O cinema de Sérgio Ricardo

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Sérgio Ricardo é normalmente lembrado por sua carreira de músico. De formação erudita, começou tocando piano nas noites cariocas dos anos 50. Em seguida, ligou-se à bossa-nova. Nos anos 60, transformou-se num dos líderes da canção de peso social, de cunho nitidamente popular e democrático. A trilha de Deus e o diabo na terra do sol, inspirada em ritmos regionais nordestinos, e músicas como Zelão e Esse mundo é meu, se transformaram em sucessos históricos. O violão, num canto de seu escritório improvisado ("Estou de mudança", revela), denuncia que a música realmente está mais do que presente em sua vida. Ele, aliás, revela estar compondo muita coisa ultimamente. Óbvio que os monopólios dos meios de comunicação não lhe dão espaço, porque Sérgio é gente de confiança da música brasileira.

Porém, a entrevista em sua casa, numa agradável rua no bairro Fonseca, em Niterói (RJ), buscava colocar em evidência a sua produção cinematográfica. Ignorada pelo grande público, a filmografia de Sérgio Ricardo foi reconhecida com prêmios em diversos festivais internacionais. E foi isso que o "Sérgio Ricardo cineasta" (indivisível do ator, do compositor, do arranjador, do poeta, do artista plástico...), falou na nossa curta conversa.

A "Intromissão"

Fim dos anos 50 e início dos 60. A tal bossa-nova estoura nas rádios. No cinema começa a se delinear uma estética nacional em produções como Agulha no palheiro,(Alex Viany, 1953); Rio 40 graus (Nelson Pereira dos Santos, 1955) e O grande momento (Roberto Santos, 1958). O Cinema Novo vem na sequência, nos anos 60, aprofundando a busca de temáticas nacionais. Glauber Rocha, Rui Guerra, Nélson Pereira e outros produzem "filmes de autor", baratos, enraizados na cultura brasileira com preocupações sociais.

Imerso nesse prolífico caldo cultural, Sérgio também faz seus próprios filmes: "A minha ‘intromissão’ no cinema se deu quando a bossa-nova conseguiu explodir nos anos 60. Aí, consegui juntar um dinheirinho e fazer meu primeiro filme: O menino da calça branca (1961)." "Eu já era ator e dirigia algumas coisas em televisão, mas sonhava com o cinema", conta Sérgio. "Nesse primeiro filme, eu fui logo com um certo luxo, porque documentário naquela época só se fazia em 16mm. E eu resolvi encarar o 35mm, fazer uma coisa mais profissional. Isso sob protesto dos meus amigos de cinema, que diziam que era maluquice, porque o cinema brasileiro não tinha condição de ter curta-metragem em 35mm...".

Além de dirigir, fez o roteiro, a música e ainda atuou — um típico "filme de autor". O resultado da produção o surpreendeu: "O filme foi concorrer nos Estados Unidos, no Festival de São Francisco (1962), e foi muito bem recebido. Ficou em segundo lugar, mas era para ter tirado o primeiro. O Brasil ganhava em longametragem, com O pagador de promessa, de Anselmo Duarte, e acharam que dar o prêmio também para curta-metragem ia pegar mal. Vendi o filme imediatamente, superando a minha expectativa. Fiquei muito feliz. Tornei-me apaixonado pelo cinema. Logo depois, fiz Esse mundo é meu."

Na Síria

De 1963, Esse mundo é meu foi seu primeiro longa. Montado por Rui Guerra — outro amigo de Cinema Novo — também teve excelente repercussão. "A produção concorreu num festival no Líbano e esteve na Mostra do Cinema Novo em Gênova (Itália). Houve críticos que disseram que esse era um dos melhores filmes do ano", conta.

No festival do Líbano, Sérgio teve uma grata surpresa: "Representantes do cinema sírio, presentes no festival, gostaram do filme. Eles ficaram sabendo que eu era descendente de sírios e me convidaram para dirigir um filme. Topei e fui para a Síria, com mulher, papagaio... (risos). Fiquei três meses para fazer um curta e na primeira semana já estava com tudo pronto. Eu queria filmar na aldeia onde meu pai havia nascido. E já fui com uma idéia: a história da imigração, porque meu pai era imigrante. Contei a história de um lenhador querendo sair da aldeia que não comporta mais seu sonho. Uma coisa bem poética."

