Massas peruanas resistem à mineração

A- A A+
 

Não é só o Brasil semicolonial que se prende às amarras de uma economia primária, centrada na exportação de bens agropecuários e minérios, aprofundando a entrega do país aos monopólios estrangeiros e sufocando o desenvolvimento nacional. Os demais países da América Latina também desempenham esse papel na dinâmica do imperialismo, que nos legou a sina principal de fornecer a matéria-prima que irá compor produtos industrializados em outras semicolônias, realizando o lucro máximo das transnacionais.

http://anovademocracia.com.br/186/18.jpg
Camponeses de Cajamarca protestam contra mineradora, 2012

Em se tratando da mineração, o Peru é rico tanto em minérios diversos como em resistência popular. Nos últimos anos a revolta de populações tradicionais retardou ou mesmo impediu a instalação de grandes projetos, que seguem suspensos. Mesmo assim, a atividade minerária segue sendo o setor mais importante da economia peruana, sendo responsável pelos indicadores econômicos não mergulharem nas marcas da recessão. Isso ocorre porque nos últimos anos a mineração cresceu na casa dos dois dígitos. Em 2016, o “crescimento” econômico do Peru foi de 3,9%, sustentado por um crescimento de 21,8% da mineração.

Entretanto, especialistas do setor estimam que o crescimento da mineração sofrerá uma drástica desaceleração nos próximos três anos (7,4% em 2017, 2,9% em 2018 e 1,2% em 2019). Entre os motivos constam o alto endividamento das transnacionais envolvidas nos projetos (principalmente da Anglo-American) e a resistência popular à perda de territórios e destruição do meio natural.

Para conjurar essa tendência, o presidente do conselho de ministros do Peru enviou seu assessor ao Canadá, no maior congresso de exploração mineral do mundo, para promover as “facilidades” para a atividade no país. À imprensa, declarou que fariam “simplificações administrativas, redução de trâmites e incentivos fiscais”. Sobre a conflitividade social, respondeu vagamente com “melhorar a qualidade de vida dos cidadãos envolvidos com os projetos extrativos para tornar esses projetos viáveis”.

Uma característica comum das comunidades que resistem aos projetos de mineração é que ocupam terras comunais, de antiga tradição local, em que os campos são cultivados em conjunto. Não há um proprietário que possa vender as terras às mineradoras, mas, por outro lado, por se tratar de direito coletivo, o velho Estado se julga no direito de dispor dessas terras como bem entende.

Ao se tratar da resistência popular, não se pode perder de vista a Guerra Popular Prolongada, dirigida pelo Partido Comunista do Peru, iniciada em 1980, que conduziu a revolução a estabelecer bases de um Novo Poder em quase 50% do território até a primeira metade da década 1990. Sob seu impacto e influência, as massas populares absorveram vários exemplos da luta revolucionária que prossegue, ainda que sob uma dura luta de duas linhas, e demonstram a grande disposição do povo para o combate.

Situação emblemática da forma como são tratadas as populações atingidas pelos projetos extrativistas é a da cidade de La Oroya, na região central do Peru. Ali, a exploração de metais no entorno da cidade, bem como seu complexo metalúrgico, são responsáveis por fazer de La Oroya a 5ª cidade mais contaminada do mundo. Pesquisas apontam que 97% das crianças de 6 meses a 6 anos têm níveis elevados de chumbo no sangue, número que se eleva a 98% na faixa que vai até os 12 anos. A população protesta constantemente, tendo suas manifestações ocultadas pelo monopólio de imprensa.

É justamente para não se transformarem em novas “La Oroya” que dezenas de localidades se insurgiram contra projetos de mineração, todos potencialmente contaminantes. Até setembro de 2016 foram registrados 160 conflitos socioambientais envolvendo projetos extrativos. O nível de organização e combatividade desses movimentos é variado, bem como os resultados práticos alcançados por essas mobilizações. Seguem alguns exemplos:

Las Bambas

Atualmente, um dos maiores conflitos envolve o megaprojeto Las Bambas.

