Falando através do graffiti

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Grafiteiro, produtor e articulador de cultura, o carioca Jean Poul encontrou na arte do graffiti uma motivação e esperança para mudar de vida, da dura realidade de garoto morador de comunidade. Jean quer com sua arte ajudar a resgatar crianças perdidas pela escassez da educação, ministrando oficinas, palestras, incentivando o envolvimento nessa arte.

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— Sou morador de uma comunidade de Senador Camará, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, e antes de conhecer o graffiti passei necessidade em casa. Filho de mãe solteira, me envolvi no sistema onde eu moro pra poder ter o que ajudar minha mãe em casa, mas, em 2005 conheci essa arte e tenho acreditado no meu potencial — conta.

— O que me atraiu no graffiti foi a mensagem que cada artista tem e consegue passar através da sua arte, e o que me levou até essa arte foram alguns amigos. Minha influência são alguns artistas de fora, que estão sempre em evidência e buscando suas evoluções — continua.

Jean afirma que o graffiti é transformador, expressivo e conscientizador.

— Tive esse trajeto ruim de vida no passado, na qual o graffiti me deu a opção de acreditar mais em mim, em meu dom. Através do graffiti pude conhecer artes plásticas, artes cênicas, belas artes, enfim, todo tipo de arte que venho conhecendo está sendo através dele — declara.

— O graffiti é para mim “liberdade de expressão”. Muitos dos meus amigos me têm como referência de vida hoje em dia por conta do graffiti — diz.

Tendo como base o lugar onde nasceu, Jean usa sua arte para compartilhar cultura através das mensagens.

— Moro em uma comunidade onde o crime ainda dita suas regras, e como cria de favela vi muita coisa que não quis e vivi muita coisa também. Não tive tanta opção quando era menor, e acho que por falta de cultura crianças vão para o crime — expõe.

— Sem opção de vida, sem saber que a cultura pode dar outra visão a elas. E esse é meu intuito, apresentar a arte do Graffiti e se possível fazer as pessoas enxergarem a cultura do hip hop como um todo no meu estilo de vida — fala.

— O graffiti ajuda muito as pessoas a se inteirar com a cultura. Abre a mente de muitos moradores da favela, que não têm acesso a uma galeria de arte ou só vê arte na televisão, e não tem essa conexão toda que nós artistas de rua promovemos — continua.

Sempre aprimorando seu estilo de personagens, Jean procura torná-los mais expressivos, capazes de passar as mensagens que deseja para a sociedade.

— O Graffiti é uma arte popular urbana que serve para fazer o povo pensar, refletir, não só sobre a sociedade, mas sobre sua vida pessoal. Tenho como objetivo de promover a cultura como articulador cultural e resgatar a essência, muitas vezes tirada à força com essa guerra paralela entre as autoridades e o tráfico de drogas na sociedade — expõe.

Arte popular retratada

— Tenho um estilo de personagem inusitado que chama um pouco a atenção da garotada, o estilo cômico realista busca isso, ter a atenção e passar uma boa mensagem. Ultimamente tenho migrado para o realismo: rostos de mulheres e crianças, no qual estou tendo mais impacto de expressão nas mensagens que procuro passar — conta.

— A intenção real é a “liberdade de expressão”, independente de tema ou mensagem, o grafiteiro ter o livre acesso de fazer sua arte e se expressar em determinado lugar. O entretenimento não tem nível e nem limite, simples ou complicado, o importante é retratar a sua realidade na sua arte — fala.

Infelizmente Jean não pode realizar sua arte onde tem vontade, como conta, e sim onde é possível fazê-la.

— Nós grafiteiros nunca fomos livres, sinceramente falando, digo aqui no Rio. O estado propôs controlar espaços de melhor visibilidade, os quais só são liberados para algumas agências autorizadas por ele, em épocas de eventos — diz.

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— Temos um pouco de represálias por algumas “autoridades”. Já dei palestras em alguns órgãos públicos para mostrar que não somos apenas artistas voluntários, e sim que cada arte é um trabalho. E é uma forma de mostrar nosso trabalho pra poder ter uma oportunidade melhor — continua.

— O Graffiti é bastante difícil e complicado de fazer. E os materiais são bem caros, além disso, aqui no Brasil temos menos variedades de material. — declara.

Jean participa de mutirões de graffiti e coletivos feitos para promover cultura em comunidades, ao mesmo tempo que ajuda a revitalizar alguns espaços desses locais.

— O graffiti tem como objetivo revitalizar, protestar e educar. Quando se junta um determinado grupo para um mutirão, cada um vai com a sua arte e realiza do seu jeito, e quando é um encontro de coletivo fazemos um layout mais estratégico, para poder ter uma estética mais objetiva — explica.

— O Graffiti carioca não tem tanta união como o de São Paulo, porque as visões mudaram e muita gente foi para o seu devido lado. Mas, acho que a cada tempo sempre surgem novos adeptos desse estilo de vida — diz.

Jean faz parte do coletivo 021 Crew, que tem como objetivo multiplicar cultura.

— O coletivo é composto por um grupo de grafiteiros de diversas regiões do Rio de Janeiro, atuando como coletivo social, com formato de crew fechada, sendo selecionados meticulosamente novos membros para compor o grupo. Tem destaque no Brasil por suas intervenções e ações em comunidades do Rio — conta.

— Como formador de opinião e líder titular do coletivo 021 Crew, desenvolvo projetos sociais com o grupo, buscando apoiadores para poder reforçar mais ainda nossas ações. E estou na cena me aprimorando sempre, estudando com a minha galera — continua.

— E também com a galera da A.R Xarpi, que me abraçou recentemente. Venho compartilhando um pouco do conhecimento que tenho pra essa galera que tem sido um grupo forte na cena urbana carioca — conclui.

Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. é o contato do artista.

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