O cravo e as cantigas de roda

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Idealizado pelo cravista Antônio Carlos de Magalhães, o projeto Cravo e Cantigas tem como objetivo levar cantigas de roda e cirandas para escolas, teatros, centros culturais de Belo Horizonte. Presentes na memória do povo, essas músicas fazem parte do patrimônio cultural brasileiro e são trabalhadas por Antônio no sentido da preservação e apresentação para as novas gerações.

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— Grande parte de minha vida musical tenho dedicado a pesquisa de nossa música colonial, as origens de nossa música popular, porque acredito que a alma de um povo está na preservação de sua memória, tradições, costumes e cultura. Podemos observar que povos antigos como os japoneses, chineses, indianos, nunca perderam sua identidade pois preservam suas tradições – fala Antônio.

— E é comum em nosso país a destruição de nossa memória, logo me sinto na obrigação como artista de tentar resgatar nossas tradições, e as cantigas de roda e de ninar são uma delas. Esta tradição portuguesa foi trazida para o Brasil e chegando aqui incorporou nossas histórias e tradições, criando novas cirandas que foram passadas de pai para filho por várias gerações – continua.

A ideia de realizar esse projeto tem algo a ver com a sua própria infância.

— Há muito tempo que desejo trabalhar com criança e não sabia como. Então, lembrei de minha infância quando era muito comum brincarmos de roda nas escolas e entre os amigos e primos. Percebi que hoje em dia, não se vê muito as crianças brincarem de roda e nem tão pouco cantarem as cantigas de roda e de ninar – conta Antônio.

— Os celulares têm criado um efeito muito nocivo em nossas crianças, pois desde tenra idade já deixam de interagir com os amiguinhos para ficarem brincando com celulares. Logo, vi aí uma oportunidade de resgatar esta convivência lúdica entre as crianças e a melhor forma disso é através das cantigas de roda – diz.

— É uma realização poder trabalhar para o universo infantil, ultimamente tão ultrajado e renegado. A tecnologia e a internet, com sua enxurrada de informações, também possibilitaram que as crianças perdessem a inocência, e consequentemente, a infância, muito cedo. É nosso dever tentar resgatar este mundo de fantasia perdido – declara.

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Para escolher o repertório a ser trabalhado, Antônio fez uma pesquisa minuciosa à procura das mais tradicionais cantigas de roda e de ninar.

— Para isto procurei por artigos de pesquisadores e historiadores para encontrar as letras originais de cada uma delas. Depois fiz os arranjos musicais em cima das letras encontradas – relata.

Entre outras, fazem parte do repertório do projeto: Fonte do Tororó, O cravo brigou com a rosa, Ciranda cirandinha, Capelinha de melão, Cai, cai, balão, Atirei o pau no gato, Carneirinho, carneirão, Pirulito que bate, bate, e Sambalelê.

Preservando a memória popular

— Ano passado nos apresentamos em coretos da cidade e escolas, e percebemos que a receptividade foi muito grande. As crianças participavam da roda, cantavam, e não somente as crianças, havia grande participação e entusiasmos dos pais e principalmente de pessoas da terceira idade, que se lembravam de sua infância e se transformavam em crianças novamente. Foi muito gratificante – conta Antônio.

Para realizar essas apresentações Antônio contou com a participação de cinco crianças.

— Elas foram escolhidas pela maestrina Tyara Raphaella, que regeu e tocou flauta no projeto. Contamos também com a participação da atriz Roza Oliveira, responsável em fazer a interface entre as crianças, o público e a cantiga apresentada – relata.

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— Ela forma uma roda e convida o público para brincar de roda e faz algumas intervenções teatrais muito interessantes. O cravo fica por minha conta. A princípio, pensei em fazer um trabalho de cirandas com arranjos meus para cravo solo, cheguei até a gravar um CD – diz.

— Ficou uma combinação perfeita, pois fiz a união de um instrumento antigo com canções que fazem parte da nossa história. Não duvido muito que estas cantigas já tenham sido até tocadas no cravo nos tempos antigos. O som peculiar do cravo, que nos faz lembrar a harpa, cria uma atmosfera bastante lúdica, própria para este tipo de música – continua.

Cravista e pianista, Antônio Carlos nasceu em Belo Horizonte (MG) e cursou licenciatura na Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

— Com 7 anos de idade comecei estudar piano, e adolescente entrei para o conservatório mineiro de música. Desde muito criança já “namorava” o cravo. Toda vez que visitava meu tio pedia a ele para colocar o disco Cravo Bem Temperado, de Bach, tocado pela cravista Wanda Landowska. Ficava absorto ouvindo aquilo – lembra.

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— Durante meu período de estudo na graduação sempre procurava tocar no cravo da escola, até que um dia ganhei uma bolsa de estudos para participar do I Festival Internacional de Cravo em Porto, Portugal. Daí em diante percebi que tinha mesmo muita intimidade com o instrumento e passei a me dedicar a seu estudo – fala.

Por sua dedicação à pesquisa e divulgação da música colonial brasileira, Antônio participou de vários grupos de música antiga.

— Fiz algumas incursões na música popular, trabalhando com a saxofonista Maria Bragança no seu CD Alma Barroca, onde se misturava a música erudita e popular, com Celso Adolfo, grupo Cartoon, Kristof Silva. O que me incentivou a gravar meu segundo CD solo, O Cravo e a Rosa, onde misturo músicas populares e eruditas que homenageiam a rosa e o cravo – conta.

— Meu próximo CD, Fortepiano no Brasil do Século XIX, resgata as origens da nossa música popular na gravação de polcas, quadrilhas e demais danças do Brasil Império. Muito diferente de meu primeiro CD, Sabará, que mostra todas as variedades de música barroca para cravo produzida na Europa e no Brasil – continua.

— Mas, sempre tive um desejo de trabalhar para o público infantil e a pesquisa das cantigas de roda e de ninar caíram como uma luva. Pretendo continuar o Cravo e Cantigas e desejo também gravar um DVD do projeto – conclui Antônio.

www.cravoecantigas.com é o contato do artista.

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