Em setembro de 2015, protestos deixaram três pessoas mortas e 29 feridos pela polícia neste que é o mais amplo projeto de mineração do Peru, em Apurímac, sul do país. A exploração de cobre a céu aberto está a cargo da asiática MMG Limited, encabeçada pela chinesa Minimetals Corporation, que investiram 10 bilhões de dólares no projeto. As manifestações eram contra a instalação de uma planta de filtragem, encarregada de separar o cobre do tungstênio, que seria localizada em outra localidade, sem os devidos Estudos de Impacto Ambiental (EIA).

Em 14 de outubro, a polícia reprimiu selvagemente um bloqueio de estrada, assassinando um homem de 42 anos com um tiro na cabeça. A população segue mobilizada, mas o projeto já está em operação.

Tía Maria

Ainda em 2015, a população de Tía Maria, Arequipa, se sublevou após o ministério das minas e energia aprovar o EIA que autorizou a empresa Southern Copper, que investiu 1,4 bilhão de dólares no projeto, a explorar a área. O confronto resultou em um morto e mais de 130 feridos pela polícia.

Trata-se de grande zona agrícola e os camponeses temem pela falta d'água provocada pelo extrativismo. Em 2016, o Vale do Tambo, área afetada, foi declarado em emergência hídrica.

Toda a resistência, ao longo dos últimos anos já cobrou a vida de três pessoas e deixou mais de 230 feridos.

Cañariaco

O megaprojeto de extração de cobre na região de Lambayeque foi suspenso em 2013 depois de intensas mobilizações e protestos dos moradores de San Juan de Cañaris, que duraram mais de seis meses. A população bloqueou estradas e incendiou instalações da empresa canadense Candente Copper.

A mina já estava produzindo e há grande pressão estatal e da empresa para a reativação do projeto. No entanto, há informações de que a comunidade segue se negando a negociar, temendo uma possível contaminação do solo e das águas pelos rejeitos da mina.

Río Blanco

O projeto de extração de cobre Río Blanco, em Piura, norte do país, também está sendo implantado sob forte resistência popular, desde o início, em 2004. O projeto pertence à chinesa Xiamen Zijin Tongguan, que investiu 1,5 bilhão de dólares.

Em 2005, 28 camponeses foram torturados por policiais e seguranças privados da empresa após um protesto. Um dos camponeses acabou assassinado.

O velho Estado peruano ignorou a constituição, que proíbe que transnacionais operem a mineração a menos de 50 km da fronteira e agiu por todos os meios para o funcionamento do projeto.

Recentemente, num episódio mal explicado, quatro funcionários desapareceram após um invasão da mineradora. Três deles acabaram morrendo de frio nas montanhas. A empresa atribui aos camponeses o ataque.

Projeto Conga

O projeto de mineração de ouro e prata em Yanacocha, Cajamarca, norte do Peru, é de responsabilidade da empresa ianque Newmont Mining Corporation e enfrentou combativos protestos desde o início de sua implantação. Recentes pesquisas dão conta de que mais de 80% da população é contra a continuidade do projeto, que ameaça destruir lagos e contaminar os leitos dos rios.

Os massivos protestos em todo o país foram duramente reprimidos deixando dezenas de mortos e feridos, mas nunca cessaram, até que em 2012 o projeto foi suspenso. Atualmente, a empresa ensaia retomar as atividades, devido a uma alta nos preços internacionais do ouro, e conta com o apoio do velho Estado peruano, que mais parece uma agência de venda do patrimônio do país.

LEIA TAMBÉM

Edição impressa

A imprensa democrática e popular depende do seu apoio

Leia, divulgue e conheça. Deixe seu nome e e-mail para se manter informado
Please wait

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: anovademocracia@gmail.com

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Tel.: (11) 3104-8537
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas
Fausto Arruda
José Maria Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond
Sebastião Rodrigues
Vera Malaguti Batista

Redação 
Ellan Lustosa
Mário Lúcio de Paula
Patrick Granja