do diretor, sua secretária foi buscá-lo.

Agora, um exercício de imaginação: qual seria a reação se uma parenta, irmã, filha ou esposa do governador ficasse internada e permanecesse, como a cabocla, 24 horas sem medicação por não haver trocáter para a punção subclávia? Não aconteceria. Imediatamente um exército de puxa-sacos seria mobilizado pelo setor político para tudo transcorrer bem. Quebra-galho, só para caboclos, assim mesmo os que têm sorte e amigos. A massa sofre, até morre, sem perceber o absurdo das coisas.

II

Se alguma dessas passagens chegasse aos jornais, haveria a clássica afirmação das autoridades: "Será aberta rigorosa sindicância para apurar tudo e punir os responsáveis."

Talvez demitissem o Secretário de Saúde. Não, este não. Ele é político e não poderia ser "queimado" desta maneira, afinal a ocorrência diz respeito a uma cabocla, apenas.

Então, o diretor.

— ... Porque tudo aconteceu por má gestão! O culpado é o diretor... Faltam remédios, colchão, roupa de cama, seringas, agulhas. Há funcionários insuficientes em vários setores e os salários são absurdamente baixos, congelados há anos!

Que pesadelo!

Poucos sabiam, entre eles o diretor, aquele que sempre pretendeu permanecer assistindo seus doentes, mas estava ali, na administração. Ele acompanhou o hospital desde o seu nascedouro, há mais de 40 anos. A assistência médica do DF era administrada por um sistema de Fundação, até que um técnico "espoleta", que nunca transitou no dia-a-dia do atendimento, recomendou a extinção da Fundação Hospitalar do Distrito Federal (FHDF). Sequer uma única reunião foi realizada para verificar se haveria qualquer conveniência para adotar a medida. Ninguém discutiu nada, os sindicatos não se manifestaram.

— O culpado é o diretor! Ele sabe... Não compram, não liberam recursos para as compras nos volumes necessários. Não há verba, não há verba! — foi o que ressoou pelos gabinetes. Incriminaram o diretor. Demitiram por incompetência administrativa um profissional cujo anseio era manter o hospital atendendo, como devia ser, a população.

Em prática, a patranha da modernização capitaneada por "economistas" intrigantes, assalariados dos poderosos interesses do sistema financeiro mundial e das doutrinas de subjugação nacional. Por que mudar? A Fundação, pelo menos na primeira década de sua existência, funcionava tão bem que as clínicas particulares não prosperavam. A Fundação dispunha de estrutura técnica mais afastada das injunções político-partidárias, permitia agilidade administrativa, contava com funcionários concursados e estáveis cuja vida profissional estava vinculada à existência da instituição.

Extinta, a estrutura de apoio fundamental na complexa atividade hospitalar foi desarticulada. Uma cadeira se quebra, como consertá-la? Esperar por um voluntário? Não há mais oficinas no hospital. No corredor são urgentes um banco e colchão para a UTI? Esperam por doações de alguma empresa? Comprar?

Há a exigência concorrencial, amparada por lei, porque as verbas estão contingenciadas para o pagamento de juros. Além disso, boa parte dos aparelhos hospitalares é importada a custo exorbitante, porque as transacionais retêm as "tecnologias" e também concentram em São Paulo seus profissionais da assistência técnica — que viajam apenas quando os pedidos estão amontoados. Vale dizer, quando os lucros da assistência estão plenamente justificados.

Nas três instâncias da administração pública (municipal, estadual, federal) surgiu uma palavra "mágica": terceirização — instrumento de corrupção, de clientelismo político, que burla o concurso público e afeta os serviços mais simples de limpeza, portaria, vigilância, indo até aos setores de alta tecnologia. Ela cria o gigolô de mão-de-obra, figura que arregimenta alguém que nunca terá vínculo com a instituição e sequer sabe quanto tempo trabalhará ali, enquanto sua obrigação é servir ao político que o indicou.