Mas como foi fazer um filme na Síria, com elenco local, não falando nenhuma palavra em árabe? "Coloquei umas fiandeiras e elas conversavam, eu fazia perguntas. Elas iam falando e eu não entendendo nada, mas não parava de filmar. Depois, o tradutor me contava o que elas disseram. Traduzia no papel e ia montando o filme conforme o diálogo. Assim, conseguia fazer uma conversa entre elas. Foi um negócio muito bonito. Pena que não me deixaram trazer o filme para o Brasil. Meu pai morreu sem ver. E estava louco para ver, porque era a terra dele."

Em 1969, a primeira realização em cores: Juliana do amor perdido. Ele comenta: "Eu gosto muito desse filme, acho muito bonito. Não pude fazer um filme político como queria, porque já foi filmado um ano depois do AI-5 — a barra estava muito pesada."

Dragões e jagunços

Em 1974, Sérgio Ricardo parte para o que talvez tenha sido seu projeto mais ousado. Bebendo na fonte do realismo fantástico, A noite do espantalho mistura cenários de pedra e arcos romanos (foi gravado em Nova Jerusalém, Pernambuco, onde tradicionalmente é encenada a Paixão de Cristo), um monstro meio jacaré, meio dragão, jagunços que andam de moto com asas de moscas e capacetes da Primeira Guerra, entre outras imagens inusitadas. O aparente non-sense serve de cobertura a um recheio de crítica política.

"Eu tinha de arrumar uma linguagem que pudesse driblar a censura. E foi o que aconteceu: fiz um filme musical. A censura queria proibir depois de pronto, e foi proibido. Só liberaram porque a Quinzena do Realizador de Cannes tinha me convidado para participar do festival. Como foi um convite direto do festival, pegava mal para o governo recusar, declarando expressamente a censura: iria ser um escândalo internacional. Então, resolveram liberar sem cortes. Só tiraram a palavra ‘Fidel Castro’ (risos), que era o apelido de um dos motoqueiros", recorda Sérgio. "Tudo se baseia num cordel que escrevi sobre um vaqueiro que subleva os seus iguais contra um coronel que está vendendo a terra para um dragão. Esse ‘dragão’ é um cara de duas cabeças, que vem de outro país. Era uma coisa muito doida, muito em cima da fantasia cordelesca. E o realismo está presente com a história da luta dos camponeses com os jagunços do coronel. Nessa história, a música chega como narrativa", resume.

Filmes na agulha

Em seguida, Sérgio fez alguns curtas e documentários, algo bastante esporádico, paralelo ao seu trabalho de músico. Uma das experiências mais interessantes foi o documentário no Morro do Vidigal, onde morou na década de 80. Durante sua permanência por lá, houve um movimento popular de resistência contra a desocupação de uma parte do terreno da favela em que residiam várias pessoas (incluindo ele próprio). Daí, nasceu o documentário Balanço do Vidigal, mais um indício do engajamento de Sérgio, que em toda a sua produção sempre deu voz aos anseios do povo sem esquecer da beleza estética.

Certamente, afora a cinematografia imperialista, o que Sérgio diz se fundamenta num princípio universal que defende ser a arte uma manifestação pertencente ao povo, e não a de um reduzido contingente de especialistas. O cinema, por exemplo, deve revelar o pensamento e o desejo de milhões. Para isso é preciso retratar com fidelidade a vida do homem sob um modo de produção determinado, e destituir toda a maquiagem, seja na forma de diálogo, enredo ou qualquer recurso cênico que venha impingir ilusões danosas.

Quando Sérgio partia para aquele que seria o próximo longa — História de João-Joana, baseado num trabalho que fez com o poeta Carlos Drummond de Andrade — a Embrafilme fechou as portas e o financiamento esperado não veio. "Eu fiquei meio desgostoso com essa história de cinema porque eu detesto produção. E não tenho sócios porque o meu cinema é meio bissexto, sem grande constância por causa do meu trabalho musical", admite, para advertir em seguida que não abandonou o projeto.

A despeito das dificuldades, o "Sérgio cineasta" pode voltar à praça em breve: "Estou sendo convidado para fazer dois filmes, como diretor. Não seria o chamado cinema de autor, mas uma encomenda. Contudo, são projetos muito bons. Um é sobre os quilombos no Rio de Janeiro — tema de que gosto muito porque pesquisei bastante sobre música africana. O outro é sobre seresta, uma produção da Piedade Carvalho, grande musicóloga."

Arte transformadora

Sérgio Ricardo é realmente um artista de briga, que passa recibo e se envolve politicamente. Não poderia ser diferente.

"O artista não tem outra escolha, meu irmão. Não dá para ficar só na coisa do estético pelo estético. Para quê fugir disso? A arte é extremamente convincente, porque atinge o seu ‘inconsciente’, o seu lado afetivo. Ela tem que ter um objetivo além de embelezar", sentencia, revelando um traço de personalidade que não contradiz a amável figura que nos recebeu há uma hora.

Falando do cinema e das artes em geral, Sérgio cobra um engajamento maior com nossa realidade nacional e com os anseios das massas.

"Temos de filtrar, entre os realizadores, os que já acordaram daquele pesadelo, onde a tecnologia e modelos importados tomaram conta, fazendo-se passar por linguagem brasileira. Devemos refletir nossa realidade com clareza, com coragem, no sentido de revelar os caminhos. Se não tanto, denunciar as realidades, para provocar, com arte, a tomada de uma posição escolhida pelo povo, para a solução dos problemas da sociedade", diz ele.

Ele prossegue: "Um verso do inesquecível compositor Sidney Miller me vem à lembrança para sintetizar: ‘Ouça uma canção do passado para saber o que há de novo’. Temos que lutar por um renascimento cultural, em todas as áreas da arte brasileira, e acordar os artistas que trabalharão para despertar o povo, municiando o seu verdadeiro despertar, e partir para a transformação. Isto é o que se extrai de novo do velho exemplo dos anos 60, cujo elo rompido do processo histórico ainda não se reatou. O cinema atual brasileiro já anda dando mostras de que caminha nessa direção. Para alguns, falta ver o que há de novo naqueles velhos filmes e perceber o que há de velho em seus novos filmes."

Sérgio reconhece que a falta de proteção à produção nacional está entre os piores obstáculos para o desenvolvimento do cinema brasileiro.

"A popularização do cinema brasileiro já está se dando até de forma muito positiva e crescente. Não há tantas casas exibidoras como antigamente, mas ainda se tem o suficiente espaço para ser preenchido com o produto nacional. O que não existe é uma garantia limitando a entrada do produto estrangeiro, para que não reste apenas uma mísera parcela a ser disputada entre nossas produções. Era uma batalha que estava sendo ganha pelo Cinema Novo enquanto a ditadura não conseguia exterminá-lo. No entanto, com o golpe fatal de Collor acabando com a Embrafilme, o cinema nacional qua se deixa de existir e, com ele, a luta por sua emancipação no mercado", propõe.

A conversa chega ao fim. Num agradável bate papo em off, Sérgio fala do "esquecimento" de seu trabalho musical pelos meios de comunicação imperialistas, do constante fechar de portas nas gravadoras e até de antigos "amigos" que nem ligam mais por ele não estar na tal "mídia". O problema é que Sérgio é um grande talento a quem nunca venceram em suas convicções e arte. Ainda, ele se mantém na ativa, compondo sempre e bem.

No portão de sua casa, um forte aperto de mão e um "apareça quando quiser", reforçam a amabilidade de um artista que, pelo tamanho e importância de sua obra, poderia até ser esnobe. Na despedida, escapa uma última informação: Sérgio Ricardo tem na agulha o show Ponto de partida, com voz e violão, para turnês. AND pergunta por referências para contato. Sérgio Ricardo dispara: (21) 2717-3461 e Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..

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