A literatura no rumo da hora próxima

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(...) — A classe operária vai mesmo ser dona do mundo?

— Vai. Tão certo como o sol há de nascer daquela serra.

— Mas quando? Quando Zé de Barros?

— Na hora próxima!(...)

O final da década de 40 e começo da de 50 foram particularmente pródigos em episódios que revelaram a combatividade dos trabalhadores produtivos no Brasil. Como resultado da grande mobilização antifascista e o envio de soldados brasileiros para combater na Segunda Grande Guerra Imperialista, as reivindicações populares de grande vulto assistiram atos heróicos de dignos representantes proletários que deram a vida em prol de sua classe.

A literatura popular refletiu as lutas desse período. Em particular a coleção Romances do Povo, que reuniu 25 títulos de autores de vários países. Um desses livros é de Alina Paim, autora brasileira que militou no Partido Comunista do Brasil e colaborou na elaboração de uma narrativa literária que espelhasse as lutas do povo, revelando o futuro de inevitáveis conquistas para o proletariado. A hora próxima, título que compôs a coleção, vendeu 10 mil exemplares somente na primeira tiragem, em 1955.

Entre 48 e 50, novamente na clandestinidade, o Partido fez a autocrítica do eleitoralismo e propôs a formação de uma Frente Democrática de Libertação Nacional para conquistar o poder e realizar o programa da revolução democrática, agrária, antifeudal e antiimperialista. A partir de 55 ganha terreno a posição revisionista de Prestes e o PCB retorna ao eleitoralismo, fazendo inclusive campanha para Juscelino Kubitschek, identificado erroneamente como representante da burguesia nacional (sobre a história do PCB, ler AND 17 e 18).

Hermogênio da Silva Fernandes foi um dos fundadores do Partido Comunista do Brasil (PCB) em 25 de março de 1922. Operário eletricista, era empregado da Light (empresa de eletricidade) na cidade de Cruzeiro, no Vale do Paraíba, São Paulo. Passa depois a ser operário da Rede Mineira de Viação na mesma cidade.

Cruzeiro, apesar de pequena, era um importante entroncamento ferroviário pelo qual passavam as estradas da antiga Rede Mineira de Viação e da Central do Brasil. O transporte era intenso, tanto de passageiros como de cargas — estas, principalmente café e minério de ferro, tinham como destino o porto de Angra dos Reis. Devido ao grande movimento de trens, a cidade possuía importantes oficinas de reparos e uma fábrica de vagões, além de um frigorífico. Essas condições faziam com que a concentração operária fosse relativamente grande.

História com suas razões

A Rede Mineira de Viação foi composta por várias outras menores, sendo encampada pelo governo de Minas Gerais em 1931. A Rede convivia com constantes prejuízos ocasionados pela má administração, corrupção e outros desmandos bem conhecidos — que eram sentidos pelos operários e suas famílias na constante piora das condições de trabalho, atraso dos salários e péssima distribuição de gêneros alimentícios nos armazéns da Cooperativa dos Ferroviários, criada pelos operários e roubada pela administração da Rede. Além disso, a Rede cortava grande faixa do território composta de latifúndios, reduzindo o tráfego nesses trechos, que permaneciam abandonados.

Na esteira das grandes mobilizações operárias lideradas pelo anarco-sindicalismo no início do século, a ferrovia conheceu grandes greves, inclusive contando com a Associação 1º de Maio, que funcionava como o organismo que centralizava as reivindicações dos ferroviário s da Rede. Esses movimentos passaram a ter a direção do PCB após a sua fundação.

Esses dados históricos estão presentes em A hora próxima. A lembrança de Hermogênio perpassa todo o texto como o bom plantador que semeia em terra fértil. Zé de Barros, também personagem real, se lembra de que a diretoria da ferrovia, impossibilitada de demitir o notório comunista, tenta atrapalhar a realização de sua tarefa libertadora fazendo constantes remoções do operário para locais distantes. A tática, no entanto, facilita enormemente o trabalho de Hermogênio, que cria células do Partido Comunista por onde quer que passe.