Planejamento? Há dezenas deles — incluindo o orçamento do governo com todas as previsões de receitas em tributos, taxas e arrecadações — levando rigorosamente em conta os parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS) para profissionais no atendimento das demandas, mesmo com a desarticulação da administração pública.

A legislação — Lei de Responsabilidade Fiscal — privilegia o pagamento do serviço da dívida. Boa parte do orçamento é absorvido para os pagamentos dos juros das dívidas (chega a 70%). Mas que dívida?

Os noticiários fornecem uma pista algo involuntária: US$ 300 milhões de empréstimos do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) para saneamento em regiões do DF; milhões de dólares (BID) para recuperar a BR-040; US$ 2 bilhões para a Bolsa-Família (Banco Mundial); US$ 550 milhões para "Saúde da Família"; fortunas para o projeto monumental de recuperação de prédios históricos. Até para aperfeiçoar o ensino superior no Brasil há empréstimo em dólar. O noticiário mostra que esse financiamento externo alastra-se por municípios, estados e pelo governo federal, envolvendo dirigentes de todos os partidos políticos.

Tudo — abrir valas e colocar tubos de esgotos, urbanização, recapeamento de estradas, pagamento dos profissionais da Saúde da Família, pintura e conserto de telhados dos prédios históricos, aulas de reciclagem de professores — é pago com real, a moeda nacional. Se existe o real para fazer os pagamentos, por que financiamentos em dólar, claramente desnecessários? Acontece que os tais dólares que chegam como empréstimo são utilizados para pagar os juros da "dívida" externa. O valor do empréstimo acrescido de juros, taxas, comissões é somado ao total da dívida, na contra-partida contábil do Banco Central, manobra que permite aumentar brutalmente a "dívida" brasileira.

Bloqueiam tudo, enquanto o dinheiro fica retido no caixa único do governo, até ser desviado para fazer um superávit destinado a pagar juros. Subtraem o salário dos servidores. Não completam o quadro previsto de médicos, enfermeiros. Novos funcionários? Somente cabos eleitorais, incapazes de conseguir vaga em um concurso público; "agentes de infecção" desfilando pelos corredores com crachás sem concurso, fingindo caçar bactérias enquanto aliciam eleitores.

III

Bem, a cabocla Neuza vai para casa.

— Não há segurança — gritam histericamente os nauseantes e respetitivos noticiários, programas de auditório, as novelas etc., buscando distrair a atenção do povo, como se o maior problema residisse na criminalidade, ou na existência de meia dúzia de corruptos profissionais. Escondem a tenebrosa realidade denunciada pela Unifisco. Nas décadas de 80 e 90 o Brasil pagou US$ 542,83 bilhões em juros e amortizações da dívida. Neste período a dívida saltou de US$ 73,96 bilhões para US$ 236,16 bilhões (ano 2000). Em reais seria mais de 700 bilhões, tudo corrigido pela taxa de juros Selic ou pela variação do dólar (câmbio).

O Ceará, com milhares de desabrigados pelas chuvas, declara não haver previsão no orçamento para socorrer os flagelados. Terá que fazer cortes nos investimentos: construção de escolas, hospitais etc. Juros impiedosos, justamente as taxas de juros básicos (Selic) estabelecidas pelo próprio governo — ela é a maior taxa do mundo em juros reais e mais de 16 vezes maior que a "americana" — , permanecem intocáveis.

A cabocla talvez ainda não saiba que o acontecido com ela tem causas bem distantes da má-gestão invocada para ocultar a sórdida e tão sofisticada exploração do povo.

Mas, assim como o povo, terá alguma dúvida que essa situação tornou-se insustentável?


*Rui Nogueira, frequentemente solicitado para proferir palestras em todo o país, é médico e escritor. Autor de Servos da moeda; Petrobrás, orgulho de ser brasileira e Nação do Sol.
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