UPPs completam 8 anos de matança de pobres

A- A A+
Pin It

No dia 19 de dezembro, no Morro Santa Marta, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, oficiais da Polícia Militar promoveram uma comemoração em decorrência dos oito anos de fundação da primeira “Unidade de Polícia Pacificadora” (UPP). Obviamente, pouquíssimos moradores se sujeitaram a participar do festejo, que além de ser uma afronta às massas, pretendeu mascarar o caráter genocida e antipovo da política de militarização das favelas cariocas.

http://anovademocracia.com.br/183/06a.jpg
Rickson, mais uma vítima da militarização das favelas cariocas

Próximo dali, no Morro do Cantagalo, no dia 5 de janeiro pela manhã, policiais da UPP assassinaram o jovem Rickson Rodrigues Barbosa, de 17 anos. O rapaz ainda foi socorrido com vida, mas faleceu a caminho do hospital.

— O Rickson foi morto de manhã com um tiro no pescoço. Os policiais estão aqui barbarizando desde cedo. Várias casas foram marcadas pelas rajadas de metralhadora disparadas pelos policiais. Uma das balas acertou esse menino. Depois, o choque chegou e subiu o morro. Pegaram um rapaz e trancaram ele por horas em uma casa. Moradores disseram que ele estava sendo torturado. Familiares vieram em pânico me chamar e eu acabei indo ao local. Mesmo sendo ameaçada e batendo boca com os policiais, consegui contornar a situação e tirar esse menino de lá. Mas foi muito tenso e os policiais ficaram o tempo todo nos ameaçando com o fuzil e com bombas de gás— contou a líder comunitária Deize Carvalho.

— Nossa rotina aqui tem sido de terror. Eles cortam a luz e deixam a gente no escuro durante as operações. A impressão que dá é que eles querem nos deixar incomunicáveis, no breu, para cometerem covardias contra os moradores e ninguém ficar sabendo completa Deize.

E não é só no Cantagalo que o clima cotidiano tem sido de terror. No dia anterior, 4 de janeiro, uma senhora e um jovem de 16 anos foram baleados por policiais da UPP do Complexo do Alemão, na Zona Norte, na localidade conhecida como Largo do Samba, na Fazendinha – uma das favelas que compõem o Complexo do Alemão. Ela foi socorrida e levada para o Posto de Atendimento Médico (PAM), em Del Castilho, e o rapaz para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha. Ambos não resistiram aos ferimentos.

http://anovademocracia.com.br/183/06b.jpg

— Aqui tem sido essa guerra todos os dias. Polícia sobe logo cedo e começa a voar bala para tudo que é lado. As crianças não podem ir para a escola, muito menos brincarem na rua. Quando começa o tiroteio, a gente fica no chão para não tomar tiro. Mesmo depois que para, ninguém pode ir na rua, porque se eles [PMs] pegarem, sendo bandido ou não, vai tomar uma geral, umas porradas e, às vezes, eles até levam o que você tem no bolso. Te roubam mesmo. Foi assim no natal, foi assim no ano novo e tem sido assim de uns três anos para cá. Piorando a cada dia. Teleférico não funciona mais, UPA não tem remédio e, para piorar, nossa luz está acabando todos os dias, e água acaba dia sim, dia não. Isso não é vida— conta o comerciante Ivan de Albuquerque, de 31 anos.

— O Bope [Batalhão de Operações Especiais] iniciou uma operação aqui no Complexo do Alemão nessa tarde. É muito triste, em pleno final de ano, uma operação como essa que não traz solução alguma e ainda coloca os moradores e moradoras em risco. São intermináveis as rajadas de tiros. Medo e terror é o sentimento de muitas pessoas neste momento em meio à guerra. Antes de atirar, o Estado deveria garantir direitos, valorizar a vida e as pessoas, trabalhar pela melhoria de nossa qualidade de vida. Mas não, só sabem pensar a favela a partir das armas. Bope e Caveirão [veículo blindado da PM] são a única política pública para nós, favelados. Impossível algo mudar dessa forma— comunicou em nota na internet o Coletivo Papo Reto, um grupo de comunicadores independentes locais que noticiam o cotidiano do Alemão.

Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Além das mortes registradas no Complexo do Alemão, no final de dezembro passado e início de janeiro de 2017, também foram reportadas à redação de AND mortes de moradores no rastro da militarização em outras favelas. Entre elas, no Jacarezinho, Manguinhos e na Maré, na Zona Norte do Rio; e na Cidade de Deus, na Zona Oeste da cidade.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja