As sucatas da farra olímpica no Brasil

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Fotos: Ellan Lustosa/ AND

Quatro meses após o fim das competições esportivas, o Parque Olímpico, situado na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro, apresenta claros sinais de abandono: calçadas quebradas, fios elétricos expostos, entulho e material de construção espalhados, água represada em canteiros, lixo e, até mesmo, obras de arte danificadas. É o caso dos painéis do Estádio Aquático, produzidos pela artista carioca Adriana Varejão. Em um determinado ponto, uma piscina acumula água suja, podendo servir de criadouro de mosquitos. O Parque Olímpico custou, juntamente com as obras viárias da região, mais de 2 bilhões de reais. A reportagem de AND esteve no local para acompanhar de perto as sucatas da farra olímpica brasileira.

Até o momento, nenhuma das arenas foi transformada em centro esportivo e/ou educacional, como prometia o projeto original. A farsa do “legado olímpico”, várias vezes denunciada nas páginas de A Nova Democracia desde que o Brasil foi escolhido como país-sede, vai cada vez mais escancarada. As instalações permanecem onde sempre estiveram, formando a estranha arquitetura de uma cidade fantasma. A empresa responsável por garantir a manutenção do Parque Olímpico não tem cumprido, portanto, o contrato de 3 milhões de reais, feito sem licitação ao final de 2016 pelo então gerente municipal Eduardo Paes/PMDB. A prefeitura tentou sem sucesso vender a área situada na Barra ao capital privado. Ao todo, são 118 hectares de abandono e degradação.

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Conforme noticiado por AND em várias edições do ano passado, a realização dos megaeventos – Jogos Olímpicos e Copa da FIFA, principalmente – só fez aprofundar uma prática de remoção secular direcionada às massas populares do Rio. Milhares de famílias foram forçadas a deixar suas casas durante a preparação da cidade para receber a farra olímpica. Direitos do povo foram ostensivamente violados em nome de interesses particularistas do capital financeiro. Em vários casos, os moradores tiveram a possibilidade de defesa sumariamente negado. Paes foi o gerente municipal que, proporcionalmente, mais removeu pessoas de suas casa na cidade do Rio. São aproximadamente 67 mil removidos no contexto pré-olímpico, que considera apenas o período que vai de 2009 a 2013.

As chamadas “obras de mobilidade”, que em tese melhorariam o deslocamento das pessoas pela cidade, também apresentam sérios problemas. A estação de metrô na Gávea, referente à Linha 4, prevista para estar pronta no primeiro semestre de 2017, está com apenas 42% das obras concluídas. O último corredor do BRT, a Transbrasil, por sua vez, se encontra parado desde agosto de 2016, quando as Olimpíadas começaram. A data de entrega da via, que custou até aqui 1,5 bilhão, é 12 de maio deste ano. Os outros dois trechos previstos para o VLT estão igualmente atrasados. O Maracanã esteve fechado ao longo dos dois primeiros meses deste ano, após sua reforma ter demandado o gasto de 1,3 bilhão de reais.

No âmbito de um país semicolonial como o Brasil, as Olimpíadas significaram uma enorme farra de multinacionais, empreiteiras brasileiras e corruptos encastelados no velho Estado. Os megaeventos, além de incrementarem a repressão e o cerco policiais contra as massas populares, são uma forma planejada de multiplicar o capital monopolista das grandes empresas de turismo, transportes, meios de comunicação, construção civil e energia, sendo que quem mais sai lucrou foi o próprio Comitê Olímpico Internacional.

O abandono das construções esportivas é uma realidade em diversos países que sediaram os Jogos Olímpicos. Berlim (Alemanha, 1936), Munique (Alemanha, 1972), Atlanta (Estados Unidos, 1996), Atenas (Grécia, 2004), Pequim (China, 2008) entre outras cidades, viram as chamadas “promessas de legado olímpico” se transformarem em monumentos feitos de pura sucata e cinismo.

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