A ação central do livro é uma greve dos ferroviários em 1950, em vários entroncamentos da Rede Mineira. A estrada da Rede, em Cruzeiro, é tomada por um piquete de mulheres com a tarefa de deter a locomotiva 437, que se preparava para engatar uma composição e seguir viagem. O maquinista titubeia e, ante a firmeza e ousadia do grupo de mulheres, pára a 437, que imediatamente tem sua caldeira esfriada e posta fora de combate. A locomotiva se tornará a bandeira do movimento grevista.

Num instante, sob a direção da comissão de greve, composta somente por mulheres, forma-se o cenário: A 437, apelidada de Joana e centro do acampamento, recebe o cartaz com letras vermelhas que expõe os motivos do movimento: “Nossa luta é contra a fome e a miséria”. O lamento pela falta de uma organização que centralizasse as reivindicações dos operários e deflagrasse um movimento coordenado é suspenso por medidas práticas. O telégrafo grevista funciona freneticamente, e para os locais onde ele ainda se encontra em poder de conhecidos delatores são enviados emissários. Também onde ainda não havia um consenso entre os operários a propaganda do Partido Comunista se fazia ouvir e um simples panfleto é capaz de deflagrar a greve. Soledade, Itajubá, Três Corações, Divinópolis, Barra Mansa... Um a um os entroncamentos aderem à greve. Afinal, a insatisfação não era a mesma?

Em Divinópolis a linha é tomada heroicamente. A polícia, previamente avisada de que a locomotiva será desativada, tenta assegurar o seu funcionamento. Mas nada é capaz de deter a onda de mulheres que avança em direção às baionetas, tomando os fuzis das mãos dos soldados, bloqueando a estrada e se apoderando da máquina.

Clotilde é professora do grupo escolar e há tempos oscila entre a militância no Partido e seguir com as comodidades distantes da vida dos operários, cujos filhos eram seus alunos. Espanta-se quando Julieta, sua aluna do primário, revela ter por toda a noite informado as mulheres sobre a hora de deflagração da greve. “Pois foi vovó mesma que deixou. Ela disse que na vida de operário se aprende de cedo”, diz a menina.

Proletários rompem neblinas

Polícia e oportunistas são repelidos com a mesma decisão. O delegado chega com o firme propósito de tirar os grevistas da estrada “por bem ou à força”, mas é obrigado a reconhecer que diante dele há uma enorme força de operários com suas mulheres, nada mais lhe cabendo senão recolher seu ultimatum, principalmente diante da resposta: “Daqui só sairemos com os atrasados na mão”.

Manuel Barulho é ferroviário e vereador pelo PTB. Seu trabalho de polícia consiste em infundir o medo nas mulheres para que elas deixem sozinhos os operários na linha. Seu propósito é desmascarado e o farsante é expulso do acampamento quase a pontapés, furioso com a derrota. Se as famílias não tinham o que comer em casa e os operários saíam a trabalhar com o estômago vazio, como fazer para alimentar a todos que haviam se mudado durante a greve para o acampamento à beira da estrada, tendo os vagões vazios transformados em dormitórios? A solidariedade faz a sua parte e os setores progressistas das cidades contribuem com o que podem e apóiam: “Não saiam da estrada”. “Aguentem firmes”. ”Vocês vão ganhar”.

Tião é um velho comunista. Certa feita, quando de madrugada trabalhava na estação, aparece um grupo de camponeses mal agasalhados e descalços, armados de paus. Vinham incitados pelo “coronel”, dono das terras que lavravam, e pelo padre, no intuito de matar “o comunista”. Num instante Tião bota a todos em uma roda, explicando a essência da exploração do latifúndio e, ao fim, obtém aliados.

Juvenal, operário de muitos anos, obrigado a servir na casa do engenheiro-chefe da Rede, arde de revolta e impotência diante da prepotência do patrão e da necessidade de sujeitar-se à condição de servo para sustentar os filhos. Assistindo aos companheiros acampados, decide abandonar o serviço. Só voltaria pela porta da frente, dessa vez para expulsar o engenheiro-chefe da cidade.

Nas viagens constantes do engenheiro, seu auxiliar se tranca em casa com a esposa do ausente. Após descobrir o caso, os carolas se esforçam por manter o casamento, e tudo fica como se nada tivesse acontecido. Já Sílvio, um dos operários de Cruzeiro e militante do Partido Comunista, analisa durante a greve o relacionamento com a esposa religiosa e identifica seu comportamento sectário em relação à mulher. Decide que tão logo termine a greve aproximará a companheira da luta dos operários.

Os padres visitam o acampamento. Seu propósito também é enfraquecer a greve: querem que as mulheres e crianças abandonem o acampamento. Diante da negativa veemente das mulheres, o vigário puxa pela oração, apelando para a exploração do sentimento religioso das massas. Rezam as mulheres: uma, duas, três vezes. Mas nada muda suas opiniões:

— Então, minhas filhas, vão se retirar da estação?

— O senhor quer rezar, então a gente reza. Mas só saímos daqui com os atrasados na mão — é a resposta.

Uma a uma as barreiras vão caindo diante dos punhos operários. Clero, exército, polícia, oportunismo, cadeados, correntes e locomotivas são derrubados com a justa linha de sua luta e a certeza inabalável da vitória.

Uma coisa preocupa os operários: a formação da comissão de greve de Soledade. A maioria foi composta de mulheres de altos funcionários da administração infiltradas no movimento. O temor é de que, na ausência de uma comissão central de greve, as negociações aconteçam em separado: se apenas uma comissão cedesse comprometeria a greve em todos os entroncamentos. É o que acontece. O superintendente da rede se tranca com a comissão de Soledade e se desmancha em gentilezas às madames. Estas se derretem e entregam o movimento combativo pelo recebimento dos atrasados e o pagamento em dia. Todos se enfurecem, mas o desfecho é uma vitória. Parcial, mas uma vitória. As mulheres ganham um relevo especial em A hora próxima. Não por ser uma obra dirigida a elas, mas porque retrata a maneira como agem as mulheres do povo, identificando o opressor — não o marido, mas o patrão que explora seu trabalho indiretamente na reposição da força de trabalho do homem. Assim, compreendem que sua luta não se dá separada da dos homens de sua classe. Entendem que a luta pela emancipação das classes é a sua luta, e nela elas têm um papel de destaque, ao contrário dos que querem fazer com que as mulheres dirijam sua fúria, milenarmente aprisionada, contra os homens.

Heroicidade, bravura, ousadia. Tantos adjetivos seriam adequados para os atos que se sucedem em uma greve, a expropriação de um latifúndio ou uma revolução.

A hora próxima reúne num único romance as provas de que as massas fazem a história e, tomando em suas mãos o próprio destino — até então cruel por natureza — elas, e mais ninguém, o modificam impiedosamente a seu favor.

Escrito há 50 anos, A hora próxima se refere ao grande momento em que as massas, protagonistas de uma ação política organizada e revolucionária, dirigirá a humanidade ao rompimento da aurora. Não se trata, portanto, de uma hora que deva ser aguardada, que chegará naturalmente. A narrativa de Alina Paim se prende à ação das massas, sem contudo tornar-se aprisionada de factualismos e justificativas. Sem perder a característica de arte, sua literatura a eleva admiravelmente, enquanto desvenda o caráter podre e decadente da opressão e da sociedade de classes — essa mesma, que traz em seu seio o germe do novo, das fecundas lutas populares que conduzem o proletariado à vitória final.

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