Povo se levanta contra extermínio no Complexo do Alemão

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No dia 21 de abril, policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Complexo do Alemão fizeram mais uma genocida operação para a instalação de uma cabine blindada, para ser utilizada como base, na localidade conhecida como Largo do Samba. Nas semanas anteriores, moradores tiveram de abandonar suas residências ou foram obrigados a conviver com policiais, que invadiram as casas e fizeram-nas de bases improvisadas. Os imóveis que não foram invadidos ficaram em estado deplorável, marcados por dezenas de buracos de bala, resultado das invasões diárias da Polícia Militar (PM).

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Moradores ocupam avenida em repúdio ao assassinato de Paulo Henrique, 14 anos

No mesmo dia, ao menos três pessoas foram assassinadas por PMs, entre elas o jovem Gustavo Silva, de 17 anos, que abria a padaria onde trabalha, às 6h da manhã; e o soldado do exército, Bruno de Souza, de 24 anos, que estava de folga em casa com sua família.

— Tentaram socorrer ele, mas os policiais não deixaram. A esposa dele e uma outra moça que estavam presentes tentaram salvá-lo, mas eles [os policiais] impediram. Ele estava ferido com um tiro na perna. Quando perceberam que ele era militar, liberaram a gente para socorrê-lo e saíram fora. Quando a gente chegou com ele no hospital, ele já chegou morto. A mulher dele estava banhada de sangue, a irmã também — denunciou um tio de Bruno.

— Eles que são os carniceiros, eles que matam. Quando eles entram, destroem, dão tiro para tudo que é lado, você não pode ficar em um lugar porque eles estão lá. Tudo por causa de uma base que querem colocar na comunidade. Será que vale a pena? Eu só vejo a comunidade sofrendo. Todo dia morre um inocente — denunciou um primo de Bruno.

Além dos assassinatos, moradores tiveram suas casas invadidas e reviradas. Pertences como roupas, sapatos e eletrodomésticos foram roubados por policiais. Os agentes de repressão do velho Estado ainda destruíram objetos e urinaram nas camas dos moradores.

— Eles entraram aqui de manhã e levaram um videogame, levaram dois pares de tênis, uns seis perfumes, levaram três sandálias. Quando eu levantei, eles falaram que iam me estuprar. Entraram três homens. Eles levaram o liquidificador da minha vizinha também, mijaram em cima dos colchões dos filhos dela. Arrebentaram tudo. Até o faqueiro que eu dei para ela de presente eles levaram — denunciou uma moradora da Rua Zero que teve a casa invadida e objetos roubados por policiais.

— Eu sinto medo deles. Quando falaram que eles estavam aqui em casa, eu não quis nem vir para cá, porque eu fiquei com medo. Eles são tão miseráveis que entraram aqui para pegar perfumes e sandálias, entraram no bar aqui do lado e roubaram refrigerante. Eles são uns nojentos, entram na sua casa, mijam, cagam, mexem na geladeira, comem. Isso não pode acontecer, não! — disse uma das moradoras da Nova Brasília que teve a casa invadida por PMs.

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Familiares exigem justiça em manifestação no MPRJ, 19/04

No dia 22/04, o Coletivo Papo Reto, movimento que denuncia a ação da polícia no Complexo do Alemão, fez uma agitação na Rua Joaquim de Queiroz em repúdio à ação criminosa da polícia. Policiais estiveram no local para fotografar e intimidar as pessoas que participavam do ato. A massa não se intimidou e expulsou os PMs do local.

Já no dia 24/04, na Defensoria Pública do Rio de Janeiro, foi realizada uma audiência pública para denunciar os casos de violações cometidas pela polícia contra moradores. Na semana anterior, dia 19/04, mães e familiares de jovens assassinados pela polícia já haviam realizado uma manifestação em frente ao Ministério Público do Rio de Janeiro, no Centro da cidade, em repúdio à escalada de violência do velho Estado contra o povo nas favelas e periferias do Rio.

No dia da audiência, além de moradores e líderes comunitários do Complexo do Alemão, representantes da PM, da Secretaria de Segurança Pública e das comissões de direitos humanos da OAB e Assembleia Legislativa estiveram presentes na audiência.

— Vocês [policiais] representam o que existe de pior no Complexo do Alemão. A casa de muitas pessoas está destruída, várias outras pessoas estão sendo mortas e, quando um de vocês morre, o Estado dobra a farda, manda para a família e não paga nem o enterro. [...] mesmo assim, [vocês] se sujeitam a fazer esse trabalho sujo na nossa favela — denunciou o líder comunitário e integrante do Coletivo Papo Reto, Raull Santiago, durante a audiência pública.

No momento em que acontecia a audiência, policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) realizaram uma operação na localidade Nova Brasília, palco de todas as violações relatadas à reportagem de AND. Na ocasião, o jovem Paulo Henrique, de 13 anos, foi assassinado por policiais com um tiro na barriga, o que causou enorme revolta entre os moradores que participavam da audiência. Logo após o término da reunião na Defensoria, moradores começaram a se reunir na Estrada do Itararé para protestar. Mototaxistas de outras áreas próximas ao Complexo do Alemão, como a Vila Cruzeiro, também bloquearam as ruas de acesso às favelas vizinhas.

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Não demorou muito para que policiais da UPP respondessem aos protestos com bombas de gás lacrimogêneo, efeito moral e tiros de bala de borracha. As massas resistiram com paus, pedras e garrafas e ergueram barricadas para retardar o avanço da PM. Várias pessoas ficaram feridas no confronto. Os protestos nos Complexos do Alemão e da Penha se estenderam até a noite do dia 24/04.

No dia seguinte, centenas de moradores estiveram no Cemitério de Inhaúma para o enterro de Paulo Henrique, a quinta vítima fatal da polícia no Complexo do Alemão em apenas seis dias. Muito revoltados, moradores saíram do cemitério e bloquearam o acesso a Nova Brasília pela Avenida Itaóca. Mais uma vez, policiais agiram de forma covarde e, de surpresa, atiraram uma bomba no meio dos manifestantes, entre eles idosos e crianças.

Novamente várias pessoas ficaram feridas pelas balas de borracha e estilhaços de bombas atiradas pela polícia. Enquanto fazia a cobertura ao vivo do protesto, o integrante do Coletivo Papo Reto e fotógrafo, Carlos Coutinho, sofreu ameaça por um policial, denunciando-a imediatamente para os mais de 50 mil espectadores que acompanhavam seu trabalho.

Os moradores do Complexo do Alemão que protestavam não abaixaram a cabeça diante da feroz repressão policial. Um ônibus foi incendiado pelas massas e inúmeras barricadas foram erguidas nos acessos à Grota e à Nova Brasília. Assim que começaram os confrontos com as forças de repressão, policiais da UPP passaram a disparar tiros de munição letal contra moradores. Logo depois desses disparos, mais um jovem, Felipe Farias, de 16 anos, foi atingido por um tiro de fuzil e levado às pressas para o Hospital Salgado Filho, onde faleceu no mesmo dia.

Durante o fechamento desta edição de AND, a PM prosseguiu com o terror no Complexo do Alemão. Como resultado de nova invasão de soldados do BOPE (com os rostos cobertos) à comunidade, na manhã de 4 de maio, mais três pessoas foram assassinadas e uma ficou ferida. Nossa reportagem seguirá acompanhando a situação de barbárie e guerra civil reacionária levada a cabo pelo velho Estado.